19 de outubro de 2004

O País do Tês

Houve tempos em que a prosperidade de uma nação se media pela extensão da sua rede de estradas e outras vias. Houve tempos em que a grandiosidade se media em betão e asfalto, em que o poderio militar se media pelo número de efectivos e em que o poder de media pela dimensão física das coisas. Nesses tempos os Homens, tal como hoje, não se mediam aos palmos, mas as nações sim.

Hoje em dia a força bélica, e bem se vê nesse absurdo que somos forçados a testemunhar, mede-se pelo número de engenhocas tecnológicas ultra-sofisticadas e muitas vezes não tripuladas que um país possui. Muito mais importante que a rede rodoviária e ferroviária, são as estruturas de comunicação, a rede de fibra óptica, as LAN, as WAN, os satélites, a Internet e o número de computadores e telemóveis per capita. Hoje em dia os Homens continuam a não se medir aos palmos e as nações também não. Estas medem-se pela capacidade e evolução tecnológica e pela propriedade intelectual. Por estranho que pareça, neste universo parafísico, o fluxo e quantidade de informação são a medida de grandeza e poder dos povos.

Das visões politicas do século passado no tocante à definição do papel do Estado, que oscilaram livremente entre o estado-liberalista e o estado-controlador, emerge hoje uma nova figura e modo de estar, que é o estado-tecnológico, proteccionista e providencial no que concerne ao fulcro de uma nação moderna, ou seja, a tecnologia. O novo papel do Estado prende-se com a necessidade de ser regulamentado, mediado e incentivado o progresso tecnológico.
E nós? Sim, e os portugueses como ficam perante esta realidade? Mal, como de costume! Nunca mais paramos de esperar por D. Sebastião, «quer ele venha, quer não». Nunca mais emergimos do obscurantismo a que nos votámos, para encarar o futuro com clareza, sem angústias e sem complexos de inferioridade.

Os portugueses são um povo engenhoso e muito empreendedor, sem sombra de dúvida. Os nossos dirigentes é que são quase invariavelmente gente medíocre, utópica, sem visão de futuro, demagógicos, ora de uma arrogância desmedida e patética ora lambedores da sombra dos outros, inconsequentes, anfitriões da guerra alheia, criados dos Senhores do Mundo. E nós todos, tristes espectros, ainda esperamos por eles nas tardes de nevoeiro, se é que ainda o fazemos.

Onde está o e-govermment em Portugal? E a tão prometida flat-rate na Internet? E a banda larga generalizada? Onde estão os resultados dos incentivos á renovação tecnológica do tecido empresarial ou á criação de conteúdos electrónicos? E rede de pontos de acesso público á Internet tão parca ainda? Não há ninguém que ponha cobro aos desvairos e mau serviço da Netcabo? Porque é que o organismo que regula o subdominio PT age de forma surda e arrogante perante os clientes e funciona simplesmente mal? Porque de tudo isto e muito mais…

Para quando medida politicas corajosas e incisivas? Porque não reduzir a taxa do IVA dos produtos e serviços informáticos? Sim, porque não são só as fraldas cujo o IVA vai baixar para 5% que fazem progredir o país. Porque não taxa de juro bonificadas para aquisição de material informático? Porque não reduzir o IRC e a taxa de Segurança Social ás empresas de alta tecnologia como forma de incentivar e dinamizar o sector? Porque não esquecer um pouco o passado, pôr por momentos de lado o problema insolúvel e cíclico da intempérie que estragou a cultura do tomate podre em Trocopasso-de-Cima, para nos concentrar-mos em algo que traga algum futuro a este país, já de si com muito pouco.

Está na altura de assumir que Portugal é o país dos Tês: Turismo e Tecnologia, Tudo-em-cima-da-hora e Tanto-se-lhe-dá-como-se-lhe-fez. Todo o resto é paisagem, simplesmente nevoeiro, donde nunca surgirá nada prometedor. Calem tanto disparate que para aí se diz, especialmente em assembleias e ministérios. Se esse senhores são portugueses, então eu quero se espanhol! Pim!

Bravas e empreendedoras gentes Lusitanas, acordai! É a Hora!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

5 de outubro de 2004

A Quinta das Alarvidades

Foi lindo, lindo, lindo! Adorei a estreia do mais aguardado, publicitado, mediatizado e alardeado programa de televisão dos últimos tempos em Portugal que nos vais mostrar aquilo que, de certo modo, todos sonhávamos ver: políticos, vedetas bonitas e coquetes de segunda linha e o snobismo cabotino e balofo de um certo tipo de celebridades, arrastado pela lama, a tomar banho de água gelada gota-a-gota, a dormir paredes meias com as cabras, as vacas, os burros, os cavalos e as galinhas, sem luz, sem água canalizada, a acordar embalados pelo cantar dos galos e o estimulo olfactivo mais penetrante do que qualquer essência Channel ou Dolce&Gabbana, o cheiro da bosta fresca. Se não soubesse de antemão que eles são reais e existem mesmo, julgaria que Cinha Jardim e José Castelo Branco eram personagens de uma qualquer comédia britânica de alta qualidade; foram alfinetadas atrás de alfinetadas, situações de alta comédia que conduziam inevitavelmente ao riso, o meu e provavelmente o de mais de 4 milhões de portugueses que estavam a assistir, num efémero mas indiscutível recorde de audiências. Parabéns á TVI e á Endemol.

Enquanto num canal da concorrência, o corredor de fundo e grande perdedor da noite em termo de numero de espectadores, Herman José e respectiva trupe, se esforçavam por colocar brilhantemente ao ridículo o Rei do JetSet, tanto num magnifico sketch como com alguns comentários ao vivo e em cima do espicaçansso, aquele que foi tão sabiamente apelidado por Alexandre Frota de «Conde de White Castle», a mais feminina das celebridades masculinas, estava imparável na TVI, no seu estilo peculiar critico e mordaz: mandava recados cúmplices e ambíguos ao humorista de serviço na SIC, distribuiu generosamente sorrisos entre os lábios envernizados, rolava, rebolava e bamboleava no seu andar erótico com movimentos atómicos, traçou, destratou, esbracejou, esvoaçou, arrasou com a Paulo Coelho, insinuou que a Júlia Pinheiro se veste mal, cochichou constantemente com Cinha Jardim (… e quem cochicha o rabo espicha!), partiu um copo de champanhe, falou com os talheres (Que chique!), quis tomar Xenical antes da ceia á portuguesa, criticou a decoração, ficou deprimido quando julga que lhe faltam malas, tropeçou nos saltos rasos (Quem não sabe andar de sapatos estilosos, calce chinelos!), apanhou a merda do cão, fez uma imperdivel recriação da Beatriz Costa, mostrou-nos o panorama do seu traseiro enquadrado num magnifico fio dental e ressonou imenso, apesar de ter afirmado momentos antes que até á dormir tinha estilo… estilo alarve e porquino, esqueceu-se de referir.

Este programa tem aquilo a que eu chamo, um didactismo divertido, porque entretêm e ensina ao mesmo tempo. Aprendemos que quando se zangam as comadres, as verdades tomam forma e vêem sempre ao de cima e que certas vedetas têm mais vícios, gostos e cumplicidades privadas em comum do que pode parecer á primeira vista. Ficámos a saber também que a Júlia Pinheiro consegue dialogar com um burro que lhe mordisca a perna apesar de ter medo dele, que existem actores porno com ar de bruta-montes mas com sensibilidade e sentido de humor e que há homens mais tias que as tias e que apesar de mais femininos que a maioria das mulheres femininas, podem simultaneamente ser casados e pais de filhos; poder-se-á dizer que nesta fogueira de vaidades, tivemos, não o terceiro, mas o quarto sexo em prime-time.

Mas não será esta Quinta das Alarvidades um retrato-metáfora do estado do país em que vivemos? Sem luz ao fundo do túnel que nos guie? Sem água canalizada para lavar as mãos sujas que por aí andam? Onde na Escola C+S de Colares (Sintra) os alunos são proibidos. por um director neo-salazarista, de usar mini-saia, calções, chinelos, decotes ou dizer palavrões, sendo obrigados a tratar os professores, que felizmente já devem estar todos colocados, por «Senhor Doutor»! Um país em que cada projecto do governo, em que cada nova lei ou decreto cheira a bosta. Onde proliferam as bichezas: as vacas, as cabras, os burros, as mulas e os porcos, na sua maioria doutorados e supostamente bem pensantes. Onde um ex-lider do partido do governo é mais pernicioso para o governo do que toda a oposição. Onde quer no líder da oposição quer no chefe do executivo os estilo fashion é mais notório do que qualquer conteúdo.

Nesta Quinta de nome Portugal, as moscas mudam mas a bosta é sempre a mesma. O Presidente da República, no seu discurso das comemorações do 94.º aniversário da implantação da República, comparou a situação que se vive em Portugal com o período do marcelismo, com o país a atravessar uma crise múltipla que está a ser agravada por medidas avulsas tomadas pelo Executivo, que nada resolvem, pelo que é urgente avançar com reformas estruturais, as quais dependem de “decisões políticas”, que “não são neutras”, considerando quatro condições essenciais para avançar com as reformas estruturais: a definição pública de um projecto claro e coerente, o empenho dos responsáveis governamentais; uma acção pedagógica para mobilizar os agentes económicos e sociais e a renúncia a medidas parcelares e sectoriais. E o que fez o Primeiro-ministro perante estas palavras? Fez de imediato orelhas moucas e desvalorizou a situação como é seu hábito. Com todo o respeito e admiração, tarde falou, Dr. Jorge Sampaio! E medite longamente no facto de provavelmente ir ficar para a história desta nação, como aquele cuja decisão despoletou a completa decadência e queda abrupta de um país, conduzindo-o á mais completa miséria e desolação.

De uma coisa estou certo: O espectáculo continua dentro de instantes.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro