Acusam-me frequentemente de ser um desbocado e demasiado critico, de falar muito mal de quase tudo ou quase todos, de levar por diante um bota-abaixo continuo e implacável. Confesso que estas acusações têm o seu quê de verdade, pois na maioria das vezes o que me é dado a observar é mau, muito mau ou pior ainda. Mas por vezes surgem sinais, como aqueles misteriosos e inexplicáveis que marcam os campos cerealíferos, a que alguns atribuem origem divina, outros extraterrestre; tal como esses sinais que alimentam especulações e filmes, também no capim, no mato que é a cultura e sociedade portuguesa hoje em dia, surgem inextrincáveis e inegáveis sinais de vitalidade, de rigor, de excelência e que, embora de difícil explicação e de complicada interpretação, nos dão vontade de escrevinhar uma crónica dizendo bem.A conhecida expressão portuguesa «coisa de museu», quer dizer algo bafiento, desusado, desinteressante e sem vitalidade, o que não podia ser a definição mais errada para caracterizar o desempenho do tecido museológico nacional, que na sua maioria são estruturas vivas, culturalmente vibrantes, com visão estratégica, rigor programático e profissionalismo, procurando sempre novos públicos e um papel intervencionista na sociedade que lhe cabe de direito. Não querendo diminuir o seu inegável valor e importância, o horizonte nesta área não se resume á mediática colecção Berardo, senão vejamos a programação do Dia Internacional dos Museus e também toda a actividade constante para além desse dia no Museu de Arte Antiga, no de Historia Natural, no do Traje, no da Água, no de Etnologia, no de Arqueologia, da Electricidade e em tantos outros. Muitos deles são a prova mais que viva de que com magras verbas se conseguem fazer suaves milagres.
Das magras verbas, passamos aos magros espaços. O que não falta por aí são excelentes espaços culturais, grandes e perfeitamente apetrechados e sem programação coerente, mortos e sem vitalidade, servindo criadores e interesses no mínimo obscuros e facciosos; mas sobre esse não vou falar nesta crónica. Vou falar de espaço pequenos que se tornam grande pela programação e dinâmica que geram: o Estúdio da Rosa, situado na rua do mesmo nome de flor é um deles, um espaço exíguo que vem provar que não é dos grandes tachos que saem os grandes cozinhados. Depois de exposições de pintura de grande qualidade, oferece-nos agora uma instalação de homenagem aos 33 anos de uma editora incontornável, a E Etc, que tem a coragem e o arrojo de, ao longo de mais de 3 décadas, nos oferecer a qualidade dita invendável, o pensamento na margem da torrente, o artístico e intelectualmente correcto mas por vezes socialmente inaceitável, enfim, a frescura da diferença cada vez mais necessária neste mundo tão igual a si mesmo. Na abertura desta instalação feita de livros, tivemos o privilégio de ouvir ler Alberto Pimenta por ele mesmo; algo depressivo mas tocante! Em complemento a estes magníficos 33 anos de vitalidade, quero salientar a mão cheia de editoras que surgiram nos últimos tempos e a fúria e força de trabalho de todas as outras que se mantêm no activo e que não param de nos presentear com novas e boas edições. E se isto não são sinais excelência, não sei o que serão sinais…
Este Maio, maduro Maio tem sido o mês de todos os teatros: com o Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa, com a Medeia de Euripedes numa belíssima tradução da saudosa Sophia de Mello Breyner e encenação de Fernanda Lapa, com o regresso dos que estiveram ausentes por muitos anos, como o encenador e performer Adelino Tavares, a actriz Teresa Madruga e como, passo a publicidade, eu próprio, que depois de 12 anos de ausência vou voltar de novo á cena dia 20 no Museu da Água com um espectáculo sobre Fernando Pessoa. Este mês, estavam programados mais de 100 espectáculos de teatro diferentes na área Metropolitana de Lisboa. Ufff! Se isto não é um sinal de vitalidade, por vezes excessiva, é certo, não sei o que são sinais…
Para terminar esta crónica de bem-dizer, quero salientar que a margem sul do Tejo, cada vez me surpreende mais, quer na positiva, quer na negativa. Fui ao Fórum José Manuel Figueiredo na Moita assistir ao concerto do LLoyd Cole; além de ter assistido a um magnifico espectáculo acústico que me fez viajar para os tempos em que no Frágil de outrora, me deixava emergir aos sons de The Smiths, The Cure, Elvis Costello, entre outros, fui amplamente surpreendido por excelente equipamento cultural com uma vitalidade e uma variedade e qualidade de programação que me deixou pasmo. Concelhos limítrofes, incluindo Lisboa, ponham os vossos olhos na Moita e aprendei alguma coisa! Puro sinal de profissionalismo, rigor e dinâmica.
Todos os exemplos que dei são sinais enigmáticos, sinais exemplares, sinais que ainda me fazem ter esperança num futuro melhor para esta terra amarga, verdadeiras flores no deserto que devem ser tidas em conta e que me obrigaram a fazer esta crónica de bem-dizer!
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro