23 de novembro de 2004

Síndrome do Eterno Subúrbio


Nem sempre, mas na maior parte das vezes, quem está de foram vislumbra melhor, porque se calhar tem uma visão mais distanciada, menos comprometida, menos envolvida mas ao mesmo tempo mais critica e racional. Os portugueses são um povo de excessos, ou tremendamente fatalistas e pessimistas ou em contrapartida demasiado optimistas, somos um povo de brandas acções, reacções lentas como o tempo, mas de criticas cortantes e mordazes. E temos ainda uma característica que, apesar de se ter vindo a dissipar ao longo dos tempos, temos sempre um certo complexo de inferioridade em relação ao que vem de fora, ao que nos é estrangeiro; a vida para nós só é boa em casa dos outros, nas cidades dos outros e nos países dos outros.

Os barreirenses, como bons portugueses que são, não escapam á regra: são fatalistas e pessimistas, carregam nas costas de forma pesarosa uma herança patrimonial e cultural dos tempos de outrora, das fábrica ora desactivadas e ferrugentas, do movimento trabalhador, da era da foice e do martelo, do síndrome de eterno subúrbio, de viver na margem, na sombra de outras cidades maiores e por consequência mais impactantes, da falta de pontes visíveis ou invisíveis que os liguem ao Terreiro do Paço, enfim, o peso insustentável da eterna meia hora que demorava a travessia até á terra das ditas cabeças bem-pensantes.

Hoje em dia não há razão nenhuma para que ainda alguém pense deste modo. O Barreiro é uma terra encantadora e com o seu charme próprio feito de heranças de vidas alternativas de outrora e de uma deliciosa arqueologia industrial que urge perceber e reaproveitar de forma inteligente, as gentes desse local são interessadas e atentas como muito poucas, com energia e com garra, faltando-lhes apenas os incentivos oportunos e correctos, a travessia do Tejo, essa, hoje em dia dura apenas alguns minutos e as cabeças ditas bem-pensantes do Terreiro do Paço, não pensam já nada que se aproveite e podemos bem passar sem elas.

O famosíssimo e prestigiado fotografo Anton Corbijn escolheu a antiga fábrica da CUF no Lavradio como cenário das fotos para o calendário da banda irlandesa U2 para os meses de Abril, Maio, Julho, Agosto, Outubro e Novembro e capela de Santa Eufémia, um local de difícil acesso e beleza singular, junto ao Palácio da Pena em Sintra para os três primeiros meses do ano e uma casa em colares para os meses restantes. A dimensão desta escolha estética vem confirmar aquilo que afirmo acima; o Barreiro tem o seu encanto muito próprio e culturalmente muito avantgard e alternativo, assim como Sintra, noutra perspectiva e com outro parâmetros, como é evidente.

Isto tudo para dizer que a glória ou a beleza ou mesmo a notoriedade está muitas vezes nos pormenores e é preciso destacá-los e amá-los com únicos. Muitas vezes percorremos a vida cegos ao bem que nos rodeia e sendo muitas vezes necessário descobri-lo no reflexo dos olhos dos que estão de fora. Deixemo-nos de fatalismos e pessimismo e tratemos de engrandecer uma terra que tem tudo para ser grande, mas uma grandiosidade que nada tem a ver com as terras que a rodeiam; esse ser maior deve ser feito por via alternativa, de vanguarda, de experimentalismo criativo e artístico, de ideias novas e arrojadas, diferentes, como diferente foi o seu passado e a sua ascensão. Não imitem, não há necessidade disso, inovem com a prata da casa, porque materiais físicos e humanos, chegam e sobram. O interesse de um fotografo de renome internacional como Anton Corbijn, os U2, entre muitos outro pelo Barreiro é um claro sinal de que está na hora de seguir uma nova via, uma nova era, um novo saber fazer, emblemático, ultramoderno, arrojado e destacante, e acabar de vez com o síndrome do eterno subúrbio, fazendo com que o Barreiro ressurja como um dos epicentros de vanguarda da arte, da cultura e do lazer na área metropolitana de Lisboa. Parece difícil, mas não é… querer é poder! Quando há vontade politica e apoio popular as coisas realmente acontecem.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

2 de novembro de 2004

Barreirómano

Existem paixões e vícios públicos e privados na vida das pessoas que muitas vezes não têm muita explicação, nem muitas razões, mas persistem em manter-se ali, á vista de tudo e de todos, sem sabermos sequer como começaram ou como vão findar. Mas estas razões sentimentais, são assim mesmo, sem necessitarem de algo que as justifique, vindas directamente do coração e do foro emocional, engrandecem-se e agarram-se á nossa vida sem que possamos fazer nada.

Eu não nasci no Barreiro, nem sequer nunca aí vivi. Sou lisboeta de corpo e alma, nascido e criado entre as colinas desta cidade eterna; fiz-me gente deambulando entre as ruelas do Bairro Alto, Santa Catarina e o Bairro da Bica. Também já vivi na Alameda e em Benfica. Até já vivi alguns anos no Brasil. Mas apesar de não haver laço nenhum aparente que me ligue ao Barreiro. Gosto dessa terra como se fosse a minha, com um gostar de alma, ainda mais profundo a meu ver do que um gostar de sangue, de nascimento, de tradição, de raiz ou de família. Sou um barreirómano, confesso! E por mais voltas que a minha vida dê, volto ao Barreiro, a minha terra adoptiva, sempre com emoção e redobrado prazer.

Será por certo a plácida travessia das águas á chegada, a encantadora singularidade miniatural da zona velha, a magnifica vista da zona ribeirinha com Lisboa no horizonte, a austeridade modernista da zona industrial, os louváveis investimentos em betão e tijolo por parte da autarquia, entre outras coisas, que me fazem gostar dessa terra. Mas são sobretudo as pessoas, afáveis e acolhedoras, interessantes e interessadas, lutadoras e determinadas, empreendedoras e optimistas que me fazem amar essa terra, tanto ou mais do eu amo aquela que me viu nascer.

Em tempos, quando a minha actividade profissional principal era o teatro e a animação cultural, organizei varias actividades no Barreiro: desde um campo de trabalho internacional para a juventude até mostras de vídeo, passando por espectáculos, inclusive para as festas da cidade. Foram tempos muito gratificantes para mim, pois, tirando os problemas com o anterior executivo camarário que não merecia sequer os munícipes que tinha, sempre fui acarinhado pelo generoso público barreirense e tive o privilégio de conhecer pessoas fantásticas que nas colectividades, associações e outros organismos lutam diariamente para que a cultura nessa cidade exista realmente e se mantenha viva; falo-vos dos Penicheiros, do Tesfal, do ArteViva, do TEB, do Carlos Ramos, da Teresa Branco e de tantos outros que seria fastidioso enumerá-los todos.

Estive afastado quer dessa cidade, quer das actividades culturais, durante muitos anos, refém de razões estranhas que só a vida pode explicar. Mas voltei agora, como que regressado do mundo dos mortos, porque nunca é tarde para recomeçar e refazer uma paixão. Esse retorno ao princípio coincide também inexplicavelmente e por pura coincidência a um retorno ao Barreiro, por ora apenas através destas crónicas que vos faço chegar semanalmente. Em breve, se calhar através de outros projectos e outras ideias, quem sabe, vontade existe é certo, faltam os entrosamentos, os reatamentos dos laços e dos nós, os convites e as oportunidades para os quais estou de coração aberto e disponível; mas tudo a seu tempo.
Isto tudo para dizer que acredito muito nessa cidade e em especial nas suas gentes; tem tudo para dar certo, inclusive o espírito empreendedor e o optimismo para tornar o Barreiro num local melhor, mesmo com todos os complexos históricos e por vezes histéricos de um passado industrial e enraizados numa esquerda estrema que se calhar já não faz muito sentido, mesmo ostracizados e ignorados pelo poder central, mesmo sem uma ponte directa com a margem norte. Espero que o actual executivo da Câmara Municipal saiba entender e acarinhar os munícipes e consiga canalizar toda a força telúrica que tem em mãos, investido em pessoas e não em betão e tijolo, dando primazia á formação e motivação em detrimento dos fogos fátuos que duram um momento e que não deixam semente para o futuro. Lembrem-se que o maior optimismo também esmorece e os empreendedores deixam de o ser quando não existe uma centelha que lhes dê vida. Agora é o momento! É agora ou nunca… sob pena do Barreiro se tornar apenas uma sombra de outras cidades da margem sul do Tejo.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro