31 de agosto de 2004

As dúvidas e as incertezas

Ninguém dúvida que todos temos dúvidas! E incertezas também. São ambas usuais á condição dita humana e peculiares aos indivíduos ditos portugueses. Já lá vai o tempo em que este país era governado por homens que raramente se enganavam e nunca tinham dúvidas. Deles ficaram memórias longínquas, heranças pesadas e essa estranha mania de não ter dúvidas, nem dar o benefício da dúvida a ninguém.

Ter dúvidas conduz á incerteza e a esse complexo histórico e histérico de andar permanentemente á deriva, sem ao menos tentar planear e prever o por vir. Se o acaso e a incerteza do caminho a seguir foram a argamassa de que foram feitas certas nações, a nossa é por certo uma delas. Os espanhóis também são o pouco assim, mas foram desaprendendo a sê-lo, em face dos desafios da modernidade. Nós continuamos exactamente como éramos; iguais a nós próprios, ostracisados sobre nós mesmo, fatalistas, adversos ás novidades, ao progresso lento e sustentado, encurralados entre o mar-oceano e a vizinhança de um pais economicamente bem sucedido. Se por ventura se desse a tal deriva continental, a tal Jangada de Pedra, ela seria por certo, portuguesa e não ibérica como previsto.

Nas despedidas, os ingleses desejam «boa ida» (goodbye), os italianos e alemães despedem-se «até voltar a ver-te», (aufwidersehen e arrivederci), até os espanhóis mais modernaços já trocaram o «adios», pelo mais esperançoso e prosaico «salut». Nós quando nos despedimos de alguém, não fazemos a coisa por menos, remetemos logo a pessoa «Adeus», na fatalista incerteza de não a voltar a ver. Como estamos sempre cheios de dúvidas e incertezas, temos pavor de ter mais, por isso, quando surgem situações de dúvida, de novidade, de tomada de consciência e posição: rejeitamos, enjeitamos, refutamos, adiamos a sua resolução com frontalidade, mesmo quando estamos mal informados sobre o assunto, mesmo no obscurantismo, mesmo no desconhecimento, jogamos pelo seguro e dizemos não. Vale mais rejeitar preliminarmente e não pensar mais nisso, do que dar o benefício da dúvida e viver na eterna incerteza de que tomámos a decisão certa.

Felizmente este tipo de atitude é só da boca para fora, como quem diz, para inglês ver, ou seja, é aquilo que fica bem dizer e que nos parece social e politicamente correcto. Os portugueses são um povo pacífico e brando, extremamente tolerante, descontraído e calmo, demasiado permissivo até; as leis são meras sugestões de conduta e não algo para se seguir á risca, os escândalos da vida privada não são verdadeiras escabrosidades mas sim fontes de entretenimento para uns e inspiração para outros, a corrupção e abuso de poder nos cargos públicos é considerado não crime maior mas uma consequência desse mesmo poder para que foram mandatados, fugir um pouquinho aos impostos é uma atitude inteligente e natural, assim como dar uma facadinha no matrimónio ou consumir demasiado álcool, que é uma consequência inevitável de sermos um país vinícola. A posição usual é: Não se pode! Não se deve! Mas desde que ninguém saiba continua-se a fazê-lo.

Tudo isto me veio á ideia depois de ler as tomadas de posição e os comentários acerca dos investimentos em áreas naturistas que se estão a pensar em fazer no Algarve. Existe pratica naturista em Portugal há muitas décadas, mesmo antes de haver legislação e praias ditas oficiais, mesmo antes de existirem campings e piscinas, mesmo antes de alguém pensar em regulamentar e oficializar o que quer que seja. A convivência entre nudista e têxteis sempre foi sã e pacífica, senão veja-se o número enorme de praias não-oficiais onde esta pratica é amplamente tolerada. Há muitos portugueses que gostam de se despir em público mesmo em sítios pouco apropriados, há ainda mais portugueses que praticam ou praticaram naturismo, embora poucos o queiram assumir, mas há um número ainda maior de pessoas neste pais que já foi espreitar os outros despidos. E quem nunca esteve ou desejou estar de um lado ou de outro, que atire a primeira pedra.

Mas também que pedras há a atirar contra uma pratica milenar, que engloba milhões de pessoas na Europa e cujo numero cresce de amo para ano e que era perfeitamente natural até as sombras medievas e de sentimento de culpa judaico-cristão turvarem as mentes menos esclarecidas? Nos comentários mais depreciativos que li, falavam do naturismo como algo imoral, orgia generalizada, ou equiparava mesmo um grupo de nudistas á imagem dos judeus condenados á morte nas câmaras de gaz dos campos de concentração nazi. Fiquei chocado! Só pessoas sexual e mentalmente perturbadas é que podem fazer este tipo de associações: Sexo e morte e nudez e imoralidade e nazismo.

Vamos lá sair das trevas! O Naturismo não tem nada de sexual nem de imoral, é praticado em locais apropriados e devidamente resguardados das vistas de quem não for lá espreitar para satisfazer a sua libido porca e destorcida. Despreocupai-vos conservadores deste país que ninguém irá andar nu na Praça do Comercio. O turismo naturista é uma crescente fonte de receita em todo o mundo, mas que em Portugal só está a ser aproveitada por alguns investidores estrangeiros, porque em terra de cegos quem tem olho aproveita os nichos de mercado e a ignorância e preconceito dos outros. Porque eles, mesmo que nós não o saibamos merecer, dão-nos o benefício da dúvida e lucram com as nossas incertezas e provincianismo.

Este assunto é apenas um exemplo! Por estas e por outras é que há povos ricos e bem sucedidos; por não terem medo das incertezas e por terem a bondade e inteligência de enfrentar os desafios dando a si próprios o benefício da dúvida. Sim, porque, acreditem, a dúvida é um benefício!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

24 de agosto de 2004

Estrangeiro aqui como em toda a parte

A medida que o sol de verão vai ressequindo e esbatendo os vermelhos e verdes das bandeiras que um dia cobriram este nosso Portugal de lés a lés, também vai esmorecendo o orgulho nacionalista e a esperança num país, senão melhor, pelo menos diferente. Foi-se o Euro e a Rock in Rio, findaram-se esses inegáveis momentos de júbilo e glória nacional e ficou essa realidade melancólica, depressiva e pardacenta que é o ter de enfrentar um quotidiano cada vez mais difícil e sem grandes expectativas de futuro. Foram-se os anéis, ficaram os dedos e as mãos, secas e cansadas, como sempre.

Outrora cumpriu-se o mar, esperamos ansiosamente por um rei morto em Alcácer-Quibir, vivemos a ilusão da grandeza e da opulência, rejubilámos com as promessas libertárias de Abril, com o admirável mundo novo de oportunidades que seria a adesão á comunidade económica europeia, com o sonho de progresso da Era Cavaquista… tudo se cumpriu desfazendo-se no pó amargo da realidade que hoje vivemos; o país não cresce, o poder de compra dos portugueses foi o que menos progrediu desde 1995, entre os quatro Estados membros que mais beneficiaram dos fundos estruturais da União Europeia - Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, existem projectos por cumprir, reformas de fundo por fazer e legislação por aprovar e implementar. Onde falta coragem politica, determinação e espírito de iniciativa e dinâmica, sobram corrupção, compadrio, incompetência, inércia e a pura convicção de que o Estado é que tem de resolver todos os problemas e dificuldades dos cidadãos. Os portugueses são como crianças ladinas e espertas que nunca se emanciparam e nunca saíram debaixo das saias da pátria-mãe. Falta eternamente um projecto nacional com vigor, isenção e sangue na guelra, falta cumprir-se Portugal.

Como diz a canção, Portugal, tem um pé numa galera e o outro no fundo do mar, que é como quem diz, que estamos na cauda da Europa apesar de termos um português na sua cabeça. Os desafios são enormes e o futuro não se avizinha nem risonho nem soalheiro; são tempos difíceis os que atravessamos e os que por aí vêem. Mas não há que esmorecer, há que enfrentar as coisas com serenidade e inteligência. Não quero ter vontade de engrossar as estatísticas da nova emigração deste princípio de século XXI, ou seja, aqueles, maioritariamente quadro médios e superiores, que perderam a esperança no país e decidiram tentar a sorte no estrangeiro. Eu sei que Portugal é um país pequeno e pobre, mas recuso-me a creditar que o seu povo seja medíocre e pobre de espírito.

Independentemente da cor politica com que o pintam, não foi este o Estado nem o governo com que sonhei e não é esta realidade moribunda o país que tanto desejei; sinto-me estrangeiro aqui como em toda a parte, tão deprimido e casual na vida como na alma. Há que empreender, projectar, programar e lutar arduamente pelos nossos objectivos tanto individuais como colectivos, há que sair da inércia, marasmo e tristeza infinda a que nos votámos. Há que fazer uma nova revolução, em Abril ou noutro mês qualquer, desta vez de mentalidades e maneira de estar, matado definitivamente esse país tacanho e á deriva em que nos habituámos a viver. Conforme tivemos espírito nacionalista e de união para apoiar com uma força nunca vista a Selecção Nacional de Futebol, vamos erguer as bandeiras e as nossas vozes em uníssono para apoiar outros projectos tão ou mais importantes, no âmbito cientifico, económico, ambiental, cultural, etc. Mudam as causas mas a força deve ser a mesma, talvez só assim se mudem as consequências.

Vamos lá combater os espíritos negativistas, tacanhos e medíocres. Que os Velhos do Restelo não levem a melhor. É preciso planear, programar e cumprir! Essencialmente cumprir! Vamos erguer a voz em prol de outras coisas além do futebol. É urgente mudar, mas a mudança tem de vir de dentro de cada um de nós; os auto-estradas e vias rápidas já sulcam o país de norte a sul, há que rasgar agora as estradas da alma dos portugueses, abrir as janelas do espírito aos ares da liderança e tomada de dianteira de um mundo moderno em constante mutação. Na última década do século XX já se investiu muito em betão, há que investir agora em pessoas e em ideias.

Eu acredito muito em Portugal e nos portugueses! Têm tudo para dar certo, desde que não fiquem sentados á espera… á espera de D. Sebastião, quer ele venha quer não.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

16 de agosto de 2004

Os malefícios do Tabaco

Há quem acredite que a proibição total de fumar em recintos fechados está prestes a ser lei e uma realidade em Portugal, pois este assunto irá ser analisado pelo governo como resposta à petição apresentada pela União Humanitária dos Doentes com Cancro (UHDC) que foi, entregue à Assembleia da República. Depois de consultado o Ministro da Saúde, foi considerada oportuno o reforço da legislação existente, estendendo a proibição de fumar a todos os espaços fechados, incluindo os locais de trabalho. Mas antes de se acreditar ingenuamente de alguma vez essa lei existirá ou será aplicada na realidade, deve-se considerar que, se fumar pode prejudicar enormemente a saúde de quem o faz e de quem o rodeia, o não fumar prejudica muito o governo, as finanças públicas e por consequência todos nós.

Fala-se muito dos direitos dos não-fumadores, que a meu ver são inegáveis e devem ser salvaguardados, mas por outro lado, onde estão os direitos dos fumadores?, que são cidadãos como os outros, que pagam igualmente impostos e que adquiriram um vicio legal, altamente rentável para o estado e que por isso mesmo devem ser ajudados. Proibir terminantemente é a forma mais pratica, demagógica e irrealista de lidar com o problema, limitando as liberdades individuais dos cidadãos. O que me preocupa neste tipo de leis e atitudes não é a sua exequibilidade, que neste caso é praticamente nula, mas o carácter fundamentalista que a mesma desperta.

Para respeitar os direitos dos não-fumadores, será que se deveria criar uma rede de sala de fumo, semelhantes ás outrora propostas sala de chuto? Ou então haver uma cadeia de locais, bares, restaurantes, para fumadores e outra paralela para não fumadores? Já ouvi até quem se queixasse dos fumadores nas paragens de autocarro; deveria então determinar-se ruas para fumadores e outras para não fumadores? Quem sabe até cidades-fumadoras e cidades-não-fumadoras, pois os fumadores representam mais de 26% da população? Vejam ao ridículo que chegámos.

Quando um indivíduo consulta um técnico de saúde e declara que fuma, devia imediatamente ser encaminhado para um centro de desintoxicação anti-tabaco. E onde estão esses centros? Onde está o apoio para os tabagistas que queiram deixar o vício? Onde está a formação dos técnicos de saúde para apoiarem e auxiliarem os pacientes afectados por esse malefício? Onde estão as campanhas sérias e firmes de combate ao consumo? Será que aqueles dísticos ridículos com que o governo obriga as tabaqueiras as desfearem os maços de tabaco é a solução? Pelo menos se não o é, é bem mais económico para os cofres do estado do que qualquer outra medida.
Está tudo errado! Os movimentos anti-tabagismo parecem fundamentalistas apedrejando ímpios em praça pública. Tenham a coragem e a inteligência de reflectir um pouco e mudar de atitude, porque por este caminho não vamos a lado nenhum. A palavra de ordem deveria ser prevenir e não proibir, deveria ser ajudar em vez de criticar e deveria ser reflectir em vez de punir. Quem contraiu o vício do tabaco, fê-lo com a cínica conivência e cumplicidade interesseira do estado de direito e estes viciados são antes de mais cidadão e antes de tudo isso são pessoas, seres humanos que tem um problema e precisam ser ajudados e não excluídos e recriminados. Por outro lado os fumadores deveriam ser mais cívico, mais atentos, menos orgulhosos do seu vício, mais preocupados com os resultados do tabacos nos outros, enfim, mais humanos e solidários com quem não fuma.

O cerne da questão é a falta de coragem e determinação que existe neste país, quer politica quer social, para enfrentar os problemas de forma frontal, inteligente e realista. E quando falo de problemas não falo só do tabaco, mas também do álcool, das drogas duras ou leves, da SIDA, do aborto, das mães adolescentes, da educação sexual, da violência doméstica, etc, etc… o lugar comum é ser repressivo em vez de preventivo, repulsivo em vez de compreensivo e compulsivo em vez de reflectivo. Não se toma medidas de fundo e o social e politicamente correcto é viver de aparências; desde que não se veja, desde que não se sinta, que importa se existe!

Vamos lá a deixar de demagogia e de tentar fazer leis que não têm aplicação pratica, ou será que o estado irá resolver parte do problema do desemprego criando brigadas para fiscalizar e aplicar coimas a quem fuma em recintos fechados, para assim fazer cumpri a lei? Porque não fazer uma lei que obrigue o estado a gastar 70% do imposto que arrecada em cada maço de cigarros em acções de prevenção e auxilio á desintoxicação de fumadores. Quem quer fazer aprovar leis ridículas e desajustadas que tenha a coragem de atacar o mal pela raiz e exija a proibição total do tabaco, equiparando-o á marijuana! Até lá, pensem, pensem muito antes de falar, pensem nos malefícios da irreflexão.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro