2 de novembro de 2004

Barreirómano

Existem paixões e vícios públicos e privados na vida das pessoas que muitas vezes não têm muita explicação, nem muitas razões, mas persistem em manter-se ali, á vista de tudo e de todos, sem sabermos sequer como começaram ou como vão findar. Mas estas razões sentimentais, são assim mesmo, sem necessitarem de algo que as justifique, vindas directamente do coração e do foro emocional, engrandecem-se e agarram-se á nossa vida sem que possamos fazer nada.

Eu não nasci no Barreiro, nem sequer nunca aí vivi. Sou lisboeta de corpo e alma, nascido e criado entre as colinas desta cidade eterna; fiz-me gente deambulando entre as ruelas do Bairro Alto, Santa Catarina e o Bairro da Bica. Também já vivi na Alameda e em Benfica. Até já vivi alguns anos no Brasil. Mas apesar de não haver laço nenhum aparente que me ligue ao Barreiro. Gosto dessa terra como se fosse a minha, com um gostar de alma, ainda mais profundo a meu ver do que um gostar de sangue, de nascimento, de tradição, de raiz ou de família. Sou um barreirómano, confesso! E por mais voltas que a minha vida dê, volto ao Barreiro, a minha terra adoptiva, sempre com emoção e redobrado prazer.

Será por certo a plácida travessia das águas á chegada, a encantadora singularidade miniatural da zona velha, a magnifica vista da zona ribeirinha com Lisboa no horizonte, a austeridade modernista da zona industrial, os louváveis investimentos em betão e tijolo por parte da autarquia, entre outras coisas, que me fazem gostar dessa terra. Mas são sobretudo as pessoas, afáveis e acolhedoras, interessantes e interessadas, lutadoras e determinadas, empreendedoras e optimistas que me fazem amar essa terra, tanto ou mais do eu amo aquela que me viu nascer.

Em tempos, quando a minha actividade profissional principal era o teatro e a animação cultural, organizei varias actividades no Barreiro: desde um campo de trabalho internacional para a juventude até mostras de vídeo, passando por espectáculos, inclusive para as festas da cidade. Foram tempos muito gratificantes para mim, pois, tirando os problemas com o anterior executivo camarário que não merecia sequer os munícipes que tinha, sempre fui acarinhado pelo generoso público barreirense e tive o privilégio de conhecer pessoas fantásticas que nas colectividades, associações e outros organismos lutam diariamente para que a cultura nessa cidade exista realmente e se mantenha viva; falo-vos dos Penicheiros, do Tesfal, do ArteViva, do TEB, do Carlos Ramos, da Teresa Branco e de tantos outros que seria fastidioso enumerá-los todos.

Estive afastado quer dessa cidade, quer das actividades culturais, durante muitos anos, refém de razões estranhas que só a vida pode explicar. Mas voltei agora, como que regressado do mundo dos mortos, porque nunca é tarde para recomeçar e refazer uma paixão. Esse retorno ao princípio coincide também inexplicavelmente e por pura coincidência a um retorno ao Barreiro, por ora apenas através destas crónicas que vos faço chegar semanalmente. Em breve, se calhar através de outros projectos e outras ideias, quem sabe, vontade existe é certo, faltam os entrosamentos, os reatamentos dos laços e dos nós, os convites e as oportunidades para os quais estou de coração aberto e disponível; mas tudo a seu tempo.
Isto tudo para dizer que acredito muito nessa cidade e em especial nas suas gentes; tem tudo para dar certo, inclusive o espírito empreendedor e o optimismo para tornar o Barreiro num local melhor, mesmo com todos os complexos históricos e por vezes histéricos de um passado industrial e enraizados numa esquerda estrema que se calhar já não faz muito sentido, mesmo ostracizados e ignorados pelo poder central, mesmo sem uma ponte directa com a margem norte. Espero que o actual executivo da Câmara Municipal saiba entender e acarinhar os munícipes e consiga canalizar toda a força telúrica que tem em mãos, investido em pessoas e não em betão e tijolo, dando primazia á formação e motivação em detrimento dos fogos fátuos que duram um momento e que não deixam semente para o futuro. Lembrem-se que o maior optimismo também esmorece e os empreendedores deixam de o ser quando não existe uma centelha que lhes dê vida. Agora é o momento! É agora ou nunca… sob pena do Barreiro se tornar apenas uma sombra de outras cidades da margem sul do Tejo.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro