Em vez de abandonarem para sempre a falta de confiança em si mesmos e os sentimentos pessimistas e taciturnos que sempre nos condenaram á desgraça e a glórias efémeras, os portugueses teimam em esperar eternamente pelo Messias, pelo prometido, por um tal que se perdeu em aventuras tresloucadas por terras de África, pelo Quinto Império, por glórias passadas que se transubstanciariam em futuras por obra e graça do divino, enfim, por alguém que nada de concreto prometeu e por isso nada de exequível tem para dar. É sempre melhor esperar do que lutar, presumir do que executar, vaticinar do que concretizar.Foram este tipo de sentimentos que deram a vitoria logo á primeira volta a Aníbal Cavaco Silva, o primeiro presidente centro-direita a ser eleito após a revolução de Abril, o protagonista de um período de economia supostamente emergente, o timoneiro de uma Era áurea para alguns, o que nunca se engana e raramente tem dúvidas, o empedernido economista, o inábil gestor de politicas sociais e aquele que agora vai ser o salvador da pátria, anulando diferendos e de braço dado com o governo socialista vai estabelecer a ponte entre a esquerda e a direita, tudo em prol do tal «Portugal Maior», que cansando-nos, se cansou de proclamar durante a campanha eleitoral.
É preciso ser-se muito ingénuo para acreditar nisto; mas o povo é assim mesmo, ingénuo e neste assuntos de politica, sem qualquer malícia, acreditando que um bom pastor poder-se-á tornar num excelente talhante, porque está habituado a lidar com os animais, que por sua vez poderá dar um exímio cozinheiro que nos preparará, num abrir e fechar de olhos, um cabrito assado de fazer crescer água na boca. Na minha modesta opinião, água e pelas barbas, dará esta relação comprometido-colaborativa entre o novo Presidente da República e o Governo de José Sócrates.
A esquerda no seu todo, desunida e inflada de protagonismo, por certo errou. O «Homem para a Eternidade», como tão bem o caracterizou Clara Ferreira Alves, o que alguns chamaram o Presidente-Rei, não devia ter regressado dos caminhos da imortalidade e da distância; o raio não cai duas vezes no mesmo local. O Poeta, quem sabe um fingidor e sentindo com a imaginação, não parou para escutar no vento que passa a noticias do seu país. Aquele que á esquerda da esquerda nada tinha para dizer deveria ter guardado o silêncio, assim como o deveria ter feito aquele que ainda tem algo para dizer; verborreia por um lado e protagonismo forçado por outro, por vezes pagam-se muito caro.
Ilações politicas de tudo isto? Tiram-se muito poucas… Quando se estabelecem estratégias, tem de se equacionar factores sociais e culturais que por vezes não são muito óbvios. Num momento de crise como aquele em que atravessamos, a necessidade de um sentido messiânico do povo português falou mais alto, foi ela que ganhou as eleições. A solução sebastianista e miraculosa que Cavaco Silva tão bem soube personificar, qual D. Sebastião do século XXI, arrebatou o parco entendimento de uma franja de eleitores que o conduziu á vitória.
Desaparecido no Cavaquistão numa tarde de nevoeiro, ele foi o eterno Desejado: em todos congressos, em todas as crises, em todos os governos sociais-democratas que lhe sucederam. Regressou agora envolto em nevoeiro; uma névoa que baralha mesmo os mais avisados e que talvez venha a turvar o futuro do país.
