Enquanto a populaça vibra com os futebois e quase provoca uma hecatombe em pleno C. C.Colombo na senda de um autografo dos actores de «Floribella», o Presidente da República mais sul-americana da Europa se enche de gáudio e passeando-se alegremente pelo maravilhoso mundo novo e perfeito da biotecnologia, enquanto a oposição, á esquerda se tenta reinventar no vazio ideológico e gasto de si própria e á direita tenta encher o vazio dos ideais com militância coorporativas balofas e sem sentido, o governo actual dito moderno, urbano e pró-activo, faz o que quer e o que bem lhe apetece, ou seja, muito pouco. Num país em crise e cheio de problemas, ainda há coragem de lançar monumentais obras de engenharia, como referido no programa «Eixo do Mal» da SIC: uma ponte entre o passado dia 9 e 19, coisa julgada impossível, improvável ou mesmo pouco recomendável, que até S.Pedro indignado, castigou com chuva torrencial, raios e coriscos invalidando uma ida á praia e, em conjunto com o excesso de velocidade, de álcool e de cabeça louca dos automobilistas, fez disparar a sinistralidade rodoviária e inclusive o numero de mortos na estrada em relação a igual período do ano transacto. Haja audácia! Haja coragem! Haja circo, porque o pão para alguns já vai faltando.Eu sei muito bem que tristezas não pagam dívidas e que não adianta chorar sobre o leite derramado, mas não compreendo a razão para tantas férias, festas e despreocupações; ou fomos todos atacados por uma espécie de amnésia e alheamento dos problemas reais do país, submergidos numa qualquer demência colectiva ou somos mesmo um povo destemido, inconsciente e inconsequente. Quando testemunho diariamente caso mais ou menos graves como o da fábrica da Opel na Azambuja, não compreendo as atitudes das pessoas em geral e dos políticos em particular. Segundo estatísticas do IEFP, vulgo Instituto de Emprego e Formação Profissional, o desemprego diminui no geral 2.8% mas subiu nos licenciados em particular 17% em comparação com igual período de 2005, facto que é deveras preocupante e incongruente com o discurso politico que quer fazer desta terra um lugar mais competitivo, mais tecnológico, mais produtivo e mais qualificado. Ou sou eu que estou alucinado e envolvido em miragens ou estes números revelam que estamos possivelmente a caminhar na direcção errada. Ou pior ainda, que se diz uma coisa e empreende-se outra.
Ninguém se julgue seguro ou imune, quando menos se espera ele surge de forma inesperada e catatónica – o Dia D – dia do desemprego, da desgraça, da desconstrução, do descalabro, da desilusão, do desespero. Falo por experiência própria: á cerca de ano e meio que também ele bateu á minha porta, deitando os meus sonhos por terra e transformando-me a vida numa espiral descendente e imparável até ao zero absoluto.
Estar desempregado, nos primeiros tempos até chega a ser engraçado; mais tempo livre para a família, coloca-se as leituras em dia, gasta-se o subsídio de desemprego e a indemnização (se a houve!), responde-se a anúncios a vai-se a entrevistas de trabalho sem sucesso. Assim se vai vivendo, ou melhor, sobrevivendo, sempre de olhos fitos na esperança, porque essa é a última a morrer.
Depois, lentamente, começamos a abrir os olhos para a dura realidade: o Factor C, que tanto pode significar cunha, conhecimento, cama, compadrio ou mesmo corrupção e que no passado assolava basicamente o sector dito público, hoje em dia sagra em toda a nossa sociedade, sendo a isenção, profissionalismo e imparcialidade, um pódio de excelência onde cada vez cabem menos excepções que só vêem confirmar a regra. O IEFP, espécie de Instituto Nacional de Estatísticas dos Desgraçados-que-não-conseguem-obter-um-emprego, não serve para nada além de convocar os inscritos de tempos a tempos para conversas vazias e colmatação de lacunas estatísticas, para enviar os mesmos para formações profissionais não desejadas ou desajustadas (Porque as adequadas ou desejadas não existem ou são bem pagas), sempre numa relação autoritária e com base no terror, do tipo: «ou cumpres com os nossos desmandos disparatados ou retiramos-te a tua magra fonte de subsistência». O IEFP serve ainda para desbaratar dinheiro subsidiando iniciativas locais de empregos, levadas a cabo uma parte das vezes por falsos empreendedores ou pessoas mal preparadas, que gastam os fundos atribuídos em coisas que nada tem a ver com os projectos apresentados, que não cumprem com o programado, que não pagam os impostos nem a segurança social, que se mantêm anos a funcionar na perfeita ilegalidade e que nunca são fiscalizados ou a quem nunca são pedidas contas dos apoios recebidos. Sei do que falo pois conheço exemplos reais.
Como não consegui ainda abrir conta num dos múltiplos balcões do Factor C que proliferam por aí, o Dia D ainda não saiu da minha porta… da minha e de cerca de mais meio milhão de portugueses. Considero-me um profissional rigoroso, honesto, cumpridor e estou disposto a trabalhar arduamente por um ordenado justo. Não tenho cunhas nem apadrinhamentos, não costumo fazer pontes, não gosto muito da «Floribella» e não ligo nada a futebois. Gosto de trabalhar e de produzir. Expliquem-me lá porque é que ainda não consegui um trabalho? Se calhar as minhas mais valias como profissional são desadequadas á realidade do país que temos… mas se calhar são as melhores para o Portugal que muitos gostariam de ter. Ou talvez não! Quando falo de mim, falo também muitos outros… dos quais um numero expressivo já emigrou.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro