21 de agosto de 2006

CRÓNICA CHEIA DE NADAS

Como está é a ultima crónica antes das férias, decidi escrever sobre isso mesmo; sobre o tempo de não fazer nada e onde aparentemente nada acontece. Verão é tempo de praia, de sol, de mar, de campo. Verão rima com paixão, com despossessão, com descontração, mas também rima com meditação, com introspecção e com reflexão. Lá por ser um tempo que apela ao descanso dos corpos, não quer dizer que isso implique a inércia do espírito, muito pelo contrário: no desafogo da fuga natural das preocupações e afazeres da rotina quotidiana, refastelados entre sol e sombra no embalo da brisa, é a altura ideal para olharmos um pouco para dentro de nós e percebermos qual o nosso papel no enorme xadrez que é o futuro de todo nós.

Como a crise prolongada cria mossas e para muito de nós o dinheiro não abunda, há que fazer as malas para não partir, ficando por cá, ou seja, não indo a lado nenhum, reduzindo assim no período estival o raio de acção àquela amplitude que tem o ano todo. A realidade para muitos portugueses este ano será essa mesmo; uma férias que se limitam a umas idas á praia, uns jantares por fora, umas patuscadas com os amigos e pouco mais. Neste tempo de não partir tão cheio de Nadas, deve ser uma época de reflexão suave sobre o passado, ponderação do presente e planeamento esperançoso do futuro.

Esquecendo por momentos os horríveis e inenarráveis acontecimentos no Médio Oriente e as querelas estúpidas em sem sentido na Assembleia Legislativa da Madeira que proíbem os jornalistas do sexo masculino de entrar de T-Shirt, é tempo de acreditar num futuro melhor para este país. De todo o lado surgem pequenos sinais de que estão a ser tomadas as medidas certas e necessárias, que algo de bom nos espera nos tempos vindouros e que o por vir, se não for propriamente risonho, pelo menos não será triste de certeza.

Fala-se em especialização, em competência tecnológica, em competitividade, em reestruturação, em investimento estrangeiro, em sucesso na diminuição do défice público e numa montanha de outros conceitos inteligentes e interessantes, tendo-se estado efectivamente a desbravar os caminhos e estradas que conduzirão aos mesmos pelo meio do matagal da pesada herança de incompetência, despautério e improdutividade que caracterizou o passado recente. No entanto, para atingir a excelência, a glória e o tão esperado progresso falta apenas um pormenor, um pequeno nada de que tudo depende: a vontade íntima e ínfima de cada um de nós.

A desmotivação, a falta de determinação e objectivos tem sido um lugar comum para muitos portugueses. Chegou a altura, o momento exacto de, através da reflexão e meditação, mudar esse estado de alma de modo a que esta nação de nome Portugal, possa conquistar o lugar ao sol que tanto anseia e que pode ser seu por mérito próprio. Chega de indefinições, imprecisões, inconsistências e falta de vontade, cada um de nós tem de acreditar e por em pratica aquilo em que acredita. Há que dar o salto, o passo em frente e tornando os sonhos realidade, passar do idealismo á iniciativa. Há que ser audaz, persistente e empreendedor; não só profissionalmente, mas também a titulo pessoal, amoroso e familiar.

Que este Verão seja o primeiro do resto das vidas de todos nós! Um inicio de um novo ciclo! Por isso, agora que o calor convida ao repouso merecido do corpo, ponha a mente para trabalhar: programe, planeie e cumpra! Aquelas idas ao ginásio adiadas á tantos anos! O fim de uma relação á muito anunciado ou o inicio de uma nova, cuja indefinição a tem arrastado para águas mansas de suposta amizade! Procure o novo emprego que sempre ambicionou ou mude de atitude de modo a que o emprego de sempre lhe pareça novo e emocionante! Inscreva-se naquele curso de pintura ou teatro de modo a explorar aquele suposto talento profissional que ficou relegado para passatempo eternamente adiado! Mais do que benemérito seja justo! Mais do que esperto seja inteligente! Mais do que gentil seja bondoso! Mais do que educado seja correcto! Mais do que intencional seja determinado! Mais do que amoroso seja apaixonado! Estude! Leia! Ame! Viva! Parar é morrer! Desistir e adiar também!

O Verão, tal como esta crónica, é feito de pequenos Nadas. Pequenos nadas que são quase Tudo. Pense nisso e boas férias.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

21 de junho de 2006

DIA D

Enquanto a populaça vibra com os futebois e quase provoca uma hecatombe em pleno C. C.Colombo na senda de um autografo dos actores de «Floribella», o Presidente da República mais sul-americana da Europa se enche de gáudio e passeando-se alegremente pelo maravilhoso mundo novo e perfeito da biotecnologia, enquanto a oposição, á esquerda se tenta reinventar no vazio ideológico e gasto de si própria e á direita tenta encher o vazio dos ideais com militância coorporativas balofas e sem sentido, o governo actual dito moderno, urbano e pró-activo, faz o que quer e o que bem lhe apetece, ou seja, muito pouco. Num país em crise e cheio de problemas, ainda há coragem de lançar monumentais obras de engenharia, como referido no programa «Eixo do Mal» da SIC: uma ponte entre o passado dia 9 e 19, coisa julgada impossível, improvável ou mesmo pouco recomendável, que até S.Pedro indignado, castigou com chuva torrencial, raios e coriscos invalidando uma ida á praia e, em conjunto com o excesso de velocidade, de álcool e de cabeça louca dos automobilistas, fez disparar a sinistralidade rodoviária e inclusive o numero de mortos na estrada em relação a igual período do ano transacto. Haja audácia! Haja coragem! Haja circo, porque o pão para alguns já vai faltando.

Eu sei muito bem que tristezas não pagam dívidas e que não adianta chorar sobre o leite derramado, mas não compreendo a razão para tantas férias, festas e despreocupações; ou fomos todos atacados por uma espécie de amnésia e alheamento dos problemas reais do país, submergidos numa qualquer demência colectiva ou somos mesmo um povo destemido, inconsciente e inconsequente. Quando testemunho diariamente caso mais ou menos graves como o da fábrica da Opel na Azambuja, não compreendo as atitudes das pessoas em geral e dos políticos em particular. Segundo estatísticas do IEFP, vulgo Instituto de Emprego e Formação Profissional, o desemprego diminui no geral 2.8% mas subiu nos licenciados em particular 17% em comparação com igual período de 2005, facto que é deveras preocupante e incongruente com o discurso politico que quer fazer desta terra um lugar mais competitivo, mais tecnológico, mais produtivo e mais qualificado. Ou sou eu que estou alucinado e envolvido em miragens ou estes números revelam que estamos possivelmente a caminhar na direcção errada. Ou pior ainda, que se diz uma coisa e empreende-se outra.

Ninguém se julgue seguro ou imune, quando menos se espera ele surge de forma inesperada e catatónica – o Dia D – dia do desemprego, da desgraça, da desconstrução, do descalabro, da desilusão, do desespero. Falo por experiência própria: á cerca de ano e meio que também ele bateu á minha porta, deitando os meus sonhos por terra e transformando-me a vida numa espiral descendente e imparável até ao zero absoluto.

Estar desempregado, nos primeiros tempos até chega a ser engraçado; mais tempo livre para a família, coloca-se as leituras em dia, gasta-se o subsídio de desemprego e a indemnização (se a houve!), responde-se a anúncios a vai-se a entrevistas de trabalho sem sucesso. Assim se vai vivendo, ou melhor, sobrevivendo, sempre de olhos fitos na esperança, porque essa é a última a morrer.

Depois, lentamente, começamos a abrir os olhos para a dura realidade: o Factor C, que tanto pode significar cunha, conhecimento, cama, compadrio ou mesmo corrupção e que no passado assolava basicamente o sector dito público, hoje em dia sagra em toda a nossa sociedade, sendo a isenção, profissionalismo e imparcialidade, um pódio de excelência onde cada vez cabem menos excepções que só vêem confirmar a regra. O IEFP, espécie de Instituto Nacional de Estatísticas dos Desgraçados-que-não-conseguem-obter-um-emprego, não serve para nada além de convocar os inscritos de tempos a tempos para conversas vazias e colmatação de lacunas estatísticas, para enviar os mesmos para formações profissionais não desejadas ou desajustadas (Porque as adequadas ou desejadas não existem ou são bem pagas), sempre numa relação autoritária e com base no terror, do tipo: «ou cumpres com os nossos desmandos disparatados ou retiramos-te a tua magra fonte de subsistência». O IEFP serve ainda para desbaratar dinheiro subsidiando iniciativas locais de empregos, levadas a cabo uma parte das vezes por falsos empreendedores ou pessoas mal preparadas, que gastam os fundos atribuídos em coisas que nada tem a ver com os projectos apresentados, que não cumprem com o programado, que não pagam os impostos nem a segurança social, que se mantêm anos a funcionar na perfeita ilegalidade e que nunca são fiscalizados ou a quem nunca são pedidas contas dos apoios recebidos. Sei do que falo pois conheço exemplos reais.

Como não consegui ainda abrir conta num dos múltiplos balcões do Factor C que proliferam por aí, o Dia D ainda não saiu da minha porta… da minha e de cerca de mais meio milhão de portugueses. Considero-me um profissional rigoroso, honesto, cumpridor e estou disposto a trabalhar arduamente por um ordenado justo. Não tenho cunhas nem apadrinhamentos, não costumo fazer pontes, não gosto muito da «Floribella» e não ligo nada a futebois. Gosto de trabalhar e de produzir. Expliquem-me lá porque é que ainda não consegui um trabalho? Se calhar as minhas mais valias como profissional são desadequadas á realidade do país que temos… mas se calhar são as melhores para o Portugal que muitos gostariam de ter. Ou talvez não! Quando falo de mim, falo também muitos outros… dos quais um numero expressivo já emigrou.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

16 de maio de 2006

SINAIS EXEMPLARES

Acusam-me frequentemente de ser um desbocado e demasiado critico, de falar muito mal de quase tudo ou quase todos, de levar por diante um bota-abaixo continuo e implacável. Confesso que estas acusações têm o seu quê de verdade, pois na maioria das vezes o que me é dado a observar é mau, muito mau ou pior ainda. Mas por vezes surgem sinais, como aqueles misteriosos e inexplicáveis que marcam os campos cerealíferos, a que alguns atribuem origem divina, outros extraterrestre; tal como esses sinais que alimentam especulações e filmes, também no capim, no mato que é a cultura e sociedade portuguesa hoje em dia, surgem inextrincáveis e inegáveis sinais de vitalidade, de rigor, de excelência e que, embora de difícil explicação e de complicada interpretação, nos dão vontade de escrevinhar uma crónica dizendo bem.

A conhecida expressão portuguesa «coisa de museu», quer dizer algo bafiento, desusado, desinteressante e sem vitalidade, o que não podia ser a definição mais errada para caracterizar o desempenho do tecido museológico nacional, que na sua maioria são estruturas vivas, culturalmente vibrantes, com visão estratégica, rigor programático e profissionalismo, procurando sempre novos públicos e um papel intervencionista na sociedade que lhe cabe de direito. Não querendo diminuir o seu inegável valor e importância, o horizonte nesta área não se resume á mediática colecção Berardo, senão vejamos a programação do Dia Internacional dos Museus e também toda a actividade constante para além desse dia no Museu de Arte Antiga, no de Historia Natural, no do Traje, no da Água, no de Etnologia, no de Arqueologia, da Electricidade e em tantos outros. Muitos deles são a prova mais que viva de que com magras verbas se conseguem fazer suaves milagres.

Das magras verbas, passamos aos magros espaços. O que não falta por aí são excelentes espaços culturais, grandes e perfeitamente apetrechados e sem programação coerente, mortos e sem vitalidade, servindo criadores e interesses no mínimo obscuros e facciosos; mas sobre esse não vou falar nesta crónica. Vou falar de espaço pequenos que se tornam grande pela programação e dinâmica que geram: o Estúdio da Rosa, situado na rua do mesmo nome de flor é um deles, um espaço exíguo que vem provar que não é dos grandes tachos que saem os grandes cozinhados. Depois de exposições de pintura de grande qualidade, oferece-nos agora uma instalação de homenagem aos 33 anos de uma editora incontornável, a E Etc, que tem a coragem e o arrojo de, ao longo de mais de 3 décadas, nos oferecer a qualidade dita invendável, o pensamento na margem da torrente, o artístico e intelectualmente correcto mas por vezes socialmente inaceitável, enfim, a frescura da diferença cada vez mais necessária neste mundo tão igual a si mesmo. Na abertura desta instalação feita de livros, tivemos o privilégio de ouvir ler Alberto Pimenta por ele mesmo; algo depressivo mas tocante! Em complemento a estes magníficos 33 anos de vitalidade, quero salientar a mão cheia de editoras que surgiram nos últimos tempos e a fúria e força de trabalho de todas as outras que se mantêm no activo e que não param de nos presentear com novas e boas edições. E se isto não são sinais excelência, não sei o que serão sinais…

Este Maio, maduro Maio tem sido o mês de todos os teatros: com o Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa, com a Medeia de Euripedes numa belíssima tradução da saudosa Sophia de Mello Breyner e encenação de Fernanda Lapa, com o regresso dos que estiveram ausentes por muitos anos, como o encenador e performer Adelino Tavares, a actriz Teresa Madruga e como, passo a publicidade, eu próprio, que depois de 12 anos de ausência vou voltar de novo á cena dia 20 no Museu da Água com um espectáculo sobre Fernando Pessoa. Este mês, estavam programados mais de 100 espectáculos de teatro diferentes na área Metropolitana de Lisboa. Ufff! Se isto não é um sinal de vitalidade, por vezes excessiva, é certo, não sei o que são sinais…

Para terminar esta crónica de bem-dizer, quero salientar que a margem sul do Tejo, cada vez me surpreende mais, quer na positiva, quer na negativa. Fui ao Fórum José Manuel Figueiredo na Moita assistir ao concerto do LLoyd Cole; além de ter assistido a um magnifico espectáculo acústico que me fez viajar para os tempos em que no Frágil de outrora, me deixava emergir aos sons de The Smiths, The Cure, Elvis Costello, entre outros, fui amplamente surpreendido por excelente equipamento cultural com uma vitalidade e uma variedade e qualidade de programação que me deixou pasmo. Concelhos limítrofes, incluindo Lisboa, ponham os vossos olhos na Moita e aprendei alguma coisa! Puro sinal de profissionalismo, rigor e dinâmica.

Todos os exemplos que dei são sinais enigmáticos, sinais exemplares, sinais que ainda me fazem ter esperança num futuro melhor para esta terra amarga, verdadeiras flores no deserto que devem ser tidas em conta e que me obrigaram a fazer esta crónica de bem-dizer!
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

18 de abril de 2006

Disfunção Estéril

Os portugueses, desde a aurora da nossa história, são um povo produtivo, engenhoso, criativo e capaz, chegando mesmo a surpreender os mais incautos em tempos de adversidade. O problema deste país, é e sempre foi a classe dirigente, que salvo honrosas excepções, peca por ser incompetente, impertinente, culturalmente indigente, incongruente, inconsequente, subserviente ás influências estrangeiras e indiferente ás necessidades da nação. Outrora os monarcas, nobres e burgueses ricos e emergente, hoje os políticos, autarcas e gestores, têm quase todos a mesma invariável atitude: permanentemente ostracisados no próprio umbigo e interesses pessoais, pouco cientes da importância do serviço publico, pouco ou nada preparados para as funções que lhe foram confiadas, sem visão estratégica e demasiado focalizados na gestão do quintal que lhe foi atribuído, ignorando tudo á sua volta, numa miopia lamentável.

Uma boa parte dos portugueses que vivem noutros países, são empresários de sucesso como no caso dos que estão na Venezuela, no Brasil ou na África do Sul, são cientistas que glorificam centros de investigação e universidades estrangeira, são artistas de renome mundial como José Saramago ou Maria João Pires, ou são trabalhadores válidos, produtivos e dignos de mérito, como no Luxemburgo, um dos países com maior índice de produtividade da União Europeia, pejado no entanto de trabalhadores lusos. Quando vivem e trabalham em Portugal são aquilo que se sabe, aquilo que se vê e se constata, realidade á qual nem apetece tecer quaisquer comentários adicionais.

Emigração portuguesa existiu e continuará a existir, pelo menos enquanto os dirigentes e as Instituição da pátria ingrata continuarem a voltar as costas aos seus heróis, as suas cabeças pensantes ou simplesmente á massa anónima de força de trabalho que poderia fazer deste país uma realidade maior. O problema não é o povo, mas as instituições e quem as dirige; há bem pouco tempo, o director de um importante instituto publico, comentava comigo que «como a crise é grande, boa parte dos lugares de decisão estão ocupados por indivíduos claramente medíocres e que como têm noção do seu valor intrínseco, agarram-se ao poder com unhas e dentes, fazendo com que os realmente válidos fiquem no desemprego, caiam no desinteresse ou simplesmente emigrem». Eu não quis acreditar nas suas palavras de Velho do Restelo, mas com o passar do tempo, cada vez mais me convenço que ele tem razão. Talvez por isso, a emigração portuguesa do séc. XXI seja tão preocupante, porque é a debandada dos quadro, dos criadores, dos que pensam, dos que agem, dos que poderiam salvar este país.

O inacreditável acontece! Desrespeito dos desrespeitos: os funcionários de um grande Instituto publico decidem em bloco tirar os telefones do descanso durante uma manhã inteira de trabalho, sem uma justificação, deixando os contribuinte desesperados e a apinhados numa recepção onde a funcionária não sabe o que informar. Incongruência das incongruências: Delegações Regionais do Instituto da Juventude, tem ao seu serviço funcionários jurássicos, monolíticos e sem qualquer aptidão para o diálogo e atendimento, a fazer aconselhamento a um público juvenil. Balda das baldas: o facto amplamente noticiado na comunicação social de uma Assembleia da Republica praticamente vazia e inoperante para a função que lhe está destinada. Incompetência das incompetências: missivas que se ignoram, processos que se perdem, cartas registadas com aviso de recepção que não se respondem, diferimentos tácitos por inoperância ou falta de resposta, desacompanhamento de subsídios e financiamentos públicos, desbaratamento de dinheiro em projectos culturais que não se efectuam, e eu sei lá que mais.

Fiz uma pequena investigação por conta própria: telefonei na passada quarta-feira para inúmeros organismos públicos tentando falar com os responsáveis. Uma esmagadora maioria estava ausente em misterioso e conveniente serviço externo… na quinta-feira de manhã também já não se encontravam visto haver tolerância de ponto… o mesmo se passou na segunda-feira… juntando a isto, os que foram um pouco mais honestos e aproveitaram para tirar ferias efectivas nestes dias, pode-se dizer que quase tudo estava parado, com custos incalculáveis e exorbitantes a serem debitados aos já magros bolsos de cada um de nós. E o que importa é criar entraves, dificultar, problematizar, servir mal e assim apertar a entrada no círculo para que a roda dos privilegiados contemple sempre os mesmos.

Não vamos a lado nenhum com este mar de instituições acéfalas e inoperantes, de políticos amorfos e absentistas e dirigentes sem firmeza e pujança. Pior que a disfunção eréctil, que já tem uma azul solução, e a disfunção estéril que ataca a nossa classe com poderes decisórios. Disfunção Estéril de profissionalismo, de ideias e acções praticas, eficazes e efectivas, porque para essa ainda não existe remédio á vista.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

15 de março de 2006

Morangos Amargos

Agora que a Primavera já teima em fazer-se sentir, vem-me logo á memória as deliciosas frutas estivais como seja os morangos, doces, carnudos, sumarentos e de um vermelho quase pecaminoso. Os morangos quando são de boa qualidade, querem-se comidos assim, tal e qual se apresentam, apenas enxaguados numa fonte refrescante, e logo consumidos para deleite de todos. Os morando com chantilly são um profundo aburguesamento estrangeirado, hábito oriundo de países mais a norte, onde o sol não é tão generoso e por isso faz com que esta fruta não amadureça tanto e não se torne naturalmente tão doce. Há quem os consuma com iogurte, numa fusão láctea do sabor dos mesmos. São estilos diferentes, todos aceitáveis porque encerram em si o mínimo de bom gosto e como é sabido, estilos não se discutem. Juntar açúcar aos morangos é a menos recomendável e aceitável opção, porque o açúcar faz mal e deveria ser banido de qualquer dieta equilibrada, porque não faz sentido juntar doce a algo que já o é por si, porque mistifica o gosto dos mesmos sem revelar nenhum sabor novo fruto da fusão das partes, porque a textura granulada combina muito mal com a polpa carnuda e macia, porque num snobismo paupérrimo, não aproveita nem o melhor da fruta, nem o melhor do doce.

Como resposta á febre brasileira dos ginásios e da cultura do corpo, os jovens portugueses respondem consumindo imoderadamente Morangos com Açúcar, ano após ano, época após época, glorificando o que é fútil e algo medíocre, como vem sendo hábito no nosso país. É uma má solução, servida pelo argumento possível (Haja imaginação!), algum brio técnico e um nível de representação que, salvo os veteranos e algumas magníficas e honrosas excepções, roça o inaceitável. Este desfile de pseudo-actores, teenagers mal preparados e mal pagos em busca de fama fácil e glória instantânea, são no entanto o elemento aglutinador e catalizador de toda uma geração, de tal modo que até houve uma adolescente que se atirou de um penhasco só porque não foi aceite no casting da série. Depois da Beat Generation, depois da Geração X, depois da Geração Rasca, temos agora a Geração Morangos com Açúcar.

Almoçava eu outro dia num daqueles restaurantes que hoje se envergonham de chamar Tascas e que tem sempre a televisão ligada. O noticiário desfilava um sem número de desgraças e preocupações: assassinato de um transexual no Porto, violência doméstica, gripe das aves, aumento das taxas de juro, aumento da taxa de desemprego, entre outras maleitas. Ao meu lado, numa mesa extensa, almoçavam também um grande número de efectivos da PSP, que se banqueteavam com entremeada pingando gordura e estavam completamente alheios á realidade trágica urdida no ecrã. De súbito e para meu espanto, perante a noticia de que um jogador de um clube de futebol foi suspenso depois de tentar agredir o arbitro, todo o efectivo se levantou da mesa para se colar ao televisor, urrando e gritando impropérios de indignação, como se aquele episodio fosse de algum modo vital ou importante para o futuro de todos nós. . Eu também gosto de futebol e não tem nada de mal gostar de futebol. O problema é só gostar obsessivamente de futebol. Alheamento total, embora não aceitável é em certos casos compreensível Agora, alheamento de tudo o que não seja futebol, é algo… nem tenho palavras! É o país que temos e a inclassificável realidade em que somos forçados a viver.

Há modas e movimentos culturais e sociais, como a chamadas eróticas, os reality shows, o José Castelo Branco e muitos outros, que não são preocupantes, porque são naturalmente efémeros e extinguem-se em si mesmos. Não é o caso, nem do futebol, nem da adição de excesso de açúcar na fruta.

Qual combate ao desemprego? Qual Plano Tecnológico? Qual Captação de Investimento Estrangeiro? Qual que? … Tudo pérolas a porcos. Entre os efectivos trintões que nada tem na cabeça além de pernas musculadas correndo atrás do esférico sobre os relvados dos estádios sobre dimensionados, caríssimos e claramente desnecessários e os adolescentes efectivos que na cabeça nada têm e que chegarão aos trinta anos com os dentes podres e cariados numa congestão de Morangos com açúcar, venha o diabo e escolha. Entre a futilidade completa e a completa futilidade, a meu ver, nada há a escolher.

Eu prefiro os morangos ao natural, amargos mesmo, se tiver de ser, pois todo este doce, além de enjoar, deixa adivinhar um futuro de morangos bem amargos.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro