Os portugueses, desde a aurora da nossa história, são um povo produtivo, engenhoso, criativo e capaz, chegando mesmo a surpreender os mais incautos em tempos de adversidade. O problema deste país, é e sempre foi a classe dirigente, que salvo honrosas excepções, peca por ser incompetente, impertinente, culturalmente indigente, incongruente, inconsequente, subserviente ás influências estrangeiras e indiferente ás necessidades da nação. Outrora os monarcas, nobres e burgueses ricos e emergente, hoje os políticos, autarcas e gestores, têm quase todos a mesma invariável atitude: permanentemente ostracisados no próprio umbigo e interesses pessoais, pouco cientes da importância do serviço publico, pouco ou nada preparados para as funções que lhe foram confiadas, sem visão estratégica e demasiado focalizados na gestão do quintal que lhe foi atribuído, ignorando tudo á sua volta, numa miopia lamentável.Uma boa parte dos portugueses que vivem noutros países, são empresários de sucesso como no caso dos que estão na Venezuela, no Brasil ou na África do Sul, são cientistas que glorificam centros de investigação e universidades estrangeira, são artistas de renome mundial como José Saramago ou Maria João Pires, ou são trabalhadores válidos, produtivos e dignos de mérito, como no Luxemburgo, um dos países com maior índice de produtividade da União Europeia, pejado no entanto de trabalhadores lusos. Quando vivem e trabalham em Portugal são aquilo que se sabe, aquilo que se vê e se constata, realidade á qual nem apetece tecer quaisquer comentários adicionais.
Emigração portuguesa existiu e continuará a existir, pelo menos enquanto os dirigentes e as Instituição da pátria ingrata continuarem a voltar as costas aos seus heróis, as suas cabeças pensantes ou simplesmente á massa anónima de força de trabalho que poderia fazer deste país uma realidade maior. O problema não é o povo, mas as instituições e quem as dirige; há bem pouco tempo, o director de um importante instituto publico, comentava comigo que «como a crise é grande, boa parte dos lugares de decisão estão ocupados por indivíduos claramente medíocres e que como têm noção do seu valor intrínseco, agarram-se ao poder com unhas e dentes, fazendo com que os realmente válidos fiquem no desemprego, caiam no desinteresse ou simplesmente emigrem». Eu não quis acreditar nas suas palavras de Velho do Restelo, mas com o passar do tempo, cada vez mais me convenço que ele tem razão. Talvez por isso, a emigração portuguesa do séc. XXI seja tão preocupante, porque é a debandada dos quadro, dos criadores, dos que pensam, dos que agem, dos que poderiam salvar este país.
O inacreditável acontece! Desrespeito dos desrespeitos: os funcionários de um grande Instituto publico decidem em bloco tirar os telefones do descanso durante uma manhã inteira de trabalho, sem uma justificação, deixando os contribuinte desesperados e a apinhados numa recepção onde a funcionária não sabe o que informar. Incongruência das incongruências: Delegações Regionais do Instituto da Juventude, tem ao seu serviço funcionários jurássicos, monolíticos e sem qualquer aptidão para o diálogo e atendimento, a fazer aconselhamento a um público juvenil. Balda das baldas: o facto amplamente noticiado na comunicação social de uma Assembleia da Republica praticamente vazia e inoperante para a função que lhe está destinada. Incompetência das incompetências: missivas que se ignoram, processos que se perdem, cartas registadas com aviso de recepção que não se respondem, diferimentos tácitos por inoperância ou falta de resposta, desacompanhamento de subsídios e financiamentos públicos, desbaratamento de dinheiro em projectos culturais que não se efectuam, e eu sei lá que mais.
Fiz uma pequena investigação por conta própria: telefonei na passada quarta-feira para inúmeros organismos públicos tentando falar com os responsáveis. Uma esmagadora maioria estava ausente em misterioso e conveniente serviço externo… na quinta-feira de manhã também já não se encontravam visto haver tolerância de ponto… o mesmo se passou na segunda-feira… juntando a isto, os que foram um pouco mais honestos e aproveitaram para tirar ferias efectivas nestes dias, pode-se dizer que quase tudo estava parado, com custos incalculáveis e exorbitantes a serem debitados aos já magros bolsos de cada um de nós. E o que importa é criar entraves, dificultar, problematizar, servir mal e assim apertar a entrada no círculo para que a roda dos privilegiados contemple sempre os mesmos.
Não vamos a lado nenhum com este mar de instituições acéfalas e inoperantes, de políticos amorfos e absentistas e dirigentes sem firmeza e pujança. Pior que a disfunção eréctil, que já tem uma azul solução, e a disfunção estéril que ataca a nossa classe com poderes decisórios. Disfunção Estéril de profissionalismo, de ideias e acções praticas, eficazes e efectivas, porque para essa ainda não existe remédio á vista.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro