5 de outubro de 2004

A Quinta das Alarvidades

Foi lindo, lindo, lindo! Adorei a estreia do mais aguardado, publicitado, mediatizado e alardeado programa de televisão dos últimos tempos em Portugal que nos vais mostrar aquilo que, de certo modo, todos sonhávamos ver: políticos, vedetas bonitas e coquetes de segunda linha e o snobismo cabotino e balofo de um certo tipo de celebridades, arrastado pela lama, a tomar banho de água gelada gota-a-gota, a dormir paredes meias com as cabras, as vacas, os burros, os cavalos e as galinhas, sem luz, sem água canalizada, a acordar embalados pelo cantar dos galos e o estimulo olfactivo mais penetrante do que qualquer essência Channel ou Dolce&Gabbana, o cheiro da bosta fresca. Se não soubesse de antemão que eles são reais e existem mesmo, julgaria que Cinha Jardim e José Castelo Branco eram personagens de uma qualquer comédia britânica de alta qualidade; foram alfinetadas atrás de alfinetadas, situações de alta comédia que conduziam inevitavelmente ao riso, o meu e provavelmente o de mais de 4 milhões de portugueses que estavam a assistir, num efémero mas indiscutível recorde de audiências. Parabéns á TVI e á Endemol.

Enquanto num canal da concorrência, o corredor de fundo e grande perdedor da noite em termo de numero de espectadores, Herman José e respectiva trupe, se esforçavam por colocar brilhantemente ao ridículo o Rei do JetSet, tanto num magnifico sketch como com alguns comentários ao vivo e em cima do espicaçansso, aquele que foi tão sabiamente apelidado por Alexandre Frota de «Conde de White Castle», a mais feminina das celebridades masculinas, estava imparável na TVI, no seu estilo peculiar critico e mordaz: mandava recados cúmplices e ambíguos ao humorista de serviço na SIC, distribuiu generosamente sorrisos entre os lábios envernizados, rolava, rebolava e bamboleava no seu andar erótico com movimentos atómicos, traçou, destratou, esbracejou, esvoaçou, arrasou com a Paulo Coelho, insinuou que a Júlia Pinheiro se veste mal, cochichou constantemente com Cinha Jardim (… e quem cochicha o rabo espicha!), partiu um copo de champanhe, falou com os talheres (Que chique!), quis tomar Xenical antes da ceia á portuguesa, criticou a decoração, ficou deprimido quando julga que lhe faltam malas, tropeçou nos saltos rasos (Quem não sabe andar de sapatos estilosos, calce chinelos!), apanhou a merda do cão, fez uma imperdivel recriação da Beatriz Costa, mostrou-nos o panorama do seu traseiro enquadrado num magnifico fio dental e ressonou imenso, apesar de ter afirmado momentos antes que até á dormir tinha estilo… estilo alarve e porquino, esqueceu-se de referir.

Este programa tem aquilo a que eu chamo, um didactismo divertido, porque entretêm e ensina ao mesmo tempo. Aprendemos que quando se zangam as comadres, as verdades tomam forma e vêem sempre ao de cima e que certas vedetas têm mais vícios, gostos e cumplicidades privadas em comum do que pode parecer á primeira vista. Ficámos a saber também que a Júlia Pinheiro consegue dialogar com um burro que lhe mordisca a perna apesar de ter medo dele, que existem actores porno com ar de bruta-montes mas com sensibilidade e sentido de humor e que há homens mais tias que as tias e que apesar de mais femininos que a maioria das mulheres femininas, podem simultaneamente ser casados e pais de filhos; poder-se-á dizer que nesta fogueira de vaidades, tivemos, não o terceiro, mas o quarto sexo em prime-time.

Mas não será esta Quinta das Alarvidades um retrato-metáfora do estado do país em que vivemos? Sem luz ao fundo do túnel que nos guie? Sem água canalizada para lavar as mãos sujas que por aí andam? Onde na Escola C+S de Colares (Sintra) os alunos são proibidos. por um director neo-salazarista, de usar mini-saia, calções, chinelos, decotes ou dizer palavrões, sendo obrigados a tratar os professores, que felizmente já devem estar todos colocados, por «Senhor Doutor»! Um país em que cada projecto do governo, em que cada nova lei ou decreto cheira a bosta. Onde proliferam as bichezas: as vacas, as cabras, os burros, as mulas e os porcos, na sua maioria doutorados e supostamente bem pensantes. Onde um ex-lider do partido do governo é mais pernicioso para o governo do que toda a oposição. Onde quer no líder da oposição quer no chefe do executivo os estilo fashion é mais notório do que qualquer conteúdo.

Nesta Quinta de nome Portugal, as moscas mudam mas a bosta é sempre a mesma. O Presidente da República, no seu discurso das comemorações do 94.º aniversário da implantação da República, comparou a situação que se vive em Portugal com o período do marcelismo, com o país a atravessar uma crise múltipla que está a ser agravada por medidas avulsas tomadas pelo Executivo, que nada resolvem, pelo que é urgente avançar com reformas estruturais, as quais dependem de “decisões políticas”, que “não são neutras”, considerando quatro condições essenciais para avançar com as reformas estruturais: a definição pública de um projecto claro e coerente, o empenho dos responsáveis governamentais; uma acção pedagógica para mobilizar os agentes económicos e sociais e a renúncia a medidas parcelares e sectoriais. E o que fez o Primeiro-ministro perante estas palavras? Fez de imediato orelhas moucas e desvalorizou a situação como é seu hábito. Com todo o respeito e admiração, tarde falou, Dr. Jorge Sampaio! E medite longamente no facto de provavelmente ir ficar para a história desta nação, como aquele cuja decisão despoletou a completa decadência e queda abrupta de um país, conduzindo-o á mais completa miséria e desolação.

De uma coisa estou certo: O espectáculo continua dentro de instantes.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro