
Nem sempre, mas na maior parte das vezes, quem está de foram vislumbra melhor, porque se calhar tem uma visão mais distanciada, menos comprometida, menos envolvida mas ao mesmo tempo mais critica e racional. Os portugueses são um povo de excessos, ou tremendamente fatalistas e pessimistas ou em contrapartida demasiado optimistas, somos um povo de brandas acções, reacções lentas como o tempo, mas de criticas cortantes e mordazes. E temos ainda uma característica que, apesar de se ter vindo a dissipar ao longo dos tempos, temos sempre um certo complexo de inferioridade em relação ao que vem de fora, ao que nos é estrangeiro; a vida para nós só é boa em casa dos outros, nas cidades dos outros e nos países dos outros.
Os barreirenses, como bons portugueses que são, não escapam á regra: são fatalistas e pessimistas, carregam nas costas de forma pesarosa uma herança patrimonial e cultural dos tempos de outrora, das fábrica ora desactivadas e ferrugentas, do movimento trabalhador, da era da foice e do martelo, do síndrome de eterno subúrbio, de viver na margem, na sombra de outras cidades maiores e por consequência mais impactantes, da falta de pontes visíveis ou invisíveis que os liguem ao Terreiro do Paço, enfim, o peso insustentável da eterna meia hora que demorava a travessia até á terra das ditas cabeças bem-pensantes.
Hoje em dia não há razão nenhuma para que ainda alguém pense deste modo. O Barreiro é uma terra encantadora e com o seu charme próprio feito de heranças de vidas alternativas de outrora e de uma deliciosa arqueologia industrial que urge perceber e reaproveitar de forma inteligente, as gentes desse local são interessadas e atentas como muito poucas, com energia e com garra, faltando-lhes apenas os incentivos oportunos e correctos, a travessia do Tejo, essa, hoje em dia dura apenas alguns minutos e as cabeças ditas bem-pensantes do Terreiro do Paço, não pensam já nada que se aproveite e podemos bem passar sem elas.
O famosíssimo e prestigiado fotografo Anton Corbijn escolheu a antiga fábrica da CUF no Lavradio como cenário das fotos para o calendário da banda irlandesa U2 para os meses de Abril, Maio, Julho, Agosto, Outubro e Novembro e capela de Santa Eufémia, um local de difícil acesso e beleza singular, junto ao Palácio da Pena em Sintra para os três primeiros meses do ano e uma casa em colares para os meses restantes. A dimensão desta escolha estética vem confirmar aquilo que afirmo acima; o Barreiro tem o seu encanto muito próprio e culturalmente muito avantgard e alternativo, assim como Sintra, noutra perspectiva e com outro parâmetros, como é evidente.
Isto tudo para dizer que a glória ou a beleza ou mesmo a notoriedade está muitas vezes nos pormenores e é preciso destacá-los e amá-los com únicos. Muitas vezes percorremos a vida cegos ao bem que nos rodeia e sendo muitas vezes necessário descobri-lo no reflexo dos olhos dos que estão de fora. Deixemo-nos de fatalismos e pessimismo e tratemos de engrandecer uma terra que tem tudo para ser grande, mas uma grandiosidade que nada tem a ver com as terras que a rodeiam; esse ser maior deve ser feito por via alternativa, de vanguarda, de experimentalismo criativo e artístico, de ideias novas e arrojadas, diferentes, como diferente foi o seu passado e a sua ascensão. Não imitem, não há necessidade disso, inovem com a prata da casa, porque materiais físicos e humanos, chegam e sobram. O interesse de um fotografo de renome internacional como Anton Corbijn, os U2, entre muitos outro pelo Barreiro é um claro sinal de que está na hora de seguir uma nova via, uma nova era, um novo saber fazer, emblemático, ultramoderno, arrojado e destacante, e acabar de vez com o síndrome do eterno subúrbio, fazendo com que o Barreiro ressurja como um dos epicentros de vanguarda da arte, da cultura e do lazer na área metropolitana de Lisboa. Parece difícil, mas não é… querer é poder! Quando há vontade politica e apoio popular as coisas realmente acontecem.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro