Agora que a Primavera já teima em fazer-se sentir, vem-me logo á memória as deliciosas frutas estivais como seja os morangos, doces, carnudos, sumarentos e de um vermelho quase pecaminoso. Os morangos quando são de boa qualidade, querem-se comidos assim, tal e qual se apresentam, apenas enxaguados numa fonte refrescante, e logo consumidos para deleite de todos. Os morando com chantilly são um profundo aburguesamento estrangeirado, hábito oriundo de países mais a norte, onde o sol não é tão generoso e por isso faz com que esta fruta não amadureça tanto e não se torne naturalmente tão doce. Há quem os consuma com iogurte, numa fusão láctea do sabor dos mesmos. São estilos diferentes, todos aceitáveis porque encerram em si o mínimo de bom gosto e como é sabido, estilos não se discutem. Juntar açúcar aos morangos é a menos recomendável e aceitável opção, porque o açúcar faz mal e deveria ser banido de qualquer dieta equilibrada, porque não faz sentido juntar doce a algo que já o é por si, porque mistifica o gosto dos mesmos sem revelar nenhum sabor novo fruto da fusão das partes, porque a textura granulada combina muito mal com a polpa carnuda e macia, porque num snobismo paupérrimo, não aproveita nem o melhor da fruta, nem o melhor do doce.Como resposta á febre brasileira dos ginásios e da cultura do corpo, os jovens portugueses respondem consumindo imoderadamente Morangos com Açúcar, ano após ano, época após época, glorificando o que é fútil e algo medíocre, como vem sendo hábito no nosso país. É uma má solução, servida pelo argumento possível (Haja imaginação!), algum brio técnico e um nível de representação que, salvo os veteranos e algumas magníficas e honrosas excepções, roça o inaceitável. Este desfile de pseudo-actores, teenagers mal preparados e mal pagos em busca de fama fácil e glória instantânea, são no entanto o elemento aglutinador e catalizador de toda uma geração, de tal modo que até houve uma adolescente que se atirou de um penhasco só porque não foi aceite no casting da série. Depois da Beat Generation, depois da Geração X, depois da Geração Rasca, temos agora a Geração Morangos com Açúcar.
Almoçava eu outro dia num daqueles restaurantes que hoje se envergonham de chamar Tascas e que tem sempre a televisão ligada. O noticiário desfilava um sem número de desgraças e preocupações: assassinato de um transexual no Porto, violência doméstica, gripe das aves, aumento das taxas de juro, aumento da taxa de desemprego, entre outras maleitas. Ao meu lado, numa mesa extensa, almoçavam também um grande número de efectivos da PSP, que se banqueteavam com entremeada pingando gordura e estavam completamente alheios á realidade trágica urdida no ecrã. De súbito e para meu espanto, perante a noticia de que um jogador de um clube de futebol foi suspenso depois de tentar agredir o arbitro, todo o efectivo se levantou da mesa para se colar ao televisor, urrando e gritando impropérios de indignação, como se aquele episodio fosse de algum modo vital ou importante para o futuro de todos nós. . Eu também gosto de futebol e não tem nada de mal gostar de futebol. O problema é só gostar obsessivamente de futebol. Alheamento total, embora não aceitável é em certos casos compreensível Agora, alheamento de tudo o que não seja futebol, é algo… nem tenho palavras! É o país que temos e a inclassificável realidade em que somos forçados a viver.
Há modas e movimentos culturais e sociais, como a chamadas eróticas, os reality shows, o José Castelo Branco e muitos outros, que não são preocupantes, porque são naturalmente efémeros e extinguem-se em si mesmos. Não é o caso, nem do futebol, nem da adição de excesso de açúcar na fruta.
Qual combate ao desemprego? Qual Plano Tecnológico? Qual Captação de Investimento Estrangeiro? Qual que? … Tudo pérolas a porcos. Entre os efectivos trintões que nada tem na cabeça além de pernas musculadas correndo atrás do esférico sobre os relvados dos estádios sobre dimensionados, caríssimos e claramente desnecessários e os adolescentes efectivos que na cabeça nada têm e que chegarão aos trinta anos com os dentes podres e cariados numa congestão de Morangos com açúcar, venha o diabo e escolha. Entre a futilidade completa e a completa futilidade, a meu ver, nada há a escolher.
Eu prefiro os morangos ao natural, amargos mesmo, se tiver de ser, pois todo este doce, além de enjoar, deixa adivinhar um futuro de morangos bem amargos.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro