28 de setembro de 2004

A Decadência das Patuscadas

Ser amado é importante mas ser desejado é fundamental. Conhecer gente é agradável mas ter amigos é essencial. Isto só para dizer que somos seres sociais e que, apesar de tudo, na maior parte das vezes necessitamos desesperadamente de estar com os outros, de partilhar, de conviver e de combater a tão temida solidão.

Os portugueses, aliás como os latinos em geral, gostam genericamente do convívio social, que se traduz em passeios, festas, reuniões, encontros, visitas, chás, cafés, almoços, jantares, almoçaradas e lancharadas e jantaradas e sardinhadas e outros tipos de patuscadas. A comida e a bebida, para os lusitanos, está intimamente ligada ao acto de socializar, de seduzir, de namorar, de estar em família ou em grupo.

As novas tecnologias e em especial a Internet estão a alterar este prazenteiro universo sócio-gastronómico. Hoje em dia só está sozinho quem quer, porque todos aqueles que o desejarem poderão estar virtualmente acompanhado por todos os seus amigos e não só, dia e noite, numa socialização de uma intimidade distanciada que só este tipo de tecnologia permite. Existem mil e uma maneiras de estar e comunicar com os outros via Internet, com ou sem som, com ou sem imagem… o IRC, o MSN, o Netmeeting, o Yahoo Messeger, ICQ, etc, etc, etc….. em todos eles tecla-se (que é como quem diz «fala-se pelo teclado»), trocam-se imagens, emoticons, por vezes som, por vezes, para os mais ousados, imagens captadas pelas webcameras. Se há muitos anos o telefone e o telegrafo vieram aproximar enormemente as pessoas e mudar atitudes e modos de vida, hoje não existe mais tempo, nem espaço, nem longe, nem distância, sendo a mudança que tudo isto provoca nas pessoas a maior revolução psico-social do século XXI.

Eu passo a explicar: com este novo processo de socialização eu consigo estar em diversos locais virtuais ao mesmo tempo, comunicando com diversas pessoas em tempo real, independentemente se estão longe ou perto, e cada uma julgando que detêm toda a minha atenção e tempo útil. È a melhor maneira de manter um contacto permanente com todos os meus amigos e conhecidos e falar com todos simultaneamente. È a maneira mais produtiva de seduzir dez mulheres ao mesmo tempo, sem que saibam umas das outras, podendo-se assim fazer uma mais apurada selecção, para que no fim da conversação restem apenas duas ou três como objecto de verdadeiro desejo e com o fito de um encontro off-line.
Hoje muita gente já não respira sem Internet. Hoje os adolescentes iniciam a sua descoberta da sexualidade na rede; antes da primeira namorada ou namorado, antes do sexo transpirado e odorífico, vêem os namoros on-line e o sexo virtual, certamente mais seguro e na maioria das vezes inconsequente que o real, mas no entanto muito pouco tântrico. Esta é também a melhor forma de encontrar o companheiro ideal, inclusive conheço inúmeros casamentos felizes cujos conjugues se conheceram por esta via. Eu próprio já vivi uma história deste tipo. Mas quando uma amiga minha ficou deveras admirada como é que eu superava a solidão de viver desacompanhado sem Internet, naquele período em que a PT me fez favor de me deixar off-line durante imenso tempo, é que comecei a perceber a verdadeira e dramática extensão deste fenómeno.

Para muita gente o chat é um vicio, uma maneira de enganar a solidão, uma forma de estar em contacto com pessoas amigas gastando menos telefone, uma forma de ultrapassar a timidez, o pudor exacerbado e outras fatais limitações do género, é um método para confirmar tendências e expectativas, para experimentar de forma light, para massificar as procuras e solicitações amorosas e sexuais, aumentado assim estatisticamente a probabilidade de acertar numa convergência de vontades e num universo de compatibilidades. A existência física perde importância em favor da realidade psicológica, essa sim, mais facilmente codificável e transmissível digitalmente.
E o que há de errado em tudo isto? A meu ver quase nada, a não ser quando os indivíduos substituem por completo as relações reais pelas virtuais, o contacto físico pelo cibernético, as expressões faciais pelos emoticons, o riso pelo «LOL», e quando o universo desta pessoas, todos os sonhos, viagens, aventuras e expectativas passam a estar padronizadas e a ter um universo de 15, 17 ou 19 polegadas com um por do sol em SVGA ou XVGA. E o resto são velhos do Restelo, pessoas que não sabem o que tudo isto significa para quem o utiliza, que não compreenderam ainda a natureza dos relacionamentos humanos neste novo século, que ainda não notaram que tudo está a mudar ou melhor que já mudou muito.
O tempo das patuscadas chegou ao fim, porque nada melhor do que uma refeição light e higiénica que não engordure o teclado. Este é o tempo das relações intemporais, imateriais e sem distâncias… uma idade feita de sms, mms, umts, e-mails e chats. Mas se não tomarmos os devidos cuidados depressa este admirável mundo novo se transformará num pesadelo, pois se lidar com um universo social real já é complicado, agora imagine-se com dois, um on-line e outro off-line.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

21 de setembro de 2004

Derrocada

A propósito de um prédio que caiu em Lisboa á bem pouco tempo que existem muitos outros, mais de mil, nesta cidade em perigo de derrocada eminente. A comunicação social, como é de praxe neste género de coisas, empolou a situação; falou-se dos lesados, daqueles, normalmente menos favorecidos, que ficaram sem tecto, da problemática da necessidade de alterações de fundo á lei do arrendamento, dos interesses imobiliários por detrás de determinadas situações, pois vale muito mais um prédio no chão do que conservado e de boa saúde, enfim, muita tinta correu acerca do assunto. Será que este problema só afecta Lisboa e Porto? Quem não conhece na zona onde habita, imóveis devolutos e em mau estado, degradados ou em risco de queda? O tempo passou, o assunto deixou de merecer destaque noticioso, mas o problema persiste intacto e preocupante sem que nada de concreto se faça. O melhor e mais politicamente correcto, para quem rege os nossos destinos colectivos é deixar assentar as águas, que levam as pontes, que é como quem diz, deixar assentar a poeira das derrocadas dos prédios e esperara placidamente que tudo caía no mais completo e silencioso esquecimento.

Mas a degradação vergonhosa e derrocada eminente não se verifica só em pontes, prédios, viadutos e passagens elevadas de peões sobre a IC19. Essa corrosão provocada pela incompetência e irresponsabilidade politica atinge todo o país, o estado, as instituições, as pessoas e por vezes até a alma de um povo. Eu não acredito que milhões de portugueses possam assistir impávidos e serenos ao desmoronar de um país.

Ora vejamos, é a derrocada em queda livre do sistema de ensino, com reformas atrás de reformas que já pouco sentido vão fazendo, com propinas e custos muitas vezes insuportáveis para os encarregados de educação com um ensino muitas vezes sem condições condignas e por isso mesmo de inferior qualidade, com cerca de 50 mil docentes acordados até tarde á espera de saber onde vão leccionar este ano e quase um milhão de alunos em casa sem aulas, neste que foi o pior e mais vergonhoso inicio de ano lectivo de que há memória. É escabroso, é inaceitável um país ter um sistema de ensino em ruínas a ameaçar a derrocada final. No sector da saúde, a desgraça não é menor: desde as listas de espera que teimam em não diminuir, passado por uma metodologia de apoio ao utente demasiado burocrática e um sistema informático ineficaz e sem ponta por onde se lhe pegue – é inadmissível por exemplo, á luz da tecnologia actual, que se leve quase um ano a emitir um cartão de utente. Será que ainda ninguém reparou que a taxa moderadora diferenciada que se quer impor só vai favorecer os que praticam a evasão fiscal? Será que ainda ninguém reparou que os 31 hospitais que foram transformados em sociedades anónimas estão a acumular dívidas porque se calhar não têm viabilidade económica e financeira? Será que alguém tem consciência de que cerca de um milhão de portugueses não tem médico de família, apesar de, em média, haver cerca de 1500 utentes para cada médico do serviço nacional de saúde? Digam-me lá se eu sou alarmista prevendo uma enorme e completa derrocada do sistema nacional de saúde?

A Defesa Nacional entretém-se a defender-nos do Barco do Aborto, que como é óbvio, reduziria tudo a cinzas de alguma vez atracasse em bom porto. A segurança social tem uma dolorosa morte anunciada a médio prazo com a falência do sistema e para motivar e incentivar os contribuintes, há quem tenha a brilhante e luminosa ideia de reduzir os incentivos fiscais nos planos poupança reforma. A economia, como todos já devem ter reparado, está de rastos e em queda livre, sendo as melhorias sentidas nas últimas semanas manifestamente insuficientes em face das necessidades financeiras dos investidores e empresários para enfrentar e compensar as enormes perdas, prejuízos e défices sentidos no ano transacto e no primeiro e penoso semestre deste ano. E se as finanças privadas estão em baixo, as públicas também não vão por bom caminho, senão vejamos os prejuízos incomportáveis de empresas como a Carris e a CP; é não há gestor, por mais principescamente bem pago que seja, que ponha um travão nisso. Na área da Cultura, os operadores estão desmotivados e desalentados numa falência mais do que técnica. Do estado da Justiça é melhor nem falar. Na Administração Interna… mas será que ainda existe alguma administração interna?

Não vale a pena continuar a enumerar o rol das desgraças, dos défices, dos prejuízos, dos dinheiros mal gastos, das incompetências, das incongruências, da ruína em que se encontra este país. É a hora da revolução, da insubordinação civil, de protestar, de gritar mais alto, de não pagar, de refilar, de fazer valer os direitos e pontos de vista, de lutar com todas as armas ao nosso alcance por um fim neste estado de coisas antes que a derrocada final e irremediável reduza o país a escombros.

Eu já comecei essa luta e as minhas armas são as palavras!
publicado no Jornal da Moita

14 de setembro de 2004

Saudades do Futuro

Preocupa-me muito o futuro, porque é nele que passarei o resto dos meus dias. Procuro incessantemente vislumbrar o por vir de modo a que uma feliz providência me faça acautelar das maleitas ou problemas da evolução imparável das coisas. Os escritores de ficção ou antecipação científica são muitas vezes uma ajuda incontornável na busca dos sinais do futuro. Mas uma coisa é certa, o futuro já não é o que era.

Outrora, quando George Orwell, com o seu «1984 » ou Aldous Huxley com um « Admirável Mundo Novo », nos revelaram as suas visões de futuro, ficámos realmente surpreendidos. Afinal, ambos tinham razão pois, com a devida salvaguarda das nuances que o tempo trata de tecer, o «Big Brother » realmente monopolizou as grandes massas e a Clonaid ameaça dar ao Mundo um mundo novo, não sei se admirável ou não, mas novo certamente.

Houve também visões de futuro cheias de uma parafernália extraterrestre, desastres nucleares, invasões marcianas, holocaustos epidémico-atómicos, teorias de conspiração alienigeno-esotéricas, domínio do planeta pelas máquinas quiçá exterminadoras, pelas plantas, pelos macacos… enfim, de Metropolis a Matrix, a imaginação humana mostrou-se verdadeiramente pródiga.

Á uns anos o presidente Ronald Reagan, criou uma comissão consultiva composta pelos melhores escritores de ficção cientifica do momento para teorizarem um projecto de defesa caríssimo e mirambolante, denominado «Guerra das Estrelas», que nunca se chegou a realizar. Ele sabia, habituado como estava a estratégias hollywoodescas, que tal projecto iria mexer com a consciência e insegurança geral, de tal modo que, mesmo na teoria, a impossibilidade económica da URSS implantar algo semelhante, precipitou de algum modo o fim da Guerra Fria.

Isto tudo só mostra uma coisa, que devíamos estar mais atentos ás visões futurológicas e antecipação científica pois elas espelham os medos, ansiedades e expectativas das pessoas. Por isso, quando entrámos em 2001 e nenhuma odisseia nos levou ao espaço e nenhum computador conversou connosco como na visão de Arthur C. Clarck/Stanley Kubrick, muitos de nós ficaram enormemente desapontados.

A investigação tecnológica muitas vezes corre em direcções opostas ás das necessidades e interesses do cidadão comum. Perde-se tempo e dinheiro em pormenores fúteis e desinteressantes. Num futuro mais próximo, julgo que nada na informática me irá surpreender porque, por certo, ficará aquém do profetizado.

Se ninguém vislumbrou um Windows XP é porque se calhar ele não tem razão de existir ou provavelmente é apenas uma etapa, um esboço para um próximo patamar evolutivo.

As diferenças tecnológicas entre as duas últimas décadas do século passado são enormes, no entanto, o mesmo não se passa com a evolução entre a última década do século XX e a primeira do século XXI. Será que a evolução tecnológica está a abrandar? Ou será que se tornou menos visível preparando a qualquer momento um grande salto? A verdade é que o 2004 que imaginei não cabe no real.Quero mais domótica, alta tecnologia aplicada ao lar, de modo a que se torne mais fácil e cómodo cuidar dele! Quero conversar com as máquinas, em amenas e fluentes cavaqueiras! Quero mais inteligência artificial que nos livre das tarefas enfadonhas e rotineiras! Quero que a minha voz controle tudo, de modo a acabar com os teclados, ratos e interruptores! Quero que acabem com as chaves, as passwords de que me esqueço frequentemente, os cartões magnéticos e substituam tudo isso por sistemas de identificação biométrica! E quero deixar de ter saudades do futuro… daquele futuro em que tudo era supreendente
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

7 de setembro de 2004

Tanto Barulho para Nada

Tenho uns amigos estrangeiros que afirmam com uma sombra de felicidade estampada nos rostos de que Portugal é excelente para passar férias porque, além de um clima privilegiado, não se passa nada. Cada vez mais sou levado a concordar com eles; realmente não se passa nada, mesmo nada, ou melhor não se passa nada de relevante, de importante, de primordial.

Eu sei que a Fernanda Serrano casou com o Pedro Miguel Ramos – parabéns aos noivos! - , que houve a festa do Castelo Branco, que morreu o estilista José Carlos, que começou a nova edição dos «Ídolos», que os «meninos azuis» sofrem sem a devida assistência do estado, que os livros escolares subiram 10% sobrecarregando assim o já magro orçamento familiar e que se isentassem os livros escolares de IVA já ficavam mais baratos, que secretarias de estado foram descentralizadas mas sem telefones. Também sei que existe essa provocação legítima mas abstracta e inútil que é o barco do aborto, e um ministro que se veio vangloriar-se de ter tomado a decisão certa, após a sentença do tribunal; Que cabotino! Sr. Ministro, governar, não é jogar no totoloto, se tomou a decisão certa não fez mais do que a sua obrigação. Nunca lhe ensinaram que a gabarolice pública é uma coisa muito feia.

Adiam-se leis e reformas, tomadas de atitude, concretização de projectos essenciais ao país; tudo jogado para a frente, para lá de 2006, para depois do horizonte dourado das eleições legislativas e do colapso financeiro e holocausto politico-partidário para que parece que nos encaminhamos. Quem vier que feche a porta, como se costuma dizer! Até lá é preciso agitar, fingir que se faz, mover, descentralizar, baralhar e dar de novo, atirar areia para os olhos dos portugueses anunciando a retoma que ainda tarda. É preciso fazer barulho! Barulho para distrair as atenções do que é essencial. Barulho, muito barulho, tanto barulho para nada.

Parece que estou a viver um filme surreal e niilista. È porque se de um lado chove do outro troveja e entre o mal e o pior, venha o diabo e escolha. A esquerda perdeu garra e pujança, parece uma virgem tímida cheia de recessos, receios e tabus, á espera do dia do Congresso, ou do Juízo Final ou do seja-lá-o-que-fôr, em que o decidido se decida ou em que o confirmado se confirme. Os socialistas entretêm-se a brincar aos três porquinhos fechados na sua casinha cor-de-rosa; só tenho receio é que quando decidirem qual deles é que sairá cá para fora para enfrentar o lobo mau, este já tenha desbaratado tudo o que haveria para desbaratar. Á direita vive-se a glória efémera de quem não sabe o que faz, de quem não tem nem um projecto de fundo, nem experiência e competência para levar a bom termo esse tal projecto, se o houvesse. Descentraliza-se sem saber muito bem para quê e com que finalidade, pedem-se carros sem saber se há cabimento orçamental para eles e promete-se o que nem se sabe se é possível cumprir. É o desgoverno na saúde, na política social, na educação (veja-se a situação escandalosa na colocação dos professores), na prevenção e combate aos fogos florestais, enfim, em tudo o mais e na cultura; pois que a única cultura que ainda vinga é a da incompetência e do absentismo, porque a outra, a Cultura com C maiúsculo, essa, está cansada de tanto «concerto para violinos de Chopin».Está seca de tão maltratada!

O que é preciso é arrecadar, cobrar impostos directos e indirectos, espremer ainda mais o já magro bolso dos portugueses, e isto para quê? Para que se possa sustentar uma administração pública caríssima e obsoleta que serve mal os contribuintes e que há muito que deveria ter sido já reformada e reformulada. E para que se possa gastar, esbanjar e desbaratar em luxos e politicas de erro que só favorecem a imagem diáfana e ilusória de bem-fazer, ardilosamente tecidas pelo gabinetes de imagem e de comunicação, quando na realidade nada de relevante se faz. A culpa não é deste governo, diga-se de passagem, é dos inúmeros governantes que ao longo das ultimas décadas têm passado pelo poder e que, salvo raras e honrosas excepções, na sua maioria primam pela incompetência, pelo carácter senão corrupto, pelo menos pouco isento e pela completa e absoluta falta de sentido se missão e de dever da responsabilidade do cargo para que foram mandatados.

Vale mais parecê-lo do que sê-lo na realidade e executar não interessa nada de que pareça que se executa. O que interessa são Casinos em Lisboa, movediços de localização em localização, projectos-miragem de reabilitação do Parque Mayer, túneis inacabados, travessias improváveis do Tejo e dívidas, muitas dívidas e tempos infindos para pagar as mesmas, como é devido a qualquer governante ou autarca que se preze.

E enquanto os dias correm acelerados para um futuro negro, não se passa nada, não se passa mesmo nada. E tanto barulho se faz por nada.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

31 de agosto de 2004

As dúvidas e as incertezas

Ninguém dúvida que todos temos dúvidas! E incertezas também. São ambas usuais á condição dita humana e peculiares aos indivíduos ditos portugueses. Já lá vai o tempo em que este país era governado por homens que raramente se enganavam e nunca tinham dúvidas. Deles ficaram memórias longínquas, heranças pesadas e essa estranha mania de não ter dúvidas, nem dar o benefício da dúvida a ninguém.

Ter dúvidas conduz á incerteza e a esse complexo histórico e histérico de andar permanentemente á deriva, sem ao menos tentar planear e prever o por vir. Se o acaso e a incerteza do caminho a seguir foram a argamassa de que foram feitas certas nações, a nossa é por certo uma delas. Os espanhóis também são o pouco assim, mas foram desaprendendo a sê-lo, em face dos desafios da modernidade. Nós continuamos exactamente como éramos; iguais a nós próprios, ostracisados sobre nós mesmo, fatalistas, adversos ás novidades, ao progresso lento e sustentado, encurralados entre o mar-oceano e a vizinhança de um pais economicamente bem sucedido. Se por ventura se desse a tal deriva continental, a tal Jangada de Pedra, ela seria por certo, portuguesa e não ibérica como previsto.

Nas despedidas, os ingleses desejam «boa ida» (goodbye), os italianos e alemães despedem-se «até voltar a ver-te», (aufwidersehen e arrivederci), até os espanhóis mais modernaços já trocaram o «adios», pelo mais esperançoso e prosaico «salut». Nós quando nos despedimos de alguém, não fazemos a coisa por menos, remetemos logo a pessoa «Adeus», na fatalista incerteza de não a voltar a ver. Como estamos sempre cheios de dúvidas e incertezas, temos pavor de ter mais, por isso, quando surgem situações de dúvida, de novidade, de tomada de consciência e posição: rejeitamos, enjeitamos, refutamos, adiamos a sua resolução com frontalidade, mesmo quando estamos mal informados sobre o assunto, mesmo no obscurantismo, mesmo no desconhecimento, jogamos pelo seguro e dizemos não. Vale mais rejeitar preliminarmente e não pensar mais nisso, do que dar o benefício da dúvida e viver na eterna incerteza de que tomámos a decisão certa.

Felizmente este tipo de atitude é só da boca para fora, como quem diz, para inglês ver, ou seja, é aquilo que fica bem dizer e que nos parece social e politicamente correcto. Os portugueses são um povo pacífico e brando, extremamente tolerante, descontraído e calmo, demasiado permissivo até; as leis são meras sugestões de conduta e não algo para se seguir á risca, os escândalos da vida privada não são verdadeiras escabrosidades mas sim fontes de entretenimento para uns e inspiração para outros, a corrupção e abuso de poder nos cargos públicos é considerado não crime maior mas uma consequência desse mesmo poder para que foram mandatados, fugir um pouquinho aos impostos é uma atitude inteligente e natural, assim como dar uma facadinha no matrimónio ou consumir demasiado álcool, que é uma consequência inevitável de sermos um país vinícola. A posição usual é: Não se pode! Não se deve! Mas desde que ninguém saiba continua-se a fazê-lo.

Tudo isto me veio á ideia depois de ler as tomadas de posição e os comentários acerca dos investimentos em áreas naturistas que se estão a pensar em fazer no Algarve. Existe pratica naturista em Portugal há muitas décadas, mesmo antes de haver legislação e praias ditas oficiais, mesmo antes de existirem campings e piscinas, mesmo antes de alguém pensar em regulamentar e oficializar o que quer que seja. A convivência entre nudista e têxteis sempre foi sã e pacífica, senão veja-se o número enorme de praias não-oficiais onde esta pratica é amplamente tolerada. Há muitos portugueses que gostam de se despir em público mesmo em sítios pouco apropriados, há ainda mais portugueses que praticam ou praticaram naturismo, embora poucos o queiram assumir, mas há um número ainda maior de pessoas neste pais que já foi espreitar os outros despidos. E quem nunca esteve ou desejou estar de um lado ou de outro, que atire a primeira pedra.

Mas também que pedras há a atirar contra uma pratica milenar, que engloba milhões de pessoas na Europa e cujo numero cresce de amo para ano e que era perfeitamente natural até as sombras medievas e de sentimento de culpa judaico-cristão turvarem as mentes menos esclarecidas? Nos comentários mais depreciativos que li, falavam do naturismo como algo imoral, orgia generalizada, ou equiparava mesmo um grupo de nudistas á imagem dos judeus condenados á morte nas câmaras de gaz dos campos de concentração nazi. Fiquei chocado! Só pessoas sexual e mentalmente perturbadas é que podem fazer este tipo de associações: Sexo e morte e nudez e imoralidade e nazismo.

Vamos lá sair das trevas! O Naturismo não tem nada de sexual nem de imoral, é praticado em locais apropriados e devidamente resguardados das vistas de quem não for lá espreitar para satisfazer a sua libido porca e destorcida. Despreocupai-vos conservadores deste país que ninguém irá andar nu na Praça do Comercio. O turismo naturista é uma crescente fonte de receita em todo o mundo, mas que em Portugal só está a ser aproveitada por alguns investidores estrangeiros, porque em terra de cegos quem tem olho aproveita os nichos de mercado e a ignorância e preconceito dos outros. Porque eles, mesmo que nós não o saibamos merecer, dão-nos o benefício da dúvida e lucram com as nossas incertezas e provincianismo.

Este assunto é apenas um exemplo! Por estas e por outras é que há povos ricos e bem sucedidos; por não terem medo das incertezas e por terem a bondade e inteligência de enfrentar os desafios dando a si próprios o benefício da dúvida. Sim, porque, acreditem, a dúvida é um benefício!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

24 de agosto de 2004

Estrangeiro aqui como em toda a parte

A medida que o sol de verão vai ressequindo e esbatendo os vermelhos e verdes das bandeiras que um dia cobriram este nosso Portugal de lés a lés, também vai esmorecendo o orgulho nacionalista e a esperança num país, senão melhor, pelo menos diferente. Foi-se o Euro e a Rock in Rio, findaram-se esses inegáveis momentos de júbilo e glória nacional e ficou essa realidade melancólica, depressiva e pardacenta que é o ter de enfrentar um quotidiano cada vez mais difícil e sem grandes expectativas de futuro. Foram-se os anéis, ficaram os dedos e as mãos, secas e cansadas, como sempre.

Outrora cumpriu-se o mar, esperamos ansiosamente por um rei morto em Alcácer-Quibir, vivemos a ilusão da grandeza e da opulência, rejubilámos com as promessas libertárias de Abril, com o admirável mundo novo de oportunidades que seria a adesão á comunidade económica europeia, com o sonho de progresso da Era Cavaquista… tudo se cumpriu desfazendo-se no pó amargo da realidade que hoje vivemos; o país não cresce, o poder de compra dos portugueses foi o que menos progrediu desde 1995, entre os quatro Estados membros que mais beneficiaram dos fundos estruturais da União Europeia - Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, existem projectos por cumprir, reformas de fundo por fazer e legislação por aprovar e implementar. Onde falta coragem politica, determinação e espírito de iniciativa e dinâmica, sobram corrupção, compadrio, incompetência, inércia e a pura convicção de que o Estado é que tem de resolver todos os problemas e dificuldades dos cidadãos. Os portugueses são como crianças ladinas e espertas que nunca se emanciparam e nunca saíram debaixo das saias da pátria-mãe. Falta eternamente um projecto nacional com vigor, isenção e sangue na guelra, falta cumprir-se Portugal.

Como diz a canção, Portugal, tem um pé numa galera e o outro no fundo do mar, que é como quem diz, que estamos na cauda da Europa apesar de termos um português na sua cabeça. Os desafios são enormes e o futuro não se avizinha nem risonho nem soalheiro; são tempos difíceis os que atravessamos e os que por aí vêem. Mas não há que esmorecer, há que enfrentar as coisas com serenidade e inteligência. Não quero ter vontade de engrossar as estatísticas da nova emigração deste princípio de século XXI, ou seja, aqueles, maioritariamente quadro médios e superiores, que perderam a esperança no país e decidiram tentar a sorte no estrangeiro. Eu sei que Portugal é um país pequeno e pobre, mas recuso-me a creditar que o seu povo seja medíocre e pobre de espírito.

Independentemente da cor politica com que o pintam, não foi este o Estado nem o governo com que sonhei e não é esta realidade moribunda o país que tanto desejei; sinto-me estrangeiro aqui como em toda a parte, tão deprimido e casual na vida como na alma. Há que empreender, projectar, programar e lutar arduamente pelos nossos objectivos tanto individuais como colectivos, há que sair da inércia, marasmo e tristeza infinda a que nos votámos. Há que fazer uma nova revolução, em Abril ou noutro mês qualquer, desta vez de mentalidades e maneira de estar, matado definitivamente esse país tacanho e á deriva em que nos habituámos a viver. Conforme tivemos espírito nacionalista e de união para apoiar com uma força nunca vista a Selecção Nacional de Futebol, vamos erguer as bandeiras e as nossas vozes em uníssono para apoiar outros projectos tão ou mais importantes, no âmbito cientifico, económico, ambiental, cultural, etc. Mudam as causas mas a força deve ser a mesma, talvez só assim se mudem as consequências.

Vamos lá combater os espíritos negativistas, tacanhos e medíocres. Que os Velhos do Restelo não levem a melhor. É preciso planear, programar e cumprir! Essencialmente cumprir! Vamos erguer a voz em prol de outras coisas além do futebol. É urgente mudar, mas a mudança tem de vir de dentro de cada um de nós; os auto-estradas e vias rápidas já sulcam o país de norte a sul, há que rasgar agora as estradas da alma dos portugueses, abrir as janelas do espírito aos ares da liderança e tomada de dianteira de um mundo moderno em constante mutação. Na última década do século XX já se investiu muito em betão, há que investir agora em pessoas e em ideias.

Eu acredito muito em Portugal e nos portugueses! Têm tudo para dar certo, desde que não fiquem sentados á espera… á espera de D. Sebastião, quer ele venha quer não.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

16 de agosto de 2004

Os malefícios do Tabaco

Há quem acredite que a proibição total de fumar em recintos fechados está prestes a ser lei e uma realidade em Portugal, pois este assunto irá ser analisado pelo governo como resposta à petição apresentada pela União Humanitária dos Doentes com Cancro (UHDC) que foi, entregue à Assembleia da República. Depois de consultado o Ministro da Saúde, foi considerada oportuno o reforço da legislação existente, estendendo a proibição de fumar a todos os espaços fechados, incluindo os locais de trabalho. Mas antes de se acreditar ingenuamente de alguma vez essa lei existirá ou será aplicada na realidade, deve-se considerar que, se fumar pode prejudicar enormemente a saúde de quem o faz e de quem o rodeia, o não fumar prejudica muito o governo, as finanças públicas e por consequência todos nós.

Fala-se muito dos direitos dos não-fumadores, que a meu ver são inegáveis e devem ser salvaguardados, mas por outro lado, onde estão os direitos dos fumadores?, que são cidadãos como os outros, que pagam igualmente impostos e que adquiriram um vicio legal, altamente rentável para o estado e que por isso mesmo devem ser ajudados. Proibir terminantemente é a forma mais pratica, demagógica e irrealista de lidar com o problema, limitando as liberdades individuais dos cidadãos. O que me preocupa neste tipo de leis e atitudes não é a sua exequibilidade, que neste caso é praticamente nula, mas o carácter fundamentalista que a mesma desperta.

Para respeitar os direitos dos não-fumadores, será que se deveria criar uma rede de sala de fumo, semelhantes ás outrora propostas sala de chuto? Ou então haver uma cadeia de locais, bares, restaurantes, para fumadores e outra paralela para não fumadores? Já ouvi até quem se queixasse dos fumadores nas paragens de autocarro; deveria então determinar-se ruas para fumadores e outras para não fumadores? Quem sabe até cidades-fumadoras e cidades-não-fumadoras, pois os fumadores representam mais de 26% da população? Vejam ao ridículo que chegámos.

Quando um indivíduo consulta um técnico de saúde e declara que fuma, devia imediatamente ser encaminhado para um centro de desintoxicação anti-tabaco. E onde estão esses centros? Onde está o apoio para os tabagistas que queiram deixar o vício? Onde está a formação dos técnicos de saúde para apoiarem e auxiliarem os pacientes afectados por esse malefício? Onde estão as campanhas sérias e firmes de combate ao consumo? Será que aqueles dísticos ridículos com que o governo obriga as tabaqueiras as desfearem os maços de tabaco é a solução? Pelo menos se não o é, é bem mais económico para os cofres do estado do que qualquer outra medida.
Está tudo errado! Os movimentos anti-tabagismo parecem fundamentalistas apedrejando ímpios em praça pública. Tenham a coragem e a inteligência de reflectir um pouco e mudar de atitude, porque por este caminho não vamos a lado nenhum. A palavra de ordem deveria ser prevenir e não proibir, deveria ser ajudar em vez de criticar e deveria ser reflectir em vez de punir. Quem contraiu o vício do tabaco, fê-lo com a cínica conivência e cumplicidade interesseira do estado de direito e estes viciados são antes de mais cidadão e antes de tudo isso são pessoas, seres humanos que tem um problema e precisam ser ajudados e não excluídos e recriminados. Por outro lado os fumadores deveriam ser mais cívico, mais atentos, menos orgulhosos do seu vício, mais preocupados com os resultados do tabacos nos outros, enfim, mais humanos e solidários com quem não fuma.

O cerne da questão é a falta de coragem e determinação que existe neste país, quer politica quer social, para enfrentar os problemas de forma frontal, inteligente e realista. E quando falo de problemas não falo só do tabaco, mas também do álcool, das drogas duras ou leves, da SIDA, do aborto, das mães adolescentes, da educação sexual, da violência doméstica, etc, etc… o lugar comum é ser repressivo em vez de preventivo, repulsivo em vez de compreensivo e compulsivo em vez de reflectivo. Não se toma medidas de fundo e o social e politicamente correcto é viver de aparências; desde que não se veja, desde que não se sinta, que importa se existe!

Vamos lá a deixar de demagogia e de tentar fazer leis que não têm aplicação pratica, ou será que o estado irá resolver parte do problema do desemprego criando brigadas para fiscalizar e aplicar coimas a quem fuma em recintos fechados, para assim fazer cumpri a lei? Porque não fazer uma lei que obrigue o estado a gastar 70% do imposto que arrecada em cada maço de cigarros em acções de prevenção e auxilio á desintoxicação de fumadores. Quem quer fazer aprovar leis ridículas e desajustadas que tenha a coragem de atacar o mal pela raiz e exija a proibição total do tabaco, equiparando-o á marijuana! Até lá, pensem, pensem muito antes de falar, pensem nos malefícios da irreflexão.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro