Ser amado é importante mas ser desejado é fundamental. Conhecer gente é agradável mas ter amigos é essencial. Isto só para dizer que somos seres sociais e que, apesar de tudo, na maior parte das vezes necessitamos desesperadamente de estar com os outros, de partilhar, de conviver e de combater a tão temida solidão.
Os portugueses, aliás como os latinos em geral, gostam genericamente do convívio social, que se traduz em passeios, festas, reuniões, encontros, visitas, chás, cafés, almoços, jantares, almoçaradas e lancharadas e jantaradas e sardinhadas e outros tipos de patuscadas. A comida e a bebida, para os lusitanos, está intimamente ligada ao acto de socializar, de seduzir, de namorar, de estar em família ou em grupo.
As novas tecnologias e em especial a Internet estão a alterar este prazenteiro universo sócio-gastronómico. Hoje em dia só está sozinho quem quer, porque todos aqueles que o desejarem poderão estar virtualmente acompanhado por todos os seus amigos e não só, dia e noite, numa socialização de uma intimidade distanciada que só este tipo de tecnologia permite. Existem mil e uma maneiras de estar e comunicar com os outros via Internet, com ou sem som, com ou sem imagem… o IRC, o MSN, o Netmeeting, o Yahoo Messeger, ICQ, etc, etc, etc….. em todos eles tecla-se (que é como quem diz «fala-se pelo teclado»), trocam-se imagens, emoticons, por vezes som, por vezes, para os mais ousados, imagens captadas pelas webcameras. Se há muitos anos o telefone e o telegrafo vieram aproximar enormemente as pessoas e mudar atitudes e modos de vida, hoje não existe mais tempo, nem espaço, nem longe, nem distância, sendo a mudança que tudo isto provoca nas pessoas a maior revolução psico-social do século XXI.
Eu passo a explicar: com este novo processo de socialização eu consigo estar em diversos locais virtuais ao mesmo tempo, comunicando com diversas pessoas em tempo real, independentemente se estão longe ou perto, e cada uma julgando que detêm toda a minha atenção e tempo útil. È a melhor maneira de manter um contacto permanente com todos os meus amigos e conhecidos e falar com todos simultaneamente. È a maneira mais produtiva de seduzir dez mulheres ao mesmo tempo, sem que saibam umas das outras, podendo-se assim fazer uma mais apurada selecção, para que no fim da conversação restem apenas duas ou três como objecto de verdadeiro desejo e com o fito de um encontro off-line.
Hoje muita gente já não respira sem Internet. Hoje os adolescentes iniciam a sua descoberta da sexualidade na rede; antes da primeira namorada ou namorado, antes do sexo transpirado e odorífico, vêem os namoros on-line e o sexo virtual, certamente mais seguro e na maioria das vezes inconsequente que o real, mas no entanto muito pouco tântrico. Esta é também a melhor forma de encontrar o companheiro ideal, inclusive conheço inúmeros casamentos felizes cujos conjugues se conheceram por esta via. Eu próprio já vivi uma história deste tipo. Mas quando uma amiga minha ficou deveras admirada como é que eu superava a solidão de viver desacompanhado sem Internet, naquele período em que a PT me fez favor de me deixar off-line durante imenso tempo, é que comecei a perceber a verdadeira e dramática extensão deste fenómeno.
Para muita gente o chat é um vicio, uma maneira de enganar a solidão, uma forma de estar em contacto com pessoas amigas gastando menos telefone, uma forma de ultrapassar a timidez, o pudor exacerbado e outras fatais limitações do género, é um método para confirmar tendências e expectativas, para experimentar de forma light, para massificar as procuras e solicitações amorosas e sexuais, aumentado assim estatisticamente a probabilidade de acertar numa convergência de vontades e num universo de compatibilidades. A existência física perde importância em favor da realidade psicológica, essa sim, mais facilmente codificável e transmissível digitalmente.
E o que há de errado em tudo isto? A meu ver quase nada, a não ser quando os indivíduos substituem por completo as relações reais pelas virtuais, o contacto físico pelo cibernético, as expressões faciais pelos emoticons, o riso pelo «LOL», e quando o universo desta pessoas, todos os sonhos, viagens, aventuras e expectativas passam a estar padronizadas e a ter um universo de 15, 17 ou 19 polegadas com um por do sol em SVGA ou XVGA. E o resto são velhos do Restelo, pessoas que não sabem o que tudo isto significa para quem o utiliza, que não compreenderam ainda a natureza dos relacionamentos humanos neste novo século, que ainda não notaram que tudo está a mudar ou melhor que já mudou muito.
O tempo das patuscadas chegou ao fim, porque nada melhor do que uma refeição light e higiénica que não engordure o teclado. Este é o tempo das relações intemporais, imateriais e sem distâncias… uma idade feita de sms, mms, umts, e-mails e chats. Mas se não tomarmos os devidos cuidados depressa este admirável mundo novo se transformará num pesadelo, pois se lidar com um universo social real já é complicado, agora imagine-se com dois, um on-line e outro off-line.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

