23 de janeiro de 2006

O Regresso de D. Sebastião

Em vez de abandonarem para sempre a falta de confiança em si mesmos e os sentimentos pessimistas e taciturnos que sempre nos condenaram á desgraça e a glórias efémeras, os portugueses teimam em esperar eternamente pelo Messias, pelo prometido, por um tal que se perdeu em aventuras tresloucadas por terras de África, pelo Quinto Império, por glórias passadas que se transubstanciariam em futuras por obra e graça do divino, enfim, por alguém que nada de concreto prometeu e por isso nada de exequível tem para dar. É sempre melhor esperar do que lutar, presumir do que executar, vaticinar do que concretizar.

Foram este tipo de sentimentos que deram a vitoria logo á primeira volta a Aníbal Cavaco Silva, o primeiro presidente centro-direita a ser eleito após a revolução de Abril, o protagonista de um período de economia supostamente emergente, o timoneiro de uma Era áurea para alguns, o que nunca se engana e raramente tem dúvidas, o empedernido economista, o inábil gestor de politicas sociais e aquele que agora vai ser o salvador da pátria, anulando diferendos e de braço dado com o governo socialista vai estabelecer a ponte entre a esquerda e a direita, tudo em prol do tal «Portugal Maior», que cansando-nos, se cansou de proclamar durante a campanha eleitoral.

É preciso ser-se muito ingénuo para acreditar nisto; mas o povo é assim mesmo, ingénuo e neste assuntos de politica, sem qualquer malícia, acreditando que um bom pastor poder-se-á tornar num excelente talhante, porque está habituado a lidar com os animais, que por sua vez poderá dar um exímio cozinheiro que nos preparará, num abrir e fechar de olhos, um cabrito assado de fazer crescer água na boca. Na minha modesta opinião, água e pelas barbas, dará esta relação comprometido-colaborativa entre o novo Presidente da República e o Governo de José Sócrates.
A esquerda no seu todo, desunida e inflada de protagonismo, por certo errou. O «Homem para a Eternidade», como tão bem o caracterizou Clara Ferreira Alves, o que alguns chamaram o Presidente-Rei, não devia ter regressado dos caminhos da imortalidade e da distância; o raio não cai duas vezes no mesmo local. O Poeta, quem sabe um fingidor e sentindo com a imaginação, não parou para escutar no vento que passa a noticias do seu país. Aquele que á esquerda da esquerda nada tinha para dizer deveria ter guardado o silêncio, assim como o deveria ter feito aquele que ainda tem algo para dizer; verborreia por um lado e protagonismo forçado por outro, por vezes pagam-se muito caro.

Ilações politicas de tudo isto? Tiram-se muito poucas… Quando se estabelecem estratégias, tem de se equacionar factores sociais e culturais que por vezes não são muito óbvios. Num momento de crise como aquele em que atravessamos, a necessidade de um sentido messiânico do povo português falou mais alto, foi ela que ganhou as eleições. A solução sebastianista e miraculosa que Cavaco Silva tão bem soube personificar, qual D. Sebastião do século XXI, arrebatou o parco entendimento de uma franja de eleitores que o conduziu á vitória.

Desaparecido no Cavaquistão numa tarde de nevoeiro, ele foi o eterno Desejado: em todos congressos, em todas as crises, em todos os governos sociais-democratas que lhe sucederam. Regressou agora envolto em nevoeiro; uma névoa que baralha mesmo os mais avisados e que talvez venha a turvar o futuro do país.

20 de janeiro de 2006

Ano Novo... Vida Nova ...


No final de cada ano que passa ou logo no início de cada ano que entra é usual fazer uma retrospectiva do que passou; no que toca ao ano de 2005, fazer tal coisa seria completamente traumático, desapropriado e um verdadeiro mau augúrio para o ano que entra, de tal forma os 365 dias transactos foram catastróficos, patéticos e definitivamente a esquecer, pois não trouxeram nada de bom ou digno de memória. Como diria o poeta que das tristezas fique a mágoa na lembrança e do bem, se algum houve, a saudade – mágoas: demasiadas, saudades: zero.

Mas como é habitual dizer-se, ano novo, vida nova! Foi com esta máxima popular e réstia de esperança que me deitei no último dia do ano passado, para acordar para a mesmíssima desgraça para que tinha adormecido; o ano mudou, mas os cães continuam a ladrar e a caravana não anda nem passa, completamente atolada nas lamas e nos lodos que atafulham os caminhos que este país trilha ultimamente.

Tudo sabe a repassado, a requentado e a restaurado. Ora vejamos, temos uma série ao estilo «ficheiros secretos», intitulada “Envelope 9”, a listagem detalhada dos telefonemas das mais altas individualidades dos estado a embrulhar aquelas que supostamente haviam sido pedidas no âmbito do Caso Casa Pia e que vieram a publico não se sabe muito bem como nem porque, vindo assim demonstrar que o direito á privacidade, o segredo de justiça e a autoridade das instituições é o que é, podendo talvez fundamentar-se assim a teoria da conspiração, que permite que determinadas empresas e indivíduos façam o que bem lhes apetece julgando-se acima da lei e ao sabor de ventos e correntes subterrâneas. Houve quem enjeitasse responsabilidade, houve quem se sentisse muito incomodado, na linha de quem deve… teme. Em resumo, temos a Juíza Ana Peres a braços com mais um imbróglio melindroso, temos um Procurador-Geral da República chamado a dar esclarecimentos sobre o caso, mas que solicitou 3 dia s para encontrar justificações para o injustificável e temos o Presidente da República quase quedo e quase mudo, porque o calado vence e reforma-se confortavelmente muito em breve.

Ainda só passaram 15 dias deste ano novinho em folha e como se não bastasse a estreia desta super-produção, ainda temos a bandidagem a operar livremente e em “happy hour” entre as 17.30 e as 9.00, graças á greve da PJ, temos Direcção-geral das Contribuições e Impostos (DGCI) que diz que vai avançar com a penhora de contas bancárias, salários e créditos sobre terceiros aos contribuintes com dívidas ao fisco, medida que se calhar vai abranger essencialmente os pequenos devedores, porque os grandes, como não tem remédio, remediado está.

Temos ainda os farmacêuticos que na sequência da morte anunciada do monopólio de venda de medicamentos, acordaram de súbitos para as funções, deveres e obrigações para as quais nunca se mostraram muito zelosos; no entanto, solicitude e zelo em excesso é moléstia e incómoda, ainda mais quando se trata de um atitude súbita, extemporânea e reactiva. Temos um suposto lobby gay de que toda a gente fala e que nem sei se existe. Temos o caso da trama “Electricidade Portuguesa em Saldos”, urdida pelo o ex-ministro Joaquim Pina Moura e corajosamente travada por João Ramalho Talone. Temos um Plano Tecnológico, pérola do programa de governo de José Sócrates, que á semelhança de paixões passadas de governos socialistas, como a educação, se afunda em demagogia e falta de clareza. Que interessa um plano quiçá brilhante se o mesmo é exposto de forma tão esotérica que quase ninguém percebe a sua exequibilidade e concretização. È urgente fazer um desenho, um mapa orientativo, para que não seja mais uma pérola atirada aos porcos… aos porco em que nos tornámos todos nós, fossando nas maiores dificuldades e na lama e desperdício que jorram das janelas das elites deste país.

Por ultimo, temos o que fala, fala, fala e não diz nada de exequível, temos o defensor amorfo do ultimo bastião do proletariado, temos os que não interessam nem ao menino Jesus, temos o Poeta, que por certo é um fingidor, temos a reedição agora digital e remasterizada do Bucha e Estica com sabor a anos 80; um bucha que ataca e recalcitra em atitudes que achamos engraçadas e inconsequentes e um estica, qual nosferato algarvio, que amolga tejadilhos de carros para se colocar acima da populaça e sonha com um Portugal Maior. O maior em corrupção, em compadrios, em acidentes de viação, em baixa produtividade, em miséria e descontentamento.

Até tremo só de pensar que este remake tem estreia nacional a 22. Mas tremo muito mais ainda, só de pensar que, se em apenas 15 dias foi possível tudo isto, o que nos reservará os restantes trezentos e tal dias que faltam para acabar o ano. Bom ano para todos.
publicado no Jornal Noticias do Barreiro