Ninguém dúvida que todos temos dúvidas! E incertezas também. São ambas usuais á condição dita humana e peculiares aos indivíduos ditos portugueses. Já lá vai o tempo em que este país era governado por homens que raramente se enganavam e nunca tinham dúvidas. Deles ficaram memórias longínquas, heranças pesadas e essa estranha mania de não ter dúvidas, nem dar o benefício da dúvida a ninguém.Ter dúvidas conduz á incerteza e a esse complexo histórico e histérico de andar permanentemente á deriva, sem ao menos tentar planear e prever o por vir. Se o acaso e a incerteza do caminho a seguir foram a argamassa de que foram feitas certas nações, a nossa é por certo uma delas. Os espanhóis também são o pouco assim, mas foram desaprendendo a sê-lo, em face dos desafios da modernidade. Nós continuamos exactamente como éramos; iguais a nós próprios, ostracisados sobre nós mesmo, fatalistas, adversos ás novidades, ao progresso lento e sustentado, encurralados entre o mar-oceano e a vizinhança de um pais economicamente bem sucedido. Se por ventura se desse a tal deriva continental, a tal Jangada de Pedra, ela seria por certo, portuguesa e não ibérica como previsto.
Nas despedidas, os ingleses desejam «boa ida» (goodbye), os italianos e alemães despedem-se «até voltar a ver-te», (aufwidersehen e arrivederci), até os espanhóis mais modernaços já trocaram o «adios», pelo mais esperançoso e prosaico «salut». Nós quando nos despedimos de alguém, não fazemos a coisa por menos, remetemos logo a pessoa «Adeus», na fatalista incerteza de não a voltar a ver. Como estamos sempre cheios de dúvidas e incertezas, temos pavor de ter mais, por isso, quando surgem situações de dúvida, de novidade, de tomada de consciência e posição: rejeitamos, enjeitamos, refutamos, adiamos a sua resolução com frontalidade, mesmo quando estamos mal informados sobre o assunto, mesmo no obscurantismo, mesmo no desconhecimento, jogamos pelo seguro e dizemos não. Vale mais rejeitar preliminarmente e não pensar mais nisso, do que dar o benefício da dúvida e viver na eterna incerteza de que tomámos a decisão certa.
Felizmente este tipo de atitude é só da boca para fora, como quem diz, para inglês ver, ou seja, é aquilo que fica bem dizer e que nos parece social e politicamente correcto. Os portugueses são um povo pacífico e brando, extremamente tolerante, descontraído e calmo, demasiado permissivo até; as leis são meras sugestões de conduta e não algo para se seguir á risca, os escândalos da vida privada não são verdadeiras escabrosidades mas sim fontes de entretenimento para uns e inspiração para outros, a corrupção e abuso de poder nos cargos públicos é considerado não crime maior mas uma consequência desse mesmo poder para que foram mandatados, fugir um pouquinho aos impostos é uma atitude inteligente e natural, assim como dar uma facadinha no matrimónio ou consumir demasiado álcool, que é uma consequência inevitável de sermos um país vinícola. A posição usual é: Não se pode! Não se deve! Mas desde que ninguém saiba continua-se a fazê-lo.
Tudo isto me veio á ideia depois de ler as tomadas de posição e os comentários acerca dos investimentos em áreas naturistas que se estão a pensar em fazer no Algarve. Existe pratica naturista em Portugal há muitas décadas, mesmo antes de haver legislação e praias ditas oficiais, mesmo antes de existirem campings e piscinas, mesmo antes de alguém pensar em regulamentar e oficializar o que quer que seja. A convivência entre nudista e têxteis sempre foi sã e pacífica, senão veja-se o número enorme de praias não-oficiais onde esta pratica é amplamente tolerada. Há muitos portugueses que gostam de se despir em público mesmo em sítios pouco apropriados, há ainda mais portugueses que praticam ou praticaram naturismo, embora poucos o queiram assumir, mas há um número ainda maior de pessoas neste pais que já foi espreitar os outros despidos. E quem nunca esteve ou desejou estar de um lado ou de outro, que atire a primeira pedra.
Mas também que pedras há a atirar contra uma pratica milenar, que engloba milhões de pessoas na Europa e cujo numero cresce de amo para ano e que era perfeitamente natural até as sombras medievas e de sentimento de culpa judaico-cristão turvarem as mentes menos esclarecidas? Nos comentários mais depreciativos que li, falavam do naturismo como algo imoral, orgia generalizada, ou equiparava mesmo um grupo de nudistas á imagem dos judeus condenados á morte nas câmaras de gaz dos campos de concentração nazi. Fiquei chocado! Só pessoas sexual e mentalmente perturbadas é que podem fazer este tipo de associações: Sexo e morte e nudez e imoralidade e nazismo.
Vamos lá sair das trevas! O Naturismo não tem nada de sexual nem de imoral, é praticado em locais apropriados e devidamente resguardados das vistas de quem não for lá espreitar para satisfazer a sua libido porca e destorcida. Despreocupai-vos conservadores deste país que ninguém irá andar nu na Praça do Comercio. O turismo naturista é uma crescente fonte de receita em todo o mundo, mas que em Portugal só está a ser aproveitada por alguns investidores estrangeiros, porque em terra de cegos quem tem olho aproveita os nichos de mercado e a ignorância e preconceito dos outros. Porque eles, mesmo que nós não o saibamos merecer, dão-nos o benefício da dúvida e lucram com as nossas incertezas e provincianismo.
Este assunto é apenas um exemplo! Por estas e por outras é que há povos ricos e bem sucedidos; por não terem medo das incertezas e por terem a bondade e inteligência de enfrentar os desafios dando a si próprios o benefício da dúvida. Sim, porque, acreditem, a dúvida é um benefício!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro
