17 de setembro de 2006

O Sol quando nasce não é para todos

No passado sábado, dia 16 de Setembro, saí rua para ver se, das duas uma, ou me deleitava ou me desiludia com o novo semanário dirigido por José António Saraiva. Desde já, parabéns pela audácia e espírito empreendedor deste novo projecto. Depois de percorrer algumas bancas e pontos de venda constatei que o Sol quando nasce não é para todos, pois do Sol de papel nem a sombra consegui vislumbrar; tive de me contentar com o reduzido Sol digital ou com aquele que nesse dia até brilhava generosamente no céu e que, como diz o poeta, peca, quando em vez de criar, seca.

Basta a ânsia aguda dos portugueses por novidades, uma refrescante campanha publicitária e a promessa de trazer luz ao cinzentismo da comunicação social estabelecida para fazer evaporar 128 mil exemplares do jornal em menos de 2 horas. A curiosidade matou o gato e pelos vistos, fez esgotar o Sol. Eu até nem sou de ir em ondas e modismos, no entanto, tal como muitos compatriotas, calcorreei as ruas de quiosque em quiosque, na esperança vã de conseguir um exemplar disponível: uma jornada perturbante em busca de um Sol que só chegou para alguns.

Esta febre de leitura, esta curiosidade, esta senda por umas folhas de papel, só me faz parecer que os portugueses, e perdoem-me a metáfora, procuram desesperadamente um lugar ao sol, uma luz ao fundo do túnel escuro que percorrem há já algum tempo, um esboço de cor nas suas vidas, uma centelha de novo e de esperança e um ruptura certa com os valores e símbolos que pautaram o seu passado recente. No entanto não nos devemos deixar ofuscar com os brilhos, tanto na vida como na comunicação social, pois muitas das vezes eles são efémeros e falsos, tal como as promessas e as virtudes públicas. O público cruel, implacável e sempre soberano, tanto glorifica o bom como o mau, para sem qualquer remorso, eventualmente votá-los ao fracasso pouco depois, engrandecendo a angústia de uma morte anunciada, que já assolou tantas redacções de jornais deste país.

É urgente continuar a sonhar! Mas também é preciso nos desiludirmos todos os dias, pois só assim os sonhos se transformam em ideias, em projecto e em realidades e não mera ilusões dos sentidos. É preciso inovar mas com cautela! Pois como pude constatar, o sol quando nasce, ainda não chega para todos.

12 de setembro de 2006

LIQUIDEX

Lá afirma a antiquíssima e popular expressão portuguesa de que pagar e morrer é a ultima coisa a fazer. Se a esta adicionarmos o não menos famoso aforismo de que quem paga adiantado fica sempre mal servido, devidamente ornamentado com outras pérolas da sabedoria do povo como – com o mal dos outros posso eu bem, tristezas não pagam dívidas e o extraordinário pobretes mas alegretes, chegamos á triste mas irrefutável conclusão de que talvez estejamos perante um pais de pobres vigaristas, animados burlões e relapsos endividados, mas sempre alegres e de cabeça erguida, na verdadeira tradição do bom-malandro lusitano.

Como os exemplos devem vir sempre de cima, segundo os estudos “European Payment Índex 2005” e ”Spring Report 2006”, elaborados pela Intrum Justitia, líder europeia na gestão de serviços de crédito, com base em questionário respondido por mais de 9.000 empresas de 22 países europeus, o Estado Português foi considerado o pior pagador de entre os 22 países europeus estudados, demorando, em média, 150,8 dias a regularizar as dívidas que contraiu. Salvo raríssimas e honrosas excepções, o estado como cumpridor das suas obrigações dá um péssimo exemplo aos privados, pois não só não se coíbe de contrair dividas monstruosas e incomensuráveis, assim como mostra não ser pessoa de bem, pagando mal e tarde e a más horas, chegando mesmo ao despautério de, no caso de certas câmaras municipais, de levar quase4 ou 5 anos a pagar uma dívida.

Num país onde pouco se cumprem horários e compromisso, onde se marcam encontros e reuniões para hora incerta - entre as três e as três e meia – por exemplo, onde a lei não é para cumprir á risca porque é considerada uma mera sugestão de conduta, o acto de dever tornou-se tão natural como o de beber. O incumprimento tornou-se um lugar comum e alastra de forma perniciosa como a peste: do estado, para as instituições, fundações, associações, grandes empresas, pequenas empresas, micro empresas e até para os particulares, quase todos devem e pagam as suas dividas tarde, sem sentirem que isso põe em causa o seu bom nome e a sua integridade moral, sem qualquer sombra de remorsos ou qualquer outro problema de consciência, quer individual quer colectiva.

Numa lógica de - olha para o que eu digo, mas não olhes para o que eu faço -, qual a moral do estado para convencer ou obrigar os contribuintes a cumprir, se o próprio estado é o maior prevaricador e incumpridor? Qual o incentivo á produtividade, ao empreededorismo e ao investimento num país onde quase ninguém liquida as suas obrigações nos prazos devidos? Como é que é possível as empresas terem uma boa saúde financeira quando, além da pesadíssima carga fiscal, são forçadas a cumpri-la e a liquidar o IVA, por exemplo, antes mesmo de receberem o referido valor do cliente? Não há capacidade que valha, não há paciência que aguente, não há justiça que chegue! Entregar dinheiro a alguém, neste caso o estado, que nos deve dinheiro, é algo que roça o absurdo.

Fala-se na conjuntura, em problemas estruturais de fundo, no desemprego, na herança de décadas de obscurantismo durante a ditadura, fala-se de um problema social e cultural… fala-se muito, mas cumpre-se pouco, pois mais do que identificar as origens importa é corrigir o problema e, dando o exemplo, dar uma nova luz de esperança e rigor ás transacções nacionais. Temos de nos consciencializar todos, quer como indivíduos, quer como membros dos múltiplos colectivos que constituem o tecido empresarial e institucional do país, que pagar tarde e fora do prazo estabelecido contratualmente com o fornecedor, é moralmente, quase equivalente a pagar nunca: é burla, é vigarice, é indigno, é desonesto, é injusto, é ilegal, é prejudicial! Pagar dever ficar para sempre dissociado de morrer, pois o não receber atempadamente é que é a única coisa que leva á morte prematura das empresas e das instituições, conduzindo a economia ao estado moribundo em que se encontra.

Será possível modernizar a Administração Pública? Facilitar a vida ás pessoas? Dar ás empresas a rapidez que precisam? Segundo afirma o governo, é claro que sim; com o Simplex, programa de simplificação administrativa e legislativa, já quase completamente implementado e com resultados práticos visíveis e interessantes.

Caro senhor Primeiro-ministro José Sócrates, caros lideres da oposição, depois do Simplex, é necessário implementar com urgência desmedida o Programa Liquidex, programa de pagamento das dividas do estado e das autarquias a tempo e hora de modo a darem o exemplo e serem consideradas pessoas de bem e a fomentarem assim verdadeiramente a economia. O Programa Liquidex deve ser, a meu ver, a ferramenta primordial para moralização, incremento, dinamização e regulamentação das transacções comerciais de Portugal.

Costuma-se dizer que uma pessoa só morre quando tem que morrer, quando chega a sua hora, o momento exacto, o instante certo. Neste ponto, pagar dever ser tal e qual como morrer: quando chega a hora, no momento exacto da data da factura, no instante certo acordado com o fornecedor.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro