8 de fevereiro de 2006

Desorientação Sexual

A homossexualidade não é nada de novo, nem de estranho, nem de particular, é apenas uma orientação sexual; sempre existiu e sempre existirá e não escolhe classes sociais, ou níveis culturais ou raça ou profissão. A aceitação social da mesma é que tem vindo a variar muito de época para época, de cultura para cultura e de civilização para civilização. As últimas décadas têm sido de repressão e tabu, apesar de algum clima crescente de abertura e aceitação neste campo.

De subido, neste início de século, o que é gay vende, o que é gay rende, o que é gay prende a atenção dos públicos mais diversos. De um momento para o outro, as orientações sexuais minoritárias são o tema de conversa, o foco de inúmeras reportagens, filmes, romances, seriados e outras ficções. Desde os investigadores do Instituto de Biotecnologia Molecular de Viena que afirmam ter conseguido manipular geneticamente a orientação sexual de determinada espécie de mosquitos cujo genoma é parecido com o humano, lançando para a mesa a velha discussão da origem biológica da homossexualidade, passando pela sondagem publicada recentemente pelo semanário Expresso que afirma que cerca de 1 milhão de portugueses ser homossexual o bissexual, sem esquecer a tentativa de casamento de um casal de lésbicas em Lisboa e a estreia do filme coqueluche da época no próximo dia 9, que conta a história de um casal de cowboys gay, o que é certo é que o tema está definitivamente na moda.

Se a tese dos investigadores vienenses carece de maior desenvolvimento e não recolhe por ora um reconhecimento unânime junto da comunidade cientifica, a sondagem do Expresso peca por defeito, pois segundo a mesma 63.3% dos inquiridos não quiseram responder á pergunta fatal, sendo fácil de concluir que o numero de portugueses com esta orientação sexual seja muito superior a um milhão. O que não suscita qualquer dúvida é o extremo interesse do público por esta temática. Filmes, reality-shows e séries mainstream passara a ter como condimento quase obrigatório um gay de serviço: o público gosta, o público acha graça, o público comove-se e o produto rende. São séries como Will & Grace, Queer as Folk, Sexo e a Cidade, OZ, etc, programas como o Queer Eye for a Straight Guy e a versão lusa Esquadrão G, são os romances do Guilherme de Melo, da Ana Zanati, é colocarem o actor «The Rock» a fazer de gay ao lado de John Travolta e Uma Thurman em «Be Cool», é o filme português «Odete», e como se tudo isto não bastasse temos o novo filme de Ang Lee, «Brokeback Mountain», que depois de arrebatar quatro Globos de Ouro, o Leão de Ouro em Veneza, prepara-se para transformar a noite de entrega dos Óscares na mais gay de sempre, pois está nomeado para oito estatuetas douradas.

Provando que neste momento o que é gay vende, o filme de Ang Lee, que retrata o amor entre dois cowboys, ultimo reduto da dita masculinidade americana, prepara-se para arrecadar uma fortuna nas bilheteiras, nas ordem doa 100 milhões de dólares, seguindo as pisadas de filmes com a mesma temática, como Filadélfia (73 milhões), Jogo de Lágrimas (63 Milhões) e Gaiola das Malucas (124 Milhões).

Este fenómeno no entanto, é uma coisa de moda, passageira e fugaz. Quando o público perceber que ser gay não é nada de extraordinário, nem de invulgar, que a maioria destas pessoas, não são encharpes cor-de-rosa como as querem pintar, mas têm os mesmíssimos dramas, alegrias e preocupações que os que não partilham da mesma orientação sexual; momento em que todos percebermos isso, as historias com esta temática perderão grande parte do interesse. Anda tudo ao contrário e de candeia ás avessas: quando a comunidade gay parecia ter perdido o interesse pelo público em geral e estava um pouco mais fechada que o habitual, o publico ganha interesse súbito por esta comunidade, quando os casamentos heterossexuais diminuem visivelmente, os homossexuais querem quase á força, casar-se. E com isto tudo, os indivíduos que partilham uma orientação sexual maioritária, mostram claros sinais de desorientação sexual. O que não é caso para isso!

Enfim, encontros e desencontros e modas que rapidamente passam…espero é que quando tudo isto passar e se nivelar, que fique a tolerância. Sobretudo a tolerância!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro