28 de maio de 2007

A Solidão da Escrita

A morte tal como a escrita é, por norma, um acto solitário. Já não me recordo de quem o autor desta ideia, mas lá que é verdade, não tenho qualquer dúvida, pois tal como é raro alguém falecer em conjunto com outrem, de forma acidental ou programada, também não é vulgar escritas a mais do que duas mãos. Mas enquanto a morte é algo certo e inevitável, que podemos adiar sem nunca poder fugir dela definitivamente, a escrita é algo incerto e que podemos sempre adiar; a constrangedora introspecção que é o confronto com o espaço branco que urge povoar de caracteres por vezes teima em não fluir e caprichosa exige-nos tempo, ausências, silêncios longos e respirações compassadas.

Por norma sou regular na escrita, mas por vezes, como se passou nos últimos tempos, preciso de um período de carência, de ler sem opinar, de contenção e de economia de palavras. Durante esse tempo este espaço ficou silenciado, para grande pena minha, pois sabia que você, caro leitor, continuava a cá vir na esperança que de mim brotassem mais textos, mais novidades e opiniões. Quero que saiba que senti saudades desta nossa comunicação unilateral, desta nossa conversa sem retorno, deste meu solilóquio acabado.

Mas no fundo o que importa é que voltei, para escrevinhar e opinar com a maior frequência possível. Voltei para ficar até que a voz se extinga, sabe-se lá quando.

31 de outubro de 2006

Admirável Portugal Novo

Normalmente as pessoas valorizam pouco aquilo que não é conquistado, isto é, as coisas que são conseguidas sem algum esforço são na maior parte das vezes sensaboronas e não devidamente apreciadas.

Quando foi dada aos portugueses, com a Revolução de Abril, a liberdade de fazer e dizer, para uma boa parte deles não significou ínfima e intimamente grande coisa; hoje não se pode, amanhã pode-se, numa conquista pouco saboreada e inesperada, fruto de uma reivindicação laboral e de classe que inadvertidamente fez cair de podre um regime, que já de si mal se aguentava em pé.

Depois foram as políticas, o apreender da democracia, a liberdade, a consciencialização das realidades e das dificuldades económicas, o reposicionamento de Portugal no Mundo e as mudanças, profundas para uns e apenas cosméticas para muitos. Depois vieram as soluções de compromisso dos pseudo-reformistas, a economia de mercado e liberalista, a adesão á União Europeia, a Era Dourada do cimento e do betão, em que o fluxo de riqueza oriundo das colónias foi substituído pelos fundos provenientes da Europa. Foi preciso que tudo mudasse para que tudo ficasse praticamente na mesma. Mudou-se o sistema político mas não se reformaram verdadeiramente as instituições e estruturas que tinham sido criadas para servir o regime cessante. Mudaram-se os tempos, mas as vontades e mentalidades continuaram quase na mesma.

Sou pessimista e desconfiado por natureza, mas é com orgulho, satisfação e esperança que afirmo que este país está finalmente a empreender o conjunto de reformas e a revolução de mentalidades que urgia que se tornassem realidade desde a primavera de 1974. Atravessamos um momento decisivo como nação: acabou o tempo dos pareceres e vislumbra-se uma verdadeira mudança no ser, no íntimo, na alma da grande maioria dos portugueses. Antes que as sondagens digam que a maioria das lusas gentes querem ser espanholas, é necessário levar em diante este projecto de mudança de mentalidades dando um novo sentido ao orgulho de ser quem somos.

São as reformas na obsoleta Administração Pública central e local, criada para servir os ideais do Estado Novo e que nunca foi devidamente reestruturada na sua génese. São as reformas na justiça, na segurança social, no sistema de ensino, na política, no combate ao espírito elitista e corporativo do eterno favorecimento de alguns. É o enxame de novas ideias e respectivos empreendedores. È a pluralidade e frontalidade do debate público de ideias como a despenalização do aborto, os direitos dos homossexuais e o problema das drogas. È a consciencialização sobre os diferendos da sexualidade, um dos principais problemas da saúde mental dos portugueses, segundo alguns psiquiatras, através de actos clínicos, de actividades de educação sexual e planeamento familiar, de novelas e programas de televisão, da comunicação social em geral e de conversas francas e despudoradas em particular. São os movimentos de vanguarda artística emergentes, na área da dança, da multimédia, do teatro, da performance, das artes plásticas, da música.

Tudo isto e muito mais, abrem as portas desse Admirável Portugal Novo. E como depois da crise institucional e de valores que atravessámos, são coisas que estão a ser dolorosamente conquistadas, espero que venham para ficar, para se enraizar e dar viçosos frutos a médio prazo.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

17 de setembro de 2006

O Sol quando nasce não é para todos

No passado sábado, dia 16 de Setembro, saí rua para ver se, das duas uma, ou me deleitava ou me desiludia com o novo semanário dirigido por José António Saraiva. Desde já, parabéns pela audácia e espírito empreendedor deste novo projecto. Depois de percorrer algumas bancas e pontos de venda constatei que o Sol quando nasce não é para todos, pois do Sol de papel nem a sombra consegui vislumbrar; tive de me contentar com o reduzido Sol digital ou com aquele que nesse dia até brilhava generosamente no céu e que, como diz o poeta, peca, quando em vez de criar, seca.

Basta a ânsia aguda dos portugueses por novidades, uma refrescante campanha publicitária e a promessa de trazer luz ao cinzentismo da comunicação social estabelecida para fazer evaporar 128 mil exemplares do jornal em menos de 2 horas. A curiosidade matou o gato e pelos vistos, fez esgotar o Sol. Eu até nem sou de ir em ondas e modismos, no entanto, tal como muitos compatriotas, calcorreei as ruas de quiosque em quiosque, na esperança vã de conseguir um exemplar disponível: uma jornada perturbante em busca de um Sol que só chegou para alguns.

Esta febre de leitura, esta curiosidade, esta senda por umas folhas de papel, só me faz parecer que os portugueses, e perdoem-me a metáfora, procuram desesperadamente um lugar ao sol, uma luz ao fundo do túnel escuro que percorrem há já algum tempo, um esboço de cor nas suas vidas, uma centelha de novo e de esperança e um ruptura certa com os valores e símbolos que pautaram o seu passado recente. No entanto não nos devemos deixar ofuscar com os brilhos, tanto na vida como na comunicação social, pois muitas das vezes eles são efémeros e falsos, tal como as promessas e as virtudes públicas. O público cruel, implacável e sempre soberano, tanto glorifica o bom como o mau, para sem qualquer remorso, eventualmente votá-los ao fracasso pouco depois, engrandecendo a angústia de uma morte anunciada, que já assolou tantas redacções de jornais deste país.

É urgente continuar a sonhar! Mas também é preciso nos desiludirmos todos os dias, pois só assim os sonhos se transformam em ideias, em projecto e em realidades e não mera ilusões dos sentidos. É preciso inovar mas com cautela! Pois como pude constatar, o sol quando nasce, ainda não chega para todos.

12 de setembro de 2006

LIQUIDEX

Lá afirma a antiquíssima e popular expressão portuguesa de que pagar e morrer é a ultima coisa a fazer. Se a esta adicionarmos o não menos famoso aforismo de que quem paga adiantado fica sempre mal servido, devidamente ornamentado com outras pérolas da sabedoria do povo como – com o mal dos outros posso eu bem, tristezas não pagam dívidas e o extraordinário pobretes mas alegretes, chegamos á triste mas irrefutável conclusão de que talvez estejamos perante um pais de pobres vigaristas, animados burlões e relapsos endividados, mas sempre alegres e de cabeça erguida, na verdadeira tradição do bom-malandro lusitano.

Como os exemplos devem vir sempre de cima, segundo os estudos “European Payment Índex 2005” e ”Spring Report 2006”, elaborados pela Intrum Justitia, líder europeia na gestão de serviços de crédito, com base em questionário respondido por mais de 9.000 empresas de 22 países europeus, o Estado Português foi considerado o pior pagador de entre os 22 países europeus estudados, demorando, em média, 150,8 dias a regularizar as dívidas que contraiu. Salvo raríssimas e honrosas excepções, o estado como cumpridor das suas obrigações dá um péssimo exemplo aos privados, pois não só não se coíbe de contrair dividas monstruosas e incomensuráveis, assim como mostra não ser pessoa de bem, pagando mal e tarde e a más horas, chegando mesmo ao despautério de, no caso de certas câmaras municipais, de levar quase4 ou 5 anos a pagar uma dívida.

Num país onde pouco se cumprem horários e compromisso, onde se marcam encontros e reuniões para hora incerta - entre as três e as três e meia – por exemplo, onde a lei não é para cumprir á risca porque é considerada uma mera sugestão de conduta, o acto de dever tornou-se tão natural como o de beber. O incumprimento tornou-se um lugar comum e alastra de forma perniciosa como a peste: do estado, para as instituições, fundações, associações, grandes empresas, pequenas empresas, micro empresas e até para os particulares, quase todos devem e pagam as suas dividas tarde, sem sentirem que isso põe em causa o seu bom nome e a sua integridade moral, sem qualquer sombra de remorsos ou qualquer outro problema de consciência, quer individual quer colectiva.

Numa lógica de - olha para o que eu digo, mas não olhes para o que eu faço -, qual a moral do estado para convencer ou obrigar os contribuintes a cumprir, se o próprio estado é o maior prevaricador e incumpridor? Qual o incentivo á produtividade, ao empreededorismo e ao investimento num país onde quase ninguém liquida as suas obrigações nos prazos devidos? Como é que é possível as empresas terem uma boa saúde financeira quando, além da pesadíssima carga fiscal, são forçadas a cumpri-la e a liquidar o IVA, por exemplo, antes mesmo de receberem o referido valor do cliente? Não há capacidade que valha, não há paciência que aguente, não há justiça que chegue! Entregar dinheiro a alguém, neste caso o estado, que nos deve dinheiro, é algo que roça o absurdo.

Fala-se na conjuntura, em problemas estruturais de fundo, no desemprego, na herança de décadas de obscurantismo durante a ditadura, fala-se de um problema social e cultural… fala-se muito, mas cumpre-se pouco, pois mais do que identificar as origens importa é corrigir o problema e, dando o exemplo, dar uma nova luz de esperança e rigor ás transacções nacionais. Temos de nos consciencializar todos, quer como indivíduos, quer como membros dos múltiplos colectivos que constituem o tecido empresarial e institucional do país, que pagar tarde e fora do prazo estabelecido contratualmente com o fornecedor, é moralmente, quase equivalente a pagar nunca: é burla, é vigarice, é indigno, é desonesto, é injusto, é ilegal, é prejudicial! Pagar dever ficar para sempre dissociado de morrer, pois o não receber atempadamente é que é a única coisa que leva á morte prematura das empresas e das instituições, conduzindo a economia ao estado moribundo em que se encontra.

Será possível modernizar a Administração Pública? Facilitar a vida ás pessoas? Dar ás empresas a rapidez que precisam? Segundo afirma o governo, é claro que sim; com o Simplex, programa de simplificação administrativa e legislativa, já quase completamente implementado e com resultados práticos visíveis e interessantes.

Caro senhor Primeiro-ministro José Sócrates, caros lideres da oposição, depois do Simplex, é necessário implementar com urgência desmedida o Programa Liquidex, programa de pagamento das dividas do estado e das autarquias a tempo e hora de modo a darem o exemplo e serem consideradas pessoas de bem e a fomentarem assim verdadeiramente a economia. O Programa Liquidex deve ser, a meu ver, a ferramenta primordial para moralização, incremento, dinamização e regulamentação das transacções comerciais de Portugal.

Costuma-se dizer que uma pessoa só morre quando tem que morrer, quando chega a sua hora, o momento exacto, o instante certo. Neste ponto, pagar dever ser tal e qual como morrer: quando chega a hora, no momento exacto da data da factura, no instante certo acordado com o fornecedor.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro

21 de agosto de 2006

CRÓNICA CHEIA DE NADAS

Como está é a ultima crónica antes das férias, decidi escrever sobre isso mesmo; sobre o tempo de não fazer nada e onde aparentemente nada acontece. Verão é tempo de praia, de sol, de mar, de campo. Verão rima com paixão, com despossessão, com descontração, mas também rima com meditação, com introspecção e com reflexão. Lá por ser um tempo que apela ao descanso dos corpos, não quer dizer que isso implique a inércia do espírito, muito pelo contrário: no desafogo da fuga natural das preocupações e afazeres da rotina quotidiana, refastelados entre sol e sombra no embalo da brisa, é a altura ideal para olharmos um pouco para dentro de nós e percebermos qual o nosso papel no enorme xadrez que é o futuro de todo nós.

Como a crise prolongada cria mossas e para muito de nós o dinheiro não abunda, há que fazer as malas para não partir, ficando por cá, ou seja, não indo a lado nenhum, reduzindo assim no período estival o raio de acção àquela amplitude que tem o ano todo. A realidade para muitos portugueses este ano será essa mesmo; uma férias que se limitam a umas idas á praia, uns jantares por fora, umas patuscadas com os amigos e pouco mais. Neste tempo de não partir tão cheio de Nadas, deve ser uma época de reflexão suave sobre o passado, ponderação do presente e planeamento esperançoso do futuro.

Esquecendo por momentos os horríveis e inenarráveis acontecimentos no Médio Oriente e as querelas estúpidas em sem sentido na Assembleia Legislativa da Madeira que proíbem os jornalistas do sexo masculino de entrar de T-Shirt, é tempo de acreditar num futuro melhor para este país. De todo o lado surgem pequenos sinais de que estão a ser tomadas as medidas certas e necessárias, que algo de bom nos espera nos tempos vindouros e que o por vir, se não for propriamente risonho, pelo menos não será triste de certeza.

Fala-se em especialização, em competência tecnológica, em competitividade, em reestruturação, em investimento estrangeiro, em sucesso na diminuição do défice público e numa montanha de outros conceitos inteligentes e interessantes, tendo-se estado efectivamente a desbravar os caminhos e estradas que conduzirão aos mesmos pelo meio do matagal da pesada herança de incompetência, despautério e improdutividade que caracterizou o passado recente. No entanto, para atingir a excelência, a glória e o tão esperado progresso falta apenas um pormenor, um pequeno nada de que tudo depende: a vontade íntima e ínfima de cada um de nós.

A desmotivação, a falta de determinação e objectivos tem sido um lugar comum para muitos portugueses. Chegou a altura, o momento exacto de, através da reflexão e meditação, mudar esse estado de alma de modo a que esta nação de nome Portugal, possa conquistar o lugar ao sol que tanto anseia e que pode ser seu por mérito próprio. Chega de indefinições, imprecisões, inconsistências e falta de vontade, cada um de nós tem de acreditar e por em pratica aquilo em que acredita. Há que dar o salto, o passo em frente e tornando os sonhos realidade, passar do idealismo á iniciativa. Há que ser audaz, persistente e empreendedor; não só profissionalmente, mas também a titulo pessoal, amoroso e familiar.

Que este Verão seja o primeiro do resto das vidas de todos nós! Um inicio de um novo ciclo! Por isso, agora que o calor convida ao repouso merecido do corpo, ponha a mente para trabalhar: programe, planeie e cumpra! Aquelas idas ao ginásio adiadas á tantos anos! O fim de uma relação á muito anunciado ou o inicio de uma nova, cuja indefinição a tem arrastado para águas mansas de suposta amizade! Procure o novo emprego que sempre ambicionou ou mude de atitude de modo a que o emprego de sempre lhe pareça novo e emocionante! Inscreva-se naquele curso de pintura ou teatro de modo a explorar aquele suposto talento profissional que ficou relegado para passatempo eternamente adiado! Mais do que benemérito seja justo! Mais do que esperto seja inteligente! Mais do que gentil seja bondoso! Mais do que educado seja correcto! Mais do que intencional seja determinado! Mais do que amoroso seja apaixonado! Estude! Leia! Ame! Viva! Parar é morrer! Desistir e adiar também!

O Verão, tal como esta crónica, é feito de pequenos Nadas. Pequenos nadas que são quase Tudo. Pense nisso e boas férias.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro