9 de fevereiro de 2011

Maiores exportações portuguesas: carne humana e massa cinzenta


No início desta semana o Eng. Sócrates em Santa Maria da Feira vangloriava-se de um aumento de 15,8% nas exportações e tecia duras criticas à oposição por considerar inoportuno a discussão á volta de uma possível moção de censura ao governo, que tal como afirmou Paulo Portas, não se anuncia, apresenta-se. Servia a referida fogueira de vaidades do senhor engenheiro, que dava pelo nome de «Congresso de Exportações», para anunciar a abertura de uma nova linha de crédito às referidas e mais não sei quantos milhões para apoio ás mesmas. Segundo o mesmo engenheiro, numa perspectiva puramente mercantilista e imediatista, o que interessa realmente é mandar coisas lá para fora, porque este humilde burgo de 800 anitos, já está seco e já deu o que tinha a dar. Numa visão inversa à salazarista, que ligava um aspirador nas colónias e alimentava a metrópole, o nosso visionário primeiro-ministro, liga um aspersor em Portugal e secando-o, porque o aumento de produção não consentâneo nem realista com o previsional, alimentará o Mundo com as suas exportações.

Olvidará por ventura o cidadão José Sócrates, que este país, que já deu mundos aos Mundo, nunca foi muito profícuo em matérias primas, nem em grande produção agro-pecuária, nem em força industrial, nem em coisíssima nenhuma, senão em engenho e arte, para parafrasear Camões. Foi o dito capital intelectual que elevou o Portugal de quinhentos à qualidade de uma das maiores nações do planeta, sempre foi a habilidade, a investigação, a criação, a arte e a capacidade inventiva sem limites que tornou os portugueses notados e notáveis; em terra onde a riqueza não abunda, há que aguçar o engenho, ou, citando uma expressão vernácula, ‘quem não tem cão, caça com gato’.

A leitura das estatísticas referentes à emigração portuguesa na primeira década do séc.XXI é inequívoca num ponto; estamos realmente a exportar, mas não azeite, vinho, cortiça, calçado ou papel, mas sim gente, massa cinzenta, ideias, criadores, investigadores e a hipotecar o futuro desta terra que será juncada de velhos retrógrados, rezingas e com baixo nível de escolaridade e especialização profissional. A emigração a que me refiro, ao contrário do período 1930-1970, é maioritariamente de quadros técnicos, gente com ideias e bem sucedida na vida, que de alguma forma procura melhores oportunidades, se cansou dos mandos e desmandos dos pobres de espírito que há já algumas décadas decidem os destinos deste país ou que simplesmente está farta de dar pérolas a porcos.

A estratégia neo-fascista de tornar os portugueses o mais brutos, iletrados e incultos possíveis, parece ser a mira do regime Socrático, cujo lema parecer ser «Só sabem que nada sabem e também não estão interessados em saber mais». Ora vejamos, por um lado desinvestimentos claríssimos do estado em matéria de educação, redução drástica das verbas destinadas ao fomento da cultura e por outra lado, apoio á mobilidade dos artistas e criadores, bolsas a torto e a direito para estudo, investigação e especialização lá fora, verbas para o ano da cultura portuguesa no Brasil… isto só para citar alguns. É como quem diz: vai e não voltes! Vera Mantero, a conhecida bailarina e coreografa, afirmava num seminário sobre internacionalização no CCB que, os jovens bailarinos e coreógrafos, vão para o estrangeiro fazer formação e já não voltam. Não era preciso a Vera ter dito aquilo, é uma coisa que se constata todos os dias; amigos, inimigos e conhecidos de reconhecido valor artístico e intelectual a irem viver e trabalhar lá para fora.

O júbilo e regozijo do Engenheiro Sócrates devia ser no ter conseguido realmente aumentar as exportações portuguesas de forma imparável e impensável até há uns anos,num verdadeiro acto canibalista e barbaro, enxugando e dilacerando a maior riqueza de Portugal: o seu capital intelectual. Porque a emigração aumentou 52,6% entre 2000 e 2006 (Relatório Internacional sobre Migrações de 2007 da OCDE) e porque as novas exportações são de gente, de carne, de ideias, de habilidades; feitas de nomes como Maria João Pires, Cristiano Ronaldo, José Mourinho, Paula Rego, Eugénia de Mello e Castro e um sem fim de criadores, artistas, investigadores, cientistas, enfim, gente válida.

28 de maio de 2007

A Solidão da Escrita

A morte tal como a escrita é, por norma, um acto solitário. Já não me recordo de quem o autor desta ideia, mas lá que é verdade, não tenho qualquer dúvida, pois tal como é raro alguém falecer em conjunto com outrem, de forma acidental ou programada, também não é vulgar escritas a mais do que duas mãos. Mas enquanto a morte é algo certo e inevitável, que podemos adiar sem nunca poder fugir dela definitivamente, a escrita é algo incerto e que podemos sempre adiar; a constrangedora introspecção que é o confronto com o espaço branco que urge povoar de caracteres por vezes teima em não fluir e caprichosa exige-nos tempo, ausências, silêncios longos e respirações compassadas.

Por norma sou regular na escrita, mas por vezes, como se passou nos últimos tempos, preciso de um período de carência, de ler sem opinar, de contenção e de economia de palavras. Durante esse tempo este espaço ficou silenciado, para grande pena minha, pois sabia que você, caro leitor, continuava a cá vir na esperança que de mim brotassem mais textos, mais novidades e opiniões. Quero que saiba que senti saudades desta nossa comunicação unilateral, desta nossa conversa sem retorno, deste meu solilóquio acabado.

Mas no fundo o que importa é que voltei, para escrevinhar e opinar com a maior frequência possível. Voltei para ficar até que a voz se extinga, sabe-se lá quando.

31 de outubro de 2006

Admirável Portugal Novo

Normalmente as pessoas valorizam pouco aquilo que não é conquistado, isto é, as coisas que são conseguidas sem algum esforço são na maior parte das vezes sensaboronas e não devidamente apreciadas.

Quando foi dada aos portugueses, com a Revolução de Abril, a liberdade de fazer e dizer, para uma boa parte deles não significou ínfima e intimamente grande coisa; hoje não se pode, amanhã pode-se, numa conquista pouco saboreada e inesperada, fruto de uma reivindicação laboral e de classe que inadvertidamente fez cair de podre um regime, que já de si mal se aguentava em pé.

Depois foram as políticas, o apreender da democracia, a liberdade, a consciencialização das realidades e das dificuldades económicas, o reposicionamento de Portugal no Mundo e as mudanças, profundas para uns e apenas cosméticas para muitos. Depois vieram as soluções de compromisso dos pseudo-reformistas, a economia de mercado e liberalista, a adesão á União Europeia, a Era Dourada do cimento e do betão, em que o fluxo de riqueza oriundo das colónias foi substituído pelos fundos provenientes da Europa. Foi preciso que tudo mudasse para que tudo ficasse praticamente na mesma. Mudou-se o sistema político mas não se reformaram verdadeiramente as instituições e estruturas que tinham sido criadas para servir o regime cessante. Mudaram-se os tempos, mas as vontades e mentalidades continuaram quase na mesma.

Sou pessimista e desconfiado por natureza, mas é com orgulho, satisfação e esperança que afirmo que este país está finalmente a empreender o conjunto de reformas e a revolução de mentalidades que urgia que se tornassem realidade desde a primavera de 1974. Atravessamos um momento decisivo como nação: acabou o tempo dos pareceres e vislumbra-se uma verdadeira mudança no ser, no íntimo, na alma da grande maioria dos portugueses. Antes que as sondagens digam que a maioria das lusas gentes querem ser espanholas, é necessário levar em diante este projecto de mudança de mentalidades dando um novo sentido ao orgulho de ser quem somos.

São as reformas na obsoleta Administração Pública central e local, criada para servir os ideais do Estado Novo e que nunca foi devidamente reestruturada na sua génese. São as reformas na justiça, na segurança social, no sistema de ensino, na política, no combate ao espírito elitista e corporativo do eterno favorecimento de alguns. É o enxame de novas ideias e respectivos empreendedores. È a pluralidade e frontalidade do debate público de ideias como a despenalização do aborto, os direitos dos homossexuais e o problema das drogas. È a consciencialização sobre os diferendos da sexualidade, um dos principais problemas da saúde mental dos portugueses, segundo alguns psiquiatras, através de actos clínicos, de actividades de educação sexual e planeamento familiar, de novelas e programas de televisão, da comunicação social em geral e de conversas francas e despudoradas em particular. São os movimentos de vanguarda artística emergentes, na área da dança, da multimédia, do teatro, da performance, das artes plásticas, da música.

Tudo isto e muito mais, abrem as portas desse Admirável Portugal Novo. E como depois da crise institucional e de valores que atravessámos, são coisas que estão a ser dolorosamente conquistadas, espero que venham para ficar, para se enraizar e dar viçosos frutos a médio prazo.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

17 de setembro de 2006

O Sol quando nasce não é para todos

No passado sábado, dia 16 de Setembro, saí rua para ver se, das duas uma, ou me deleitava ou me desiludia com o novo semanário dirigido por José António Saraiva. Desde já, parabéns pela audácia e espírito empreendedor deste novo projecto. Depois de percorrer algumas bancas e pontos de venda constatei que o Sol quando nasce não é para todos, pois do Sol de papel nem a sombra consegui vislumbrar; tive de me contentar com o reduzido Sol digital ou com aquele que nesse dia até brilhava generosamente no céu e que, como diz o poeta, peca, quando em vez de criar, seca.

Basta a ânsia aguda dos portugueses por novidades, uma refrescante campanha publicitária e a promessa de trazer luz ao cinzentismo da comunicação social estabelecida para fazer evaporar 128 mil exemplares do jornal em menos de 2 horas. A curiosidade matou o gato e pelos vistos, fez esgotar o Sol. Eu até nem sou de ir em ondas e modismos, no entanto, tal como muitos compatriotas, calcorreei as ruas de quiosque em quiosque, na esperança vã de conseguir um exemplar disponível: uma jornada perturbante em busca de um Sol que só chegou para alguns.

Esta febre de leitura, esta curiosidade, esta senda por umas folhas de papel, só me faz parecer que os portugueses, e perdoem-me a metáfora, procuram desesperadamente um lugar ao sol, uma luz ao fundo do túnel escuro que percorrem há já algum tempo, um esboço de cor nas suas vidas, uma centelha de novo e de esperança e um ruptura certa com os valores e símbolos que pautaram o seu passado recente. No entanto não nos devemos deixar ofuscar com os brilhos, tanto na vida como na comunicação social, pois muitas das vezes eles são efémeros e falsos, tal como as promessas e as virtudes públicas. O público cruel, implacável e sempre soberano, tanto glorifica o bom como o mau, para sem qualquer remorso, eventualmente votá-los ao fracasso pouco depois, engrandecendo a angústia de uma morte anunciada, que já assolou tantas redacções de jornais deste país.

É urgente continuar a sonhar! Mas também é preciso nos desiludirmos todos os dias, pois só assim os sonhos se transformam em ideias, em projecto e em realidades e não mera ilusões dos sentidos. É preciso inovar mas com cautela! Pois como pude constatar, o sol quando nasce, ainda não chega para todos.

12 de setembro de 2006

LIQUIDEX

Lá afirma a antiquíssima e popular expressão portuguesa de que pagar e morrer é a ultima coisa a fazer. Se a esta adicionarmos o não menos famoso aforismo de que quem paga adiantado fica sempre mal servido, devidamente ornamentado com outras pérolas da sabedoria do povo como – com o mal dos outros posso eu bem, tristezas não pagam dívidas e o extraordinário pobretes mas alegretes, chegamos á triste mas irrefutável conclusão de que talvez estejamos perante um pais de pobres vigaristas, animados burlões e relapsos endividados, mas sempre alegres e de cabeça erguida, na verdadeira tradição do bom-malandro lusitano.

Como os exemplos devem vir sempre de cima, segundo os estudos “European Payment Índex 2005” e ”Spring Report 2006”, elaborados pela Intrum Justitia, líder europeia na gestão de serviços de crédito, com base em questionário respondido por mais de 9.000 empresas de 22 países europeus, o Estado Português foi considerado o pior pagador de entre os 22 países europeus estudados, demorando, em média, 150,8 dias a regularizar as dívidas que contraiu. Salvo raríssimas e honrosas excepções, o estado como cumpridor das suas obrigações dá um péssimo exemplo aos privados, pois não só não se coíbe de contrair dividas monstruosas e incomensuráveis, assim como mostra não ser pessoa de bem, pagando mal e tarde e a más horas, chegando mesmo ao despautério de, no caso de certas câmaras municipais, de levar quase4 ou 5 anos a pagar uma dívida.

Num país onde pouco se cumprem horários e compromisso, onde se marcam encontros e reuniões para hora incerta - entre as três e as três e meia – por exemplo, onde a lei não é para cumprir á risca porque é considerada uma mera sugestão de conduta, o acto de dever tornou-se tão natural como o de beber. O incumprimento tornou-se um lugar comum e alastra de forma perniciosa como a peste: do estado, para as instituições, fundações, associações, grandes empresas, pequenas empresas, micro empresas e até para os particulares, quase todos devem e pagam as suas dividas tarde, sem sentirem que isso põe em causa o seu bom nome e a sua integridade moral, sem qualquer sombra de remorsos ou qualquer outro problema de consciência, quer individual quer colectiva.

Numa lógica de - olha para o que eu digo, mas não olhes para o que eu faço -, qual a moral do estado para convencer ou obrigar os contribuintes a cumprir, se o próprio estado é o maior prevaricador e incumpridor? Qual o incentivo á produtividade, ao empreededorismo e ao investimento num país onde quase ninguém liquida as suas obrigações nos prazos devidos? Como é que é possível as empresas terem uma boa saúde financeira quando, além da pesadíssima carga fiscal, são forçadas a cumpri-la e a liquidar o IVA, por exemplo, antes mesmo de receberem o referido valor do cliente? Não há capacidade que valha, não há paciência que aguente, não há justiça que chegue! Entregar dinheiro a alguém, neste caso o estado, que nos deve dinheiro, é algo que roça o absurdo.

Fala-se na conjuntura, em problemas estruturais de fundo, no desemprego, na herança de décadas de obscurantismo durante a ditadura, fala-se de um problema social e cultural… fala-se muito, mas cumpre-se pouco, pois mais do que identificar as origens importa é corrigir o problema e, dando o exemplo, dar uma nova luz de esperança e rigor ás transacções nacionais. Temos de nos consciencializar todos, quer como indivíduos, quer como membros dos múltiplos colectivos que constituem o tecido empresarial e institucional do país, que pagar tarde e fora do prazo estabelecido contratualmente com o fornecedor, é moralmente, quase equivalente a pagar nunca: é burla, é vigarice, é indigno, é desonesto, é injusto, é ilegal, é prejudicial! Pagar dever ficar para sempre dissociado de morrer, pois o não receber atempadamente é que é a única coisa que leva á morte prematura das empresas e das instituições, conduzindo a economia ao estado moribundo em que se encontra.

Será possível modernizar a Administração Pública? Facilitar a vida ás pessoas? Dar ás empresas a rapidez que precisam? Segundo afirma o governo, é claro que sim; com o Simplex, programa de simplificação administrativa e legislativa, já quase completamente implementado e com resultados práticos visíveis e interessantes.

Caro senhor Primeiro-ministro José Sócrates, caros lideres da oposição, depois do Simplex, é necessário implementar com urgência desmedida o Programa Liquidex, programa de pagamento das dividas do estado e das autarquias a tempo e hora de modo a darem o exemplo e serem consideradas pessoas de bem e a fomentarem assim verdadeiramente a economia. O Programa Liquidex deve ser, a meu ver, a ferramenta primordial para moralização, incremento, dinamização e regulamentação das transacções comerciais de Portugal.

Costuma-se dizer que uma pessoa só morre quando tem que morrer, quando chega a sua hora, o momento exacto, o instante certo. Neste ponto, pagar dever ser tal e qual como morrer: quando chega a hora, no momento exacto da data da factura, no instante certo acordado com o fornecedor.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

21 de agosto de 2006

CRÓNICA CHEIA DE NADAS

Como está é a ultima crónica antes das férias, decidi escrever sobre isso mesmo; sobre o tempo de não fazer nada e onde aparentemente nada acontece. Verão é tempo de praia, de sol, de mar, de campo. Verão rima com paixão, com despossessão, com descontração, mas também rima com meditação, com introspecção e com reflexão. Lá por ser um tempo que apela ao descanso dos corpos, não quer dizer que isso implique a inércia do espírito, muito pelo contrário: no desafogo da fuga natural das preocupações e afazeres da rotina quotidiana, refastelados entre sol e sombra no embalo da brisa, é a altura ideal para olharmos um pouco para dentro de nós e percebermos qual o nosso papel no enorme xadrez que é o futuro de todo nós.

Como a crise prolongada cria mossas e para muito de nós o dinheiro não abunda, há que fazer as malas para não partir, ficando por cá, ou seja, não indo a lado nenhum, reduzindo assim no período estival o raio de acção àquela amplitude que tem o ano todo. A realidade para muitos portugueses este ano será essa mesmo; uma férias que se limitam a umas idas á praia, uns jantares por fora, umas patuscadas com os amigos e pouco mais. Neste tempo de não partir tão cheio de Nadas, deve ser uma época de reflexão suave sobre o passado, ponderação do presente e planeamento esperançoso do futuro.

Esquecendo por momentos os horríveis e inenarráveis acontecimentos no Médio Oriente e as querelas estúpidas em sem sentido na Assembleia Legislativa da Madeira que proíbem os jornalistas do sexo masculino de entrar de T-Shirt, é tempo de acreditar num futuro melhor para este país. De todo o lado surgem pequenos sinais de que estão a ser tomadas as medidas certas e necessárias, que algo de bom nos espera nos tempos vindouros e que o por vir, se não for propriamente risonho, pelo menos não será triste de certeza.

Fala-se em especialização, em competência tecnológica, em competitividade, em reestruturação, em investimento estrangeiro, em sucesso na diminuição do défice público e numa montanha de outros conceitos inteligentes e interessantes, tendo-se estado efectivamente a desbravar os caminhos e estradas que conduzirão aos mesmos pelo meio do matagal da pesada herança de incompetência, despautério e improdutividade que caracterizou o passado recente. No entanto, para atingir a excelência, a glória e o tão esperado progresso falta apenas um pormenor, um pequeno nada de que tudo depende: a vontade íntima e ínfima de cada um de nós.

A desmotivação, a falta de determinação e objectivos tem sido um lugar comum para muitos portugueses. Chegou a altura, o momento exacto de, através da reflexão e meditação, mudar esse estado de alma de modo a que esta nação de nome Portugal, possa conquistar o lugar ao sol que tanto anseia e que pode ser seu por mérito próprio. Chega de indefinições, imprecisões, inconsistências e falta de vontade, cada um de nós tem de acreditar e por em pratica aquilo em que acredita. Há que dar o salto, o passo em frente e tornando os sonhos realidade, passar do idealismo á iniciativa. Há que ser audaz, persistente e empreendedor; não só profissionalmente, mas também a titulo pessoal, amoroso e familiar.

Que este Verão seja o primeiro do resto das vidas de todos nós! Um inicio de um novo ciclo! Por isso, agora que o calor convida ao repouso merecido do corpo, ponha a mente para trabalhar: programe, planeie e cumpra! Aquelas idas ao ginásio adiadas á tantos anos! O fim de uma relação á muito anunciado ou o inicio de uma nova, cuja indefinição a tem arrastado para águas mansas de suposta amizade! Procure o novo emprego que sempre ambicionou ou mude de atitude de modo a que o emprego de sempre lhe pareça novo e emocionante! Inscreva-se naquele curso de pintura ou teatro de modo a explorar aquele suposto talento profissional que ficou relegado para passatempo eternamente adiado! Mais do que benemérito seja justo! Mais do que esperto seja inteligente! Mais do que gentil seja bondoso! Mais do que educado seja correcto! Mais do que intencional seja determinado! Mais do que amoroso seja apaixonado! Estude! Leia! Ame! Viva! Parar é morrer! Desistir e adiar também!

O Verão, tal como esta crónica, é feito de pequenos Nadas. Pequenos nadas que são quase Tudo. Pense nisso e boas férias.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

21 de junho de 2006

DIA D

Enquanto a populaça vibra com os futebois e quase provoca uma hecatombe em pleno C. C.Colombo na senda de um autografo dos actores de «Floribella», o Presidente da República mais sul-americana da Europa se enche de gáudio e passeando-se alegremente pelo maravilhoso mundo novo e perfeito da biotecnologia, enquanto a oposição, á esquerda se tenta reinventar no vazio ideológico e gasto de si própria e á direita tenta encher o vazio dos ideais com militância coorporativas balofas e sem sentido, o governo actual dito moderno, urbano e pró-activo, faz o que quer e o que bem lhe apetece, ou seja, muito pouco. Num país em crise e cheio de problemas, ainda há coragem de lançar monumentais obras de engenharia, como referido no programa «Eixo do Mal» da SIC: uma ponte entre o passado dia 9 e 19, coisa julgada impossível, improvável ou mesmo pouco recomendável, que até S.Pedro indignado, castigou com chuva torrencial, raios e coriscos invalidando uma ida á praia e, em conjunto com o excesso de velocidade, de álcool e de cabeça louca dos automobilistas, fez disparar a sinistralidade rodoviária e inclusive o numero de mortos na estrada em relação a igual período do ano transacto. Haja audácia! Haja coragem! Haja circo, porque o pão para alguns já vai faltando.

Eu sei muito bem que tristezas não pagam dívidas e que não adianta chorar sobre o leite derramado, mas não compreendo a razão para tantas férias, festas e despreocupações; ou fomos todos atacados por uma espécie de amnésia e alheamento dos problemas reais do país, submergidos numa qualquer demência colectiva ou somos mesmo um povo destemido, inconsciente e inconsequente. Quando testemunho diariamente caso mais ou menos graves como o da fábrica da Opel na Azambuja, não compreendo as atitudes das pessoas em geral e dos políticos em particular. Segundo estatísticas do IEFP, vulgo Instituto de Emprego e Formação Profissional, o desemprego diminui no geral 2.8% mas subiu nos licenciados em particular 17% em comparação com igual período de 2005, facto que é deveras preocupante e incongruente com o discurso politico que quer fazer desta terra um lugar mais competitivo, mais tecnológico, mais produtivo e mais qualificado. Ou sou eu que estou alucinado e envolvido em miragens ou estes números revelam que estamos possivelmente a caminhar na direcção errada. Ou pior ainda, que se diz uma coisa e empreende-se outra.

Ninguém se julgue seguro ou imune, quando menos se espera ele surge de forma inesperada e catatónica – o Dia D – dia do desemprego, da desgraça, da desconstrução, do descalabro, da desilusão, do desespero. Falo por experiência própria: á cerca de ano e meio que também ele bateu á minha porta, deitando os meus sonhos por terra e transformando-me a vida numa espiral descendente e imparável até ao zero absoluto.

Estar desempregado, nos primeiros tempos até chega a ser engraçado; mais tempo livre para a família, coloca-se as leituras em dia, gasta-se o subsídio de desemprego e a indemnização (se a houve!), responde-se a anúncios a vai-se a entrevistas de trabalho sem sucesso. Assim se vai vivendo, ou melhor, sobrevivendo, sempre de olhos fitos na esperança, porque essa é a última a morrer.

Depois, lentamente, começamos a abrir os olhos para a dura realidade: o Factor C, que tanto pode significar cunha, conhecimento, cama, compadrio ou mesmo corrupção e que no passado assolava basicamente o sector dito público, hoje em dia sagra em toda a nossa sociedade, sendo a isenção, profissionalismo e imparcialidade, um pódio de excelência onde cada vez cabem menos excepções que só vêem confirmar a regra. O IEFP, espécie de Instituto Nacional de Estatísticas dos Desgraçados-que-não-conseguem-obter-um-emprego, não serve para nada além de convocar os inscritos de tempos a tempos para conversas vazias e colmatação de lacunas estatísticas, para enviar os mesmos para formações profissionais não desejadas ou desajustadas (Porque as adequadas ou desejadas não existem ou são bem pagas), sempre numa relação autoritária e com base no terror, do tipo: «ou cumpres com os nossos desmandos disparatados ou retiramos-te a tua magra fonte de subsistência». O IEFP serve ainda para desbaratar dinheiro subsidiando iniciativas locais de empregos, levadas a cabo uma parte das vezes por falsos empreendedores ou pessoas mal preparadas, que gastam os fundos atribuídos em coisas que nada tem a ver com os projectos apresentados, que não cumprem com o programado, que não pagam os impostos nem a segurança social, que se mantêm anos a funcionar na perfeita ilegalidade e que nunca são fiscalizados ou a quem nunca são pedidas contas dos apoios recebidos. Sei do que falo pois conheço exemplos reais.

Como não consegui ainda abrir conta num dos múltiplos balcões do Factor C que proliferam por aí, o Dia D ainda não saiu da minha porta… da minha e de cerca de mais meio milhão de portugueses. Considero-me um profissional rigoroso, honesto, cumpridor e estou disposto a trabalhar arduamente por um ordenado justo. Não tenho cunhas nem apadrinhamentos, não costumo fazer pontes, não gosto muito da «Floribella» e não ligo nada a futebois. Gosto de trabalhar e de produzir. Expliquem-me lá porque é que ainda não consegui um trabalho? Se calhar as minhas mais valias como profissional são desadequadas á realidade do país que temos… mas se calhar são as melhores para o Portugal que muitos gostariam de ter. Ou talvez não! Quando falo de mim, falo também muitos outros… dos quais um numero expressivo já emigrou.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

16 de maio de 2006

SINAIS EXEMPLARES

Acusam-me frequentemente de ser um desbocado e demasiado critico, de falar muito mal de quase tudo ou quase todos, de levar por diante um bota-abaixo continuo e implacável. Confesso que estas acusações têm o seu quê de verdade, pois na maioria das vezes o que me é dado a observar é mau, muito mau ou pior ainda. Mas por vezes surgem sinais, como aqueles misteriosos e inexplicáveis que marcam os campos cerealíferos, a que alguns atribuem origem divina, outros extraterrestre; tal como esses sinais que alimentam especulações e filmes, também no capim, no mato que é a cultura e sociedade portuguesa hoje em dia, surgem inextrincáveis e inegáveis sinais de vitalidade, de rigor, de excelência e que, embora de difícil explicação e de complicada interpretação, nos dão vontade de escrevinhar uma crónica dizendo bem.

A conhecida expressão portuguesa «coisa de museu», quer dizer algo bafiento, desusado, desinteressante e sem vitalidade, o que não podia ser a definição mais errada para caracterizar o desempenho do tecido museológico nacional, que na sua maioria são estruturas vivas, culturalmente vibrantes, com visão estratégica, rigor programático e profissionalismo, procurando sempre novos públicos e um papel intervencionista na sociedade que lhe cabe de direito. Não querendo diminuir o seu inegável valor e importância, o horizonte nesta área não se resume á mediática colecção Berardo, senão vejamos a programação do Dia Internacional dos Museus e também toda a actividade constante para além desse dia no Museu de Arte Antiga, no de Historia Natural, no do Traje, no da Água, no de Etnologia, no de Arqueologia, da Electricidade e em tantos outros. Muitos deles são a prova mais que viva de que com magras verbas se conseguem fazer suaves milagres.

Das magras verbas, passamos aos magros espaços. O que não falta por aí são excelentes espaços culturais, grandes e perfeitamente apetrechados e sem programação coerente, mortos e sem vitalidade, servindo criadores e interesses no mínimo obscuros e facciosos; mas sobre esse não vou falar nesta crónica. Vou falar de espaço pequenos que se tornam grande pela programação e dinâmica que geram: o Estúdio da Rosa, situado na rua do mesmo nome de flor é um deles, um espaço exíguo que vem provar que não é dos grandes tachos que saem os grandes cozinhados. Depois de exposições de pintura de grande qualidade, oferece-nos agora uma instalação de homenagem aos 33 anos de uma editora incontornável, a E Etc, que tem a coragem e o arrojo de, ao longo de mais de 3 décadas, nos oferecer a qualidade dita invendável, o pensamento na margem da torrente, o artístico e intelectualmente correcto mas por vezes socialmente inaceitável, enfim, a frescura da diferença cada vez mais necessária neste mundo tão igual a si mesmo. Na abertura desta instalação feita de livros, tivemos o privilégio de ouvir ler Alberto Pimenta por ele mesmo; algo depressivo mas tocante! Em complemento a estes magníficos 33 anos de vitalidade, quero salientar a mão cheia de editoras que surgiram nos últimos tempos e a fúria e força de trabalho de todas as outras que se mantêm no activo e que não param de nos presentear com novas e boas edições. E se isto não são sinais excelência, não sei o que serão sinais…

Este Maio, maduro Maio tem sido o mês de todos os teatros: com o Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa, com a Medeia de Euripedes numa belíssima tradução da saudosa Sophia de Mello Breyner e encenação de Fernanda Lapa, com o regresso dos que estiveram ausentes por muitos anos, como o encenador e performer Adelino Tavares, a actriz Teresa Madruga e como, passo a publicidade, eu próprio, que depois de 12 anos de ausência vou voltar de novo á cena dia 20 no Museu da Água com um espectáculo sobre Fernando Pessoa. Este mês, estavam programados mais de 100 espectáculos de teatro diferentes na área Metropolitana de Lisboa. Ufff! Se isto não é um sinal de vitalidade, por vezes excessiva, é certo, não sei o que são sinais…

Para terminar esta crónica de bem-dizer, quero salientar que a margem sul do Tejo, cada vez me surpreende mais, quer na positiva, quer na negativa. Fui ao Fórum José Manuel Figueiredo na Moita assistir ao concerto do LLoyd Cole; além de ter assistido a um magnifico espectáculo acústico que me fez viajar para os tempos em que no Frágil de outrora, me deixava emergir aos sons de The Smiths, The Cure, Elvis Costello, entre outros, fui amplamente surpreendido por excelente equipamento cultural com uma vitalidade e uma variedade e qualidade de programação que me deixou pasmo. Concelhos limítrofes, incluindo Lisboa, ponham os vossos olhos na Moita e aprendei alguma coisa! Puro sinal de profissionalismo, rigor e dinâmica.

Todos os exemplos que dei são sinais enigmáticos, sinais exemplares, sinais que ainda me fazem ter esperança num futuro melhor para esta terra amarga, verdadeiras flores no deserto que devem ser tidas em conta e que me obrigaram a fazer esta crónica de bem-dizer!
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

18 de abril de 2006

Disfunção Estéril

Os portugueses, desde a aurora da nossa história, são um povo produtivo, engenhoso, criativo e capaz, chegando mesmo a surpreender os mais incautos em tempos de adversidade. O problema deste país, é e sempre foi a classe dirigente, que salvo honrosas excepções, peca por ser incompetente, impertinente, culturalmente indigente, incongruente, inconsequente, subserviente ás influências estrangeiras e indiferente ás necessidades da nação. Outrora os monarcas, nobres e burgueses ricos e emergente, hoje os políticos, autarcas e gestores, têm quase todos a mesma invariável atitude: permanentemente ostracisados no próprio umbigo e interesses pessoais, pouco cientes da importância do serviço publico, pouco ou nada preparados para as funções que lhe foram confiadas, sem visão estratégica e demasiado focalizados na gestão do quintal que lhe foi atribuído, ignorando tudo á sua volta, numa miopia lamentável.

Uma boa parte dos portugueses que vivem noutros países, são empresários de sucesso como no caso dos que estão na Venezuela, no Brasil ou na África do Sul, são cientistas que glorificam centros de investigação e universidades estrangeira, são artistas de renome mundial como José Saramago ou Maria João Pires, ou são trabalhadores válidos, produtivos e dignos de mérito, como no Luxemburgo, um dos países com maior índice de produtividade da União Europeia, pejado no entanto de trabalhadores lusos. Quando vivem e trabalham em Portugal são aquilo que se sabe, aquilo que se vê e se constata, realidade á qual nem apetece tecer quaisquer comentários adicionais.

Emigração portuguesa existiu e continuará a existir, pelo menos enquanto os dirigentes e as Instituição da pátria ingrata continuarem a voltar as costas aos seus heróis, as suas cabeças pensantes ou simplesmente á massa anónima de força de trabalho que poderia fazer deste país uma realidade maior. O problema não é o povo, mas as instituições e quem as dirige; há bem pouco tempo, o director de um importante instituto publico, comentava comigo que «como a crise é grande, boa parte dos lugares de decisão estão ocupados por indivíduos claramente medíocres e que como têm noção do seu valor intrínseco, agarram-se ao poder com unhas e dentes, fazendo com que os realmente válidos fiquem no desemprego, caiam no desinteresse ou simplesmente emigrem». Eu não quis acreditar nas suas palavras de Velho do Restelo, mas com o passar do tempo, cada vez mais me convenço que ele tem razão. Talvez por isso, a emigração portuguesa do séc. XXI seja tão preocupante, porque é a debandada dos quadro, dos criadores, dos que pensam, dos que agem, dos que poderiam salvar este país.

O inacreditável acontece! Desrespeito dos desrespeitos: os funcionários de um grande Instituto publico decidem em bloco tirar os telefones do descanso durante uma manhã inteira de trabalho, sem uma justificação, deixando os contribuinte desesperados e a apinhados numa recepção onde a funcionária não sabe o que informar. Incongruência das incongruências: Delegações Regionais do Instituto da Juventude, tem ao seu serviço funcionários jurássicos, monolíticos e sem qualquer aptidão para o diálogo e atendimento, a fazer aconselhamento a um público juvenil. Balda das baldas: o facto amplamente noticiado na comunicação social de uma Assembleia da Republica praticamente vazia e inoperante para a função que lhe está destinada. Incompetência das incompetências: missivas que se ignoram, processos que se perdem, cartas registadas com aviso de recepção que não se respondem, diferimentos tácitos por inoperância ou falta de resposta, desacompanhamento de subsídios e financiamentos públicos, desbaratamento de dinheiro em projectos culturais que não se efectuam, e eu sei lá que mais.

Fiz uma pequena investigação por conta própria: telefonei na passada quarta-feira para inúmeros organismos públicos tentando falar com os responsáveis. Uma esmagadora maioria estava ausente em misterioso e conveniente serviço externo… na quinta-feira de manhã também já não se encontravam visto haver tolerância de ponto… o mesmo se passou na segunda-feira… juntando a isto, os que foram um pouco mais honestos e aproveitaram para tirar ferias efectivas nestes dias, pode-se dizer que quase tudo estava parado, com custos incalculáveis e exorbitantes a serem debitados aos já magros bolsos de cada um de nós. E o que importa é criar entraves, dificultar, problematizar, servir mal e assim apertar a entrada no círculo para que a roda dos privilegiados contemple sempre os mesmos.

Não vamos a lado nenhum com este mar de instituições acéfalas e inoperantes, de políticos amorfos e absentistas e dirigentes sem firmeza e pujança. Pior que a disfunção eréctil, que já tem uma azul solução, e a disfunção estéril que ataca a nossa classe com poderes decisórios. Disfunção Estéril de profissionalismo, de ideias e acções praticas, eficazes e efectivas, porque para essa ainda não existe remédio á vista.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

15 de março de 2006

Morangos Amargos

Agora que a Primavera já teima em fazer-se sentir, vem-me logo á memória as deliciosas frutas estivais como seja os morangos, doces, carnudos, sumarentos e de um vermelho quase pecaminoso. Os morangos quando são de boa qualidade, querem-se comidos assim, tal e qual se apresentam, apenas enxaguados numa fonte refrescante, e logo consumidos para deleite de todos. Os morando com chantilly são um profundo aburguesamento estrangeirado, hábito oriundo de países mais a norte, onde o sol não é tão generoso e por isso faz com que esta fruta não amadureça tanto e não se torne naturalmente tão doce. Há quem os consuma com iogurte, numa fusão láctea do sabor dos mesmos. São estilos diferentes, todos aceitáveis porque encerram em si o mínimo de bom gosto e como é sabido, estilos não se discutem. Juntar açúcar aos morangos é a menos recomendável e aceitável opção, porque o açúcar faz mal e deveria ser banido de qualquer dieta equilibrada, porque não faz sentido juntar doce a algo que já o é por si, porque mistifica o gosto dos mesmos sem revelar nenhum sabor novo fruto da fusão das partes, porque a textura granulada combina muito mal com a polpa carnuda e macia, porque num snobismo paupérrimo, não aproveita nem o melhor da fruta, nem o melhor do doce.

Como resposta á febre brasileira dos ginásios e da cultura do corpo, os jovens portugueses respondem consumindo imoderadamente Morangos com Açúcar, ano após ano, época após época, glorificando o que é fútil e algo medíocre, como vem sendo hábito no nosso país. É uma má solução, servida pelo argumento possível (Haja imaginação!), algum brio técnico e um nível de representação que, salvo os veteranos e algumas magníficas e honrosas excepções, roça o inaceitável. Este desfile de pseudo-actores, teenagers mal preparados e mal pagos em busca de fama fácil e glória instantânea, são no entanto o elemento aglutinador e catalizador de toda uma geração, de tal modo que até houve uma adolescente que se atirou de um penhasco só porque não foi aceite no casting da série. Depois da Beat Generation, depois da Geração X, depois da Geração Rasca, temos agora a Geração Morangos com Açúcar.

Almoçava eu outro dia num daqueles restaurantes que hoje se envergonham de chamar Tascas e que tem sempre a televisão ligada. O noticiário desfilava um sem número de desgraças e preocupações: assassinato de um transexual no Porto, violência doméstica, gripe das aves, aumento das taxas de juro, aumento da taxa de desemprego, entre outras maleitas. Ao meu lado, numa mesa extensa, almoçavam também um grande número de efectivos da PSP, que se banqueteavam com entremeada pingando gordura e estavam completamente alheios á realidade trágica urdida no ecrã. De súbito e para meu espanto, perante a noticia de que um jogador de um clube de futebol foi suspenso depois de tentar agredir o arbitro, todo o efectivo se levantou da mesa para se colar ao televisor, urrando e gritando impropérios de indignação, como se aquele episodio fosse de algum modo vital ou importante para o futuro de todos nós. . Eu também gosto de futebol e não tem nada de mal gostar de futebol. O problema é só gostar obsessivamente de futebol. Alheamento total, embora não aceitável é em certos casos compreensível Agora, alheamento de tudo o que não seja futebol, é algo… nem tenho palavras! É o país que temos e a inclassificável realidade em que somos forçados a viver.

Há modas e movimentos culturais e sociais, como a chamadas eróticas, os reality shows, o José Castelo Branco e muitos outros, que não são preocupantes, porque são naturalmente efémeros e extinguem-se em si mesmos. Não é o caso, nem do futebol, nem da adição de excesso de açúcar na fruta.

Qual combate ao desemprego? Qual Plano Tecnológico? Qual Captação de Investimento Estrangeiro? Qual que? … Tudo pérolas a porcos. Entre os efectivos trintões que nada tem na cabeça além de pernas musculadas correndo atrás do esférico sobre os relvados dos estádios sobre dimensionados, caríssimos e claramente desnecessários e os adolescentes efectivos que na cabeça nada têm e que chegarão aos trinta anos com os dentes podres e cariados numa congestão de Morangos com açúcar, venha o diabo e escolha. Entre a futilidade completa e a completa futilidade, a meu ver, nada há a escolher.

Eu prefiro os morangos ao natural, amargos mesmo, se tiver de ser, pois todo este doce, além de enjoar, deixa adivinhar um futuro de morangos bem amargos.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

8 de fevereiro de 2006

Desorientação Sexual

A homossexualidade não é nada de novo, nem de estranho, nem de particular, é apenas uma orientação sexual; sempre existiu e sempre existirá e não escolhe classes sociais, ou níveis culturais ou raça ou profissão. A aceitação social da mesma é que tem vindo a variar muito de época para época, de cultura para cultura e de civilização para civilização. As últimas décadas têm sido de repressão e tabu, apesar de algum clima crescente de abertura e aceitação neste campo.

De subido, neste início de século, o que é gay vende, o que é gay rende, o que é gay prende a atenção dos públicos mais diversos. De um momento para o outro, as orientações sexuais minoritárias são o tema de conversa, o foco de inúmeras reportagens, filmes, romances, seriados e outras ficções. Desde os investigadores do Instituto de Biotecnologia Molecular de Viena que afirmam ter conseguido manipular geneticamente a orientação sexual de determinada espécie de mosquitos cujo genoma é parecido com o humano, lançando para a mesa a velha discussão da origem biológica da homossexualidade, passando pela sondagem publicada recentemente pelo semanário Expresso que afirma que cerca de 1 milhão de portugueses ser homossexual o bissexual, sem esquecer a tentativa de casamento de um casal de lésbicas em Lisboa e a estreia do filme coqueluche da época no próximo dia 9, que conta a história de um casal de cowboys gay, o que é certo é que o tema está definitivamente na moda.

Se a tese dos investigadores vienenses carece de maior desenvolvimento e não recolhe por ora um reconhecimento unânime junto da comunidade cientifica, a sondagem do Expresso peca por defeito, pois segundo a mesma 63.3% dos inquiridos não quiseram responder á pergunta fatal, sendo fácil de concluir que o numero de portugueses com esta orientação sexual seja muito superior a um milhão. O que não suscita qualquer dúvida é o extremo interesse do público por esta temática. Filmes, reality-shows e séries mainstream passara a ter como condimento quase obrigatório um gay de serviço: o público gosta, o público acha graça, o público comove-se e o produto rende. São séries como Will & Grace, Queer as Folk, Sexo e a Cidade, OZ, etc, programas como o Queer Eye for a Straight Guy e a versão lusa Esquadrão G, são os romances do Guilherme de Melo, da Ana Zanati, é colocarem o actor «The Rock» a fazer de gay ao lado de John Travolta e Uma Thurman em «Be Cool», é o filme português «Odete», e como se tudo isto não bastasse temos o novo filme de Ang Lee, «Brokeback Mountain», que depois de arrebatar quatro Globos de Ouro, o Leão de Ouro em Veneza, prepara-se para transformar a noite de entrega dos Óscares na mais gay de sempre, pois está nomeado para oito estatuetas douradas.

Provando que neste momento o que é gay vende, o filme de Ang Lee, que retrata o amor entre dois cowboys, ultimo reduto da dita masculinidade americana, prepara-se para arrecadar uma fortuna nas bilheteiras, nas ordem doa 100 milhões de dólares, seguindo as pisadas de filmes com a mesma temática, como Filadélfia (73 milhões), Jogo de Lágrimas (63 Milhões) e Gaiola das Malucas (124 Milhões).

Este fenómeno no entanto, é uma coisa de moda, passageira e fugaz. Quando o público perceber que ser gay não é nada de extraordinário, nem de invulgar, que a maioria destas pessoas, não são encharpes cor-de-rosa como as querem pintar, mas têm os mesmíssimos dramas, alegrias e preocupações que os que não partilham da mesma orientação sexual; momento em que todos percebermos isso, as historias com esta temática perderão grande parte do interesse. Anda tudo ao contrário e de candeia ás avessas: quando a comunidade gay parecia ter perdido o interesse pelo público em geral e estava um pouco mais fechada que o habitual, o publico ganha interesse súbito por esta comunidade, quando os casamentos heterossexuais diminuem visivelmente, os homossexuais querem quase á força, casar-se. E com isto tudo, os indivíduos que partilham uma orientação sexual maioritária, mostram claros sinais de desorientação sexual. O que não é caso para isso!

Enfim, encontros e desencontros e modas que rapidamente passam…espero é que quando tudo isto passar e se nivelar, que fique a tolerância. Sobretudo a tolerância!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

23 de janeiro de 2006

O Regresso de D. Sebastião

Em vez de abandonarem para sempre a falta de confiança em si mesmos e os sentimentos pessimistas e taciturnos que sempre nos condenaram á desgraça e a glórias efémeras, os portugueses teimam em esperar eternamente pelo Messias, pelo prometido, por um tal que se perdeu em aventuras tresloucadas por terras de África, pelo Quinto Império, por glórias passadas que se transubstanciariam em futuras por obra e graça do divino, enfim, por alguém que nada de concreto prometeu e por isso nada de exequível tem para dar. É sempre melhor esperar do que lutar, presumir do que executar, vaticinar do que concretizar.

Foram este tipo de sentimentos que deram a vitoria logo á primeira volta a Aníbal Cavaco Silva, o primeiro presidente centro-direita a ser eleito após a revolução de Abril, o protagonista de um período de economia supostamente emergente, o timoneiro de uma Era áurea para alguns, o que nunca se engana e raramente tem dúvidas, o empedernido economista, o inábil gestor de politicas sociais e aquele que agora vai ser o salvador da pátria, anulando diferendos e de braço dado com o governo socialista vai estabelecer a ponte entre a esquerda e a direita, tudo em prol do tal «Portugal Maior», que cansando-nos, se cansou de proclamar durante a campanha eleitoral.

É preciso ser-se muito ingénuo para acreditar nisto; mas o povo é assim mesmo, ingénuo e neste assuntos de politica, sem qualquer malícia, acreditando que um bom pastor poder-se-á tornar num excelente talhante, porque está habituado a lidar com os animais, que por sua vez poderá dar um exímio cozinheiro que nos preparará, num abrir e fechar de olhos, um cabrito assado de fazer crescer água na boca. Na minha modesta opinião, água e pelas barbas, dará esta relação comprometido-colaborativa entre o novo Presidente da República e o Governo de José Sócrates.
A esquerda no seu todo, desunida e inflada de protagonismo, por certo errou. O «Homem para a Eternidade», como tão bem o caracterizou Clara Ferreira Alves, o que alguns chamaram o Presidente-Rei, não devia ter regressado dos caminhos da imortalidade e da distância; o raio não cai duas vezes no mesmo local. O Poeta, quem sabe um fingidor e sentindo com a imaginação, não parou para escutar no vento que passa a noticias do seu país. Aquele que á esquerda da esquerda nada tinha para dizer deveria ter guardado o silêncio, assim como o deveria ter feito aquele que ainda tem algo para dizer; verborreia por um lado e protagonismo forçado por outro, por vezes pagam-se muito caro.

Ilações politicas de tudo isto? Tiram-se muito poucas… Quando se estabelecem estratégias, tem de se equacionar factores sociais e culturais que por vezes não são muito óbvios. Num momento de crise como aquele em que atravessamos, a necessidade de um sentido messiânico do povo português falou mais alto, foi ela que ganhou as eleições. A solução sebastianista e miraculosa que Cavaco Silva tão bem soube personificar, qual D. Sebastião do século XXI, arrebatou o parco entendimento de uma franja de eleitores que o conduziu á vitória.

Desaparecido no Cavaquistão numa tarde de nevoeiro, ele foi o eterno Desejado: em todos congressos, em todas as crises, em todos os governos sociais-democratas que lhe sucederam. Regressou agora envolto em nevoeiro; uma névoa que baralha mesmo os mais avisados e que talvez venha a turvar o futuro do país.

20 de janeiro de 2006

Ano Novo... Vida Nova ...


No final de cada ano que passa ou logo no início de cada ano que entra é usual fazer uma retrospectiva do que passou; no que toca ao ano de 2005, fazer tal coisa seria completamente traumático, desapropriado e um verdadeiro mau augúrio para o ano que entra, de tal forma os 365 dias transactos foram catastróficos, patéticos e definitivamente a esquecer, pois não trouxeram nada de bom ou digno de memória. Como diria o poeta que das tristezas fique a mágoa na lembrança e do bem, se algum houve, a saudade – mágoas: demasiadas, saudades: zero.

Mas como é habitual dizer-se, ano novo, vida nova! Foi com esta máxima popular e réstia de esperança que me deitei no último dia do ano passado, para acordar para a mesmíssima desgraça para que tinha adormecido; o ano mudou, mas os cães continuam a ladrar e a caravana não anda nem passa, completamente atolada nas lamas e nos lodos que atafulham os caminhos que este país trilha ultimamente.

Tudo sabe a repassado, a requentado e a restaurado. Ora vejamos, temos uma série ao estilo «ficheiros secretos», intitulada “Envelope 9”, a listagem detalhada dos telefonemas das mais altas individualidades dos estado a embrulhar aquelas que supostamente haviam sido pedidas no âmbito do Caso Casa Pia e que vieram a publico não se sabe muito bem como nem porque, vindo assim demonstrar que o direito á privacidade, o segredo de justiça e a autoridade das instituições é o que é, podendo talvez fundamentar-se assim a teoria da conspiração, que permite que determinadas empresas e indivíduos façam o que bem lhes apetece julgando-se acima da lei e ao sabor de ventos e correntes subterrâneas. Houve quem enjeitasse responsabilidade, houve quem se sentisse muito incomodado, na linha de quem deve… teme. Em resumo, temos a Juíza Ana Peres a braços com mais um imbróglio melindroso, temos um Procurador-Geral da República chamado a dar esclarecimentos sobre o caso, mas que solicitou 3 dia s para encontrar justificações para o injustificável e temos o Presidente da República quase quedo e quase mudo, porque o calado vence e reforma-se confortavelmente muito em breve.

Ainda só passaram 15 dias deste ano novinho em folha e como se não bastasse a estreia desta super-produção, ainda temos a bandidagem a operar livremente e em “happy hour” entre as 17.30 e as 9.00, graças á greve da PJ, temos Direcção-geral das Contribuições e Impostos (DGCI) que diz que vai avançar com a penhora de contas bancárias, salários e créditos sobre terceiros aos contribuintes com dívidas ao fisco, medida que se calhar vai abranger essencialmente os pequenos devedores, porque os grandes, como não tem remédio, remediado está.

Temos ainda os farmacêuticos que na sequência da morte anunciada do monopólio de venda de medicamentos, acordaram de súbitos para as funções, deveres e obrigações para as quais nunca se mostraram muito zelosos; no entanto, solicitude e zelo em excesso é moléstia e incómoda, ainda mais quando se trata de um atitude súbita, extemporânea e reactiva. Temos um suposto lobby gay de que toda a gente fala e que nem sei se existe. Temos o caso da trama “Electricidade Portuguesa em Saldos”, urdida pelo o ex-ministro Joaquim Pina Moura e corajosamente travada por João Ramalho Talone. Temos um Plano Tecnológico, pérola do programa de governo de José Sócrates, que á semelhança de paixões passadas de governos socialistas, como a educação, se afunda em demagogia e falta de clareza. Que interessa um plano quiçá brilhante se o mesmo é exposto de forma tão esotérica que quase ninguém percebe a sua exequibilidade e concretização. È urgente fazer um desenho, um mapa orientativo, para que não seja mais uma pérola atirada aos porcos… aos porco em que nos tornámos todos nós, fossando nas maiores dificuldades e na lama e desperdício que jorram das janelas das elites deste país.

Por ultimo, temos o que fala, fala, fala e não diz nada de exequível, temos o defensor amorfo do ultimo bastião do proletariado, temos os que não interessam nem ao menino Jesus, temos o Poeta, que por certo é um fingidor, temos a reedição agora digital e remasterizada do Bucha e Estica com sabor a anos 80; um bucha que ataca e recalcitra em atitudes que achamos engraçadas e inconsequentes e um estica, qual nosferato algarvio, que amolga tejadilhos de carros para se colocar acima da populaça e sonha com um Portugal Maior. O maior em corrupção, em compadrios, em acidentes de viação, em baixa produtividade, em miséria e descontentamento.

Até tremo só de pensar que este remake tem estreia nacional a 22. Mas tremo muito mais ainda, só de pensar que, se em apenas 15 dias foi possível tudo isto, o que nos reservará os restantes trezentos e tal dias que faltam para acabar o ano. Bom ano para todos.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

15 de fevereiro de 2005

Saber Fazer

Saber fazer e mostrar simplesmente que se sabe, não só é bonito e fica bem como é aquilo que francamente necessitamos nesta altura em que tudo vai mal e urge dar-lhe melhoras. Mais do que as boas ideias que muitas vezes povoam os maus projectos, mais do que as boas intenções das quais o inferno está cheio, mais do que os comentários, boatos, bocas e outras opiniões avulsas dos chamados treinadores de bancada ou empreendedores de sofá, o que conta é a ética, profissionalismo, rigor e focalização com que se fazem as coisas. Chega de clientelismos! Chega de inércia! Chega de marasmo perante o mal feito!

Estamos a iniciar um novo ciclo politico e não só, um novo governo que a meu ver, e para as primeiras impressões, entrou com o pé direito, sem pompa mas com circunstância, anunciando de imediato medidas concretas, como a comercialização de medicamentos de venda livre em outros estabelecimentos que não as farmácias. Muitos se congratularam com a medida, inclusive a ordem dos médicos não encontrou nela nenhum inconveniente de maior. Claro que os farmacêuticos e as farmácias, reagiram corporativamente de forma negativa. Azar! A bem do interesse nacional, acabou-se o maná das margens escandalosamente elevadas do monopólio de comercialização dos medicamentos de venda livre, na sua maioria com pagamento líquido no acto da compra. Gostei! Vou aguardar por mais medidas oportunas como esta.

Aplaudo novamente o novo primeiro-ministro, ao tomar a iniciativa de silenciar o seu executivo até momento oportuno. Alguns inevitáveis contestatários, inclusive o director do 24 horas, vieram logo a público contestar a atitude, acusando-o de bloqueio ao direito á informação e de má relação com os mass media. Ora, como todos devem já ter notado, informação a mais é ruído. É preciso informar e formar, no momento certo e na quantidade adequada, tudo o resto é jactância e verborreia sem sentido. Estamos a atingir a Era da Desinformação! Um homem que mordeu um cão poderá ser noticia, agora, um Principie inglês que cai do cavalo a jogar pólo sem que nada de mal lhe aconteça, não é assunto que deva ocupar espaço quer na mente das pessoas quer na página de um jornal. E se há coisas em que não se deve gastar tinta, há outras de devem ser rapidamente esquecidas e preteridas por algo mais interessante e importante. Deixai Freitas do Amaral ser ministro, estejamos atentos ás suas acções presentes e não ao seu passado! Deixai o Pedro Santana Lopes voltar á presidência da Câmara de Lisboa, quanto menos dele falarem, mais depressa cairá no necessário esquecimento. Esquecei episódios tristes e infantis como aquele em que um retrato transita do Largo do Caldas para o Largo do Rato.

Pode ser que me engane, que este governo de maioria socialista venha a ser tão mau ou pior do que qualquer um dos outros que o sucederam. No entanto parece-me um começo auspicioso, um aroma a ética e rigor que me agrada. Um vencer da inércia, contornando os boatos e bate bocas habituais. Ás vezes o sistema dá sinais vitais de querer funcionar, provando que a alternância democrática, não só é necessária, como até desejável.

Infelizmente nem todos os executivos socialistas funcionam bem: a nível autárquico, e estou a falar da Câmara do Barreiro e particularmente do pelouro da cultura, a ética, o rigor, o saber fazer e o respeito e consideração que são devidas aos munícipes e afins que se interessem pela engrandecimento do município, parece estar arredada da edilidade. Servir a comunidade num cargo público é um privilégio, não uma forma avara de conseguir dividendos, quer presentes, quer futuros. Todas as cartas merecem resposta, todas as propostas e projecto também, mesmo que sejam três letrinhas apenas: um N, um A e um O, devidamente seguido daquela desculpas circunstanciais de inadequação programática ou de falta de enquadramento financeiro. E disto falo com experiência própria: um dia apresentei um Projecto Cultural na Câmara do Barreiro, dando-me ao trabalho de, inclusive, ter uma reunião com o vereador da cultura. Até hoje, e já lá vão muitos meses, não mereci o respeito e a consideração de uma simples resposta via CTT ou via e-mail, nem um mero telefonema de mero acessor. Nada! Absolutamente nada! Apenas silêncio e falta de ética! Com tristeza, pergunto a mim mesmo, a quantos mais operadores culturais e criadores não aconteceu já algo semelhante. Quase que dá vontade de dizer: Volta, Carla Marina, que estás perdoada!

Não falo nisto agora por despeito, longe de mim, até porque o projecto em questão já foi aprovado por uma outra edilidade. Eu gosto do Barreiro e das pessoas que aí vivem, mas penso, francamente, que mereciam mais e melhor. Chega de clientelismos! Chega de inércia! Chega de marasmo perante o mal feito! E ainda dizem que há terras que não evoluem nem progridem, na medida em que deviam… vá-se lá saber porque!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

1 de fevereiro de 2005

Passe Social: Anedota Electrónica

O novo sistema de passes sociais na Área Metropolitana de Lisboa, irónicamente entitulado «Lisboa Viva», é na sua essencia uma anedota quer tenológica, quer em termos de métodos e procedimentos.

Em crónica que publiquei no Jornal 24 Horas no inicio da implantação do sistema no Metropolitano de Lisboa, eu alertei atempadamente para o facto do sistema não funcionar: a detecção dos chip integrado no cartão era manifestamente ineficaz, que o cartão era demasiado frágil para o manuseamento constante a que estaria sujeito e que o sistema de portas de acesso ao metro era perigoso e lento. Na altura quase fui crixificado por e-mail por alguns leitores cujo conteudo demasiado técnico das sua missivas, os revelava demasiado por dentro de todo o processo, tendo por isso mesmo, aquele discurso tendencioso e parcialista de quem está atulhado de interesses até á medula.

O tempo veio a provar que eu estava certo, inclusive através das centenas de pessoas que tiveram de receber assistência hospitalar por terem ficado entaladas nas maléficamente extraordinárias portas de acesso ao metropolitano. Houve portas partidas, danificadas, cartões constantemente deteriorados, enfim, um caos, depois de se ter gasto fortunas num sistema ineficaz e obsoleto.Como se tudo isto não bastasse, agora decediram acabar com as tradicionais senhas de passe. No entanto, em vez de providenciarem meios electrónicos de fiscalização e controle da validade dos carregamentos do cartão, passam a emitir um recibo e uma cópia do mesmo para que ande em posse do utente para poder servir de comprovativo em caso de dúvida.

Será que faz algum sentido subtituir um papel por dois? Se a intenção, segundo julgo, é criar um título de transporte completamente electrónico, porque não dotar os fiscais de meios de verificação informática de modo a saber se determinado cartão adquiriu ou não um título de transporte válido para aquela data?A cópia do recibo que a partir de agora somos obrigados a carregar conosco é impressa por um processo térmico que, como é sabido, se detiora facilmente em contacto com o calor ou com a humidade. Que controle será possivel fazer com recibos elegíveis, devidamente sujeitos ao calor e humidade dos bolsos e carteiras dos utente? Se não fosse trágico, seria cómico... e de um non-sense total.

27 de janeiro de 2005

A Insegurança Social

Na época que atravessamos, qualquer um, em qualquer local, em qualquer idade pode ficar sem emprego. É um sinal dos tempos; não forçosamente de crise, mas eventualmente de reconversão e de mudança. A crueza dos números em quadro comparativo com o de outros países europeus, não é de modo nenhum alarmante. No entanto a realidade dos dramas pessoais e sociais, quando vista á lupa, é bem diferente.

Quando alguém que labora em continuo durante muitos anos, de súbito se depara com a situação de não ter emprego, é por certo assolado por inúmeros dramas íntimos; sente-se inútil, obsoleto, sem préstimo, um falhado, um perdedor ou então, por um processo reactivo de negação e revolta, sente-se injustiçado, incompreendido, maltratado e vítima de um sistema ou uma situação. Mas seja o que for que o individuo sinta, é sempre uma posição de uma incomensurável fragilidade.

Depois do Big Bang, ou seja, o momento em que o individuo foi despedido, dispensado ou quando cessa o respectivo contrato, e passado o estado de espanto em que o individuo se vê em casa, qual reformado, a ver passar as horas enquanto todos os outros foram trabalhar, há que acordar para a vida: tratar de fazer a visita obrigatória ao centro de emprego e á segurança social para que se possa obter em data incerta, por vezes meses depois, o famigerado subsídio de desemprego. A visita do individuo a este dois serviços resume-se no preenchimento e entrega de papelada, papelada e mais papelada, devidamente intercalado de enormes compassos de espera, gigantescos momentos de desespero e uma filosofia de atendimento em cuja a simpatia, competência, sentido de missão e solidariedade social estão, na maioria dos casos, quase completamente ausentes.

Ao contrario daquilo que se pode julgar numa análise sumária e precipitada, a vida daqueles que não têm emprego é, muitas vezes, difícil e comporta tanto ou mais stress do que a daqueles que têm os seus empregos ou afazeres que lhes enche o quotidiano. É a leitura dos jornais e da Internet á procura de ofertas de emprego, as expectativas sempre reiteradas a cada envio de curriculum, o nervosismo da ida ás entrevistas, o fatal sentimento de rejeição cada vez que não se é admitido, as contas de sumir que se fazem a amiúde ou cada vez que uma factura a pagar faz emagrecer ainda mais o já de si magro orçamento mensal, é a pressão e a compreensão incompreendida dos conjugues ou familiares mais próximos, a irritante compaixão ou comiseração dos amigos e é o tempo que passa sem que a situação mude, apesar dos esforços empreendidos. Tudo isto conduz algumas vezes a um estado catatónico, misto de revolta, sentido de perda e auto-comiseração, que podemos denominar de Insegurança Social.

Quando tudo começa a parecer irremediavelmente perdido e irreversível, eis que, a meros quatro dias do Natal e na véspera de inicio do mesmo, o desempregado recebe uma missiva convocando-o a comparecer a um curso que pouco ou nada tinha a ver com o seu perfil curricular, profissional ou académico. As formações em questão têm pouca valência, nenhuma utilidade, conteúdo desadequado para a requalificação de desempregados, ministrados por vezes em caves frias e húmidas, sem as menores condições de salubridade, higiene e segurança no trabalho, durante 4 dias por semana, á razão de 8 horas por dia, durante 450 horas ou mais. Uma violência e uma tortura com pessoas que estão psicologicamente muito fragilizadas em face da situação precária de desemprego em que se encontram. Isto é pior que uma boa parte das medidas de coacção que pode ser infligida a um arguido; limitação da liberdade, do tempo que se dispõe para procurar emprego, obrigatoriedade de frequentar uma formação á partida inútil... Como num conto de Natal de Charles Dickens, nem a época festiva demoveu os vilões empedernidos do Instituto de Emprego e Formação Profissional de serem mais assertivos com aqueles cujo único pecado foi o de ficarem inadvertidamente sem emprego. Ou aceitam ser encarcerados no gueto subterrâneo dos cursos ou ser-lhe-á de imediato cortada a sua única fonte de rendimento que de momento as vicissitudes da vida o forçaram a aceitar. O que se segue a tudo isto? A obrigatoriedade de usar uma estrela amarela na lapela, de modo a serem reconhecidos na rua como um peso morto para a sociedade, uns inúteis de uns seres desprezíveis?

E tudo isto porque? Por miserabilismo e oportunismo estratégico, puramente uma jogada politica; por um lado, os formandos destes cursos, deixam de enfileirar a coluna dos desempregados para fins estatísticos, por outro lado, parte da despesa com o fundo de desemprego passa a ser suportada por outrem que não directamente o estado.

E assim se tomam medidas avulsas sem qualquer sentido prático! Assim se gasta dinheiro inutilmente! Assim se deteriora a moral e a qualidade de vida dos implicados! Assim se tapa o sol com a peneira...
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

23 de novembro de 2004

Síndrome do Eterno Subúrbio


Nem sempre, mas na maior parte das vezes, quem está de foram vislumbra melhor, porque se calhar tem uma visão mais distanciada, menos comprometida, menos envolvida mas ao mesmo tempo mais critica e racional. Os portugueses são um povo de excessos, ou tremendamente fatalistas e pessimistas ou em contrapartida demasiado optimistas, somos um povo de brandas acções, reacções lentas como o tempo, mas de criticas cortantes e mordazes. E temos ainda uma característica que, apesar de se ter vindo a dissipar ao longo dos tempos, temos sempre um certo complexo de inferioridade em relação ao que vem de fora, ao que nos é estrangeiro; a vida para nós só é boa em casa dos outros, nas cidades dos outros e nos países dos outros.

Os barreirenses, como bons portugueses que são, não escapam á regra: são fatalistas e pessimistas, carregam nas costas de forma pesarosa uma herança patrimonial e cultural dos tempos de outrora, das fábrica ora desactivadas e ferrugentas, do movimento trabalhador, da era da foice e do martelo, do síndrome de eterno subúrbio, de viver na margem, na sombra de outras cidades maiores e por consequência mais impactantes, da falta de pontes visíveis ou invisíveis que os liguem ao Terreiro do Paço, enfim, o peso insustentável da eterna meia hora que demorava a travessia até á terra das ditas cabeças bem-pensantes.

Hoje em dia não há razão nenhuma para que ainda alguém pense deste modo. O Barreiro é uma terra encantadora e com o seu charme próprio feito de heranças de vidas alternativas de outrora e de uma deliciosa arqueologia industrial que urge perceber e reaproveitar de forma inteligente, as gentes desse local são interessadas e atentas como muito poucas, com energia e com garra, faltando-lhes apenas os incentivos oportunos e correctos, a travessia do Tejo, essa, hoje em dia dura apenas alguns minutos e as cabeças ditas bem-pensantes do Terreiro do Paço, não pensam já nada que se aproveite e podemos bem passar sem elas.

O famosíssimo e prestigiado fotografo Anton Corbijn escolheu a antiga fábrica da CUF no Lavradio como cenário das fotos para o calendário da banda irlandesa U2 para os meses de Abril, Maio, Julho, Agosto, Outubro e Novembro e capela de Santa Eufémia, um local de difícil acesso e beleza singular, junto ao Palácio da Pena em Sintra para os três primeiros meses do ano e uma casa em colares para os meses restantes. A dimensão desta escolha estética vem confirmar aquilo que afirmo acima; o Barreiro tem o seu encanto muito próprio e culturalmente muito avantgard e alternativo, assim como Sintra, noutra perspectiva e com outro parâmetros, como é evidente.

Isto tudo para dizer que a glória ou a beleza ou mesmo a notoriedade está muitas vezes nos pormenores e é preciso destacá-los e amá-los com únicos. Muitas vezes percorremos a vida cegos ao bem que nos rodeia e sendo muitas vezes necessário descobri-lo no reflexo dos olhos dos que estão de fora. Deixemo-nos de fatalismos e pessimismo e tratemos de engrandecer uma terra que tem tudo para ser grande, mas uma grandiosidade que nada tem a ver com as terras que a rodeiam; esse ser maior deve ser feito por via alternativa, de vanguarda, de experimentalismo criativo e artístico, de ideias novas e arrojadas, diferentes, como diferente foi o seu passado e a sua ascensão. Não imitem, não há necessidade disso, inovem com a prata da casa, porque materiais físicos e humanos, chegam e sobram. O interesse de um fotografo de renome internacional como Anton Corbijn, os U2, entre muitos outro pelo Barreiro é um claro sinal de que está na hora de seguir uma nova via, uma nova era, um novo saber fazer, emblemático, ultramoderno, arrojado e destacante, e acabar de vez com o síndrome do eterno subúrbio, fazendo com que o Barreiro ressurja como um dos epicentros de vanguarda da arte, da cultura e do lazer na área metropolitana de Lisboa. Parece difícil, mas não é… querer é poder! Quando há vontade politica e apoio popular as coisas realmente acontecem.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

2 de novembro de 2004

Barreirómano

Existem paixões e vícios públicos e privados na vida das pessoas que muitas vezes não têm muita explicação, nem muitas razões, mas persistem em manter-se ali, á vista de tudo e de todos, sem sabermos sequer como começaram ou como vão findar. Mas estas razões sentimentais, são assim mesmo, sem necessitarem de algo que as justifique, vindas directamente do coração e do foro emocional, engrandecem-se e agarram-se á nossa vida sem que possamos fazer nada.

Eu não nasci no Barreiro, nem sequer nunca aí vivi. Sou lisboeta de corpo e alma, nascido e criado entre as colinas desta cidade eterna; fiz-me gente deambulando entre as ruelas do Bairro Alto, Santa Catarina e o Bairro da Bica. Também já vivi na Alameda e em Benfica. Até já vivi alguns anos no Brasil. Mas apesar de não haver laço nenhum aparente que me ligue ao Barreiro. Gosto dessa terra como se fosse a minha, com um gostar de alma, ainda mais profundo a meu ver do que um gostar de sangue, de nascimento, de tradição, de raiz ou de família. Sou um barreirómano, confesso! E por mais voltas que a minha vida dê, volto ao Barreiro, a minha terra adoptiva, sempre com emoção e redobrado prazer.

Será por certo a plácida travessia das águas á chegada, a encantadora singularidade miniatural da zona velha, a magnifica vista da zona ribeirinha com Lisboa no horizonte, a austeridade modernista da zona industrial, os louváveis investimentos em betão e tijolo por parte da autarquia, entre outras coisas, que me fazem gostar dessa terra. Mas são sobretudo as pessoas, afáveis e acolhedoras, interessantes e interessadas, lutadoras e determinadas, empreendedoras e optimistas que me fazem amar essa terra, tanto ou mais do eu amo aquela que me viu nascer.

Em tempos, quando a minha actividade profissional principal era o teatro e a animação cultural, organizei varias actividades no Barreiro: desde um campo de trabalho internacional para a juventude até mostras de vídeo, passando por espectáculos, inclusive para as festas da cidade. Foram tempos muito gratificantes para mim, pois, tirando os problemas com o anterior executivo camarário que não merecia sequer os munícipes que tinha, sempre fui acarinhado pelo generoso público barreirense e tive o privilégio de conhecer pessoas fantásticas que nas colectividades, associações e outros organismos lutam diariamente para que a cultura nessa cidade exista realmente e se mantenha viva; falo-vos dos Penicheiros, do Tesfal, do ArteViva, do TEB, do Carlos Ramos, da Teresa Branco e de tantos outros que seria fastidioso enumerá-los todos.

Estive afastado quer dessa cidade, quer das actividades culturais, durante muitos anos, refém de razões estranhas que só a vida pode explicar. Mas voltei agora, como que regressado do mundo dos mortos, porque nunca é tarde para recomeçar e refazer uma paixão. Esse retorno ao princípio coincide também inexplicavelmente e por pura coincidência a um retorno ao Barreiro, por ora apenas através destas crónicas que vos faço chegar semanalmente. Em breve, se calhar através de outros projectos e outras ideias, quem sabe, vontade existe é certo, faltam os entrosamentos, os reatamentos dos laços e dos nós, os convites e as oportunidades para os quais estou de coração aberto e disponível; mas tudo a seu tempo.
Isto tudo para dizer que acredito muito nessa cidade e em especial nas suas gentes; tem tudo para dar certo, inclusive o espírito empreendedor e o optimismo para tornar o Barreiro num local melhor, mesmo com todos os complexos históricos e por vezes histéricos de um passado industrial e enraizados numa esquerda estrema que se calhar já não faz muito sentido, mesmo ostracizados e ignorados pelo poder central, mesmo sem uma ponte directa com a margem norte. Espero que o actual executivo da Câmara Municipal saiba entender e acarinhar os munícipes e consiga canalizar toda a força telúrica que tem em mãos, investido em pessoas e não em betão e tijolo, dando primazia á formação e motivação em detrimento dos fogos fátuos que duram um momento e que não deixam semente para o futuro. Lembrem-se que o maior optimismo também esmorece e os empreendedores deixam de o ser quando não existe uma centelha que lhes dê vida. Agora é o momento! É agora ou nunca… sob pena do Barreiro se tornar apenas uma sombra de outras cidades da margem sul do Tejo.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

19 de outubro de 2004

O País do Tês

Houve tempos em que a prosperidade de uma nação se media pela extensão da sua rede de estradas e outras vias. Houve tempos em que a grandiosidade se media em betão e asfalto, em que o poderio militar se media pelo número de efectivos e em que o poder de media pela dimensão física das coisas. Nesses tempos os Homens, tal como hoje, não se mediam aos palmos, mas as nações sim.

Hoje em dia a força bélica, e bem se vê nesse absurdo que somos forçados a testemunhar, mede-se pelo número de engenhocas tecnológicas ultra-sofisticadas e muitas vezes não tripuladas que um país possui. Muito mais importante que a rede rodoviária e ferroviária, são as estruturas de comunicação, a rede de fibra óptica, as LAN, as WAN, os satélites, a Internet e o número de computadores e telemóveis per capita. Hoje em dia os Homens continuam a não se medir aos palmos e as nações também não. Estas medem-se pela capacidade e evolução tecnológica e pela propriedade intelectual. Por estranho que pareça, neste universo parafísico, o fluxo e quantidade de informação são a medida de grandeza e poder dos povos.

Das visões politicas do século passado no tocante à definição do papel do Estado, que oscilaram livremente entre o estado-liberalista e o estado-controlador, emerge hoje uma nova figura e modo de estar, que é o estado-tecnológico, proteccionista e providencial no que concerne ao fulcro de uma nação moderna, ou seja, a tecnologia. O novo papel do Estado prende-se com a necessidade de ser regulamentado, mediado e incentivado o progresso tecnológico.
E nós? Sim, e os portugueses como ficam perante esta realidade? Mal, como de costume! Nunca mais paramos de esperar por D. Sebastião, «quer ele venha, quer não». Nunca mais emergimos do obscurantismo a que nos votámos, para encarar o futuro com clareza, sem angústias e sem complexos de inferioridade.

Os portugueses são um povo engenhoso e muito empreendedor, sem sombra de dúvida. Os nossos dirigentes é que são quase invariavelmente gente medíocre, utópica, sem visão de futuro, demagógicos, ora de uma arrogância desmedida e patética ora lambedores da sombra dos outros, inconsequentes, anfitriões da guerra alheia, criados dos Senhores do Mundo. E nós todos, tristes espectros, ainda esperamos por eles nas tardes de nevoeiro, se é que ainda o fazemos.

Onde está o e-govermment em Portugal? E a tão prometida flat-rate na Internet? E a banda larga generalizada? Onde estão os resultados dos incentivos á renovação tecnológica do tecido empresarial ou á criação de conteúdos electrónicos? E rede de pontos de acesso público á Internet tão parca ainda? Não há ninguém que ponha cobro aos desvairos e mau serviço da Netcabo? Porque é que o organismo que regula o subdominio PT age de forma surda e arrogante perante os clientes e funciona simplesmente mal? Porque de tudo isto e muito mais…

Para quando medida politicas corajosas e incisivas? Porque não reduzir a taxa do IVA dos produtos e serviços informáticos? Sim, porque não são só as fraldas cujo o IVA vai baixar para 5% que fazem progredir o país. Porque não taxa de juro bonificadas para aquisição de material informático? Porque não reduzir o IRC e a taxa de Segurança Social ás empresas de alta tecnologia como forma de incentivar e dinamizar o sector? Porque não esquecer um pouco o passado, pôr por momentos de lado o problema insolúvel e cíclico da intempérie que estragou a cultura do tomate podre em Trocopasso-de-Cima, para nos concentrar-mos em algo que traga algum futuro a este país, já de si com muito pouco.

Está na altura de assumir que Portugal é o país dos Tês: Turismo e Tecnologia, Tudo-em-cima-da-hora e Tanto-se-lhe-dá-como-se-lhe-fez. Todo o resto é paisagem, simplesmente nevoeiro, donde nunca surgirá nada prometedor. Calem tanto disparate que para aí se diz, especialmente em assembleias e ministérios. Se esse senhores são portugueses, então eu quero se espanhol! Pim!

Bravas e empreendedoras gentes Lusitanas, acordai! É a Hora!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

5 de outubro de 2004

A Quinta das Alarvidades

Foi lindo, lindo, lindo! Adorei a estreia do mais aguardado, publicitado, mediatizado e alardeado programa de televisão dos últimos tempos em Portugal que nos vais mostrar aquilo que, de certo modo, todos sonhávamos ver: políticos, vedetas bonitas e coquetes de segunda linha e o snobismo cabotino e balofo de um certo tipo de celebridades, arrastado pela lama, a tomar banho de água gelada gota-a-gota, a dormir paredes meias com as cabras, as vacas, os burros, os cavalos e as galinhas, sem luz, sem água canalizada, a acordar embalados pelo cantar dos galos e o estimulo olfactivo mais penetrante do que qualquer essência Channel ou Dolce&Gabbana, o cheiro da bosta fresca. Se não soubesse de antemão que eles são reais e existem mesmo, julgaria que Cinha Jardim e José Castelo Branco eram personagens de uma qualquer comédia britânica de alta qualidade; foram alfinetadas atrás de alfinetadas, situações de alta comédia que conduziam inevitavelmente ao riso, o meu e provavelmente o de mais de 4 milhões de portugueses que estavam a assistir, num efémero mas indiscutível recorde de audiências. Parabéns á TVI e á Endemol.

Enquanto num canal da concorrência, o corredor de fundo e grande perdedor da noite em termo de numero de espectadores, Herman José e respectiva trupe, se esforçavam por colocar brilhantemente ao ridículo o Rei do JetSet, tanto num magnifico sketch como com alguns comentários ao vivo e em cima do espicaçansso, aquele que foi tão sabiamente apelidado por Alexandre Frota de «Conde de White Castle», a mais feminina das celebridades masculinas, estava imparável na TVI, no seu estilo peculiar critico e mordaz: mandava recados cúmplices e ambíguos ao humorista de serviço na SIC, distribuiu generosamente sorrisos entre os lábios envernizados, rolava, rebolava e bamboleava no seu andar erótico com movimentos atómicos, traçou, destratou, esbracejou, esvoaçou, arrasou com a Paulo Coelho, insinuou que a Júlia Pinheiro se veste mal, cochichou constantemente com Cinha Jardim (… e quem cochicha o rabo espicha!), partiu um copo de champanhe, falou com os talheres (Que chique!), quis tomar Xenical antes da ceia á portuguesa, criticou a decoração, ficou deprimido quando julga que lhe faltam malas, tropeçou nos saltos rasos (Quem não sabe andar de sapatos estilosos, calce chinelos!), apanhou a merda do cão, fez uma imperdivel recriação da Beatriz Costa, mostrou-nos o panorama do seu traseiro enquadrado num magnifico fio dental e ressonou imenso, apesar de ter afirmado momentos antes que até á dormir tinha estilo… estilo alarve e porquino, esqueceu-se de referir.

Este programa tem aquilo a que eu chamo, um didactismo divertido, porque entretêm e ensina ao mesmo tempo. Aprendemos que quando se zangam as comadres, as verdades tomam forma e vêem sempre ao de cima e que certas vedetas têm mais vícios, gostos e cumplicidades privadas em comum do que pode parecer á primeira vista. Ficámos a saber também que a Júlia Pinheiro consegue dialogar com um burro que lhe mordisca a perna apesar de ter medo dele, que existem actores porno com ar de bruta-montes mas com sensibilidade e sentido de humor e que há homens mais tias que as tias e que apesar de mais femininos que a maioria das mulheres femininas, podem simultaneamente ser casados e pais de filhos; poder-se-á dizer que nesta fogueira de vaidades, tivemos, não o terceiro, mas o quarto sexo em prime-time.

Mas não será esta Quinta das Alarvidades um retrato-metáfora do estado do país em que vivemos? Sem luz ao fundo do túnel que nos guie? Sem água canalizada para lavar as mãos sujas que por aí andam? Onde na Escola C+S de Colares (Sintra) os alunos são proibidos. por um director neo-salazarista, de usar mini-saia, calções, chinelos, decotes ou dizer palavrões, sendo obrigados a tratar os professores, que felizmente já devem estar todos colocados, por «Senhor Doutor»! Um país em que cada projecto do governo, em que cada nova lei ou decreto cheira a bosta. Onde proliferam as bichezas: as vacas, as cabras, os burros, as mulas e os porcos, na sua maioria doutorados e supostamente bem pensantes. Onde um ex-lider do partido do governo é mais pernicioso para o governo do que toda a oposição. Onde quer no líder da oposição quer no chefe do executivo os estilo fashion é mais notório do que qualquer conteúdo.

Nesta Quinta de nome Portugal, as moscas mudam mas a bosta é sempre a mesma. O Presidente da República, no seu discurso das comemorações do 94.º aniversário da implantação da República, comparou a situação que se vive em Portugal com o período do marcelismo, com o país a atravessar uma crise múltipla que está a ser agravada por medidas avulsas tomadas pelo Executivo, que nada resolvem, pelo que é urgente avançar com reformas estruturais, as quais dependem de “decisões políticas”, que “não são neutras”, considerando quatro condições essenciais para avançar com as reformas estruturais: a definição pública de um projecto claro e coerente, o empenho dos responsáveis governamentais; uma acção pedagógica para mobilizar os agentes económicos e sociais e a renúncia a medidas parcelares e sectoriais. E o que fez o Primeiro-ministro perante estas palavras? Fez de imediato orelhas moucas e desvalorizou a situação como é seu hábito. Com todo o respeito e admiração, tarde falou, Dr. Jorge Sampaio! E medite longamente no facto de provavelmente ir ficar para a história desta nação, como aquele cuja decisão despoletou a completa decadência e queda abrupta de um país, conduzindo-o á mais completa miséria e desolação.

De uma coisa estou certo: O espectáculo continua dentro de instantes.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro