15 de fevereiro de 2005

Saber Fazer

Saber fazer e mostrar simplesmente que se sabe, não só é bonito e fica bem como é aquilo que francamente necessitamos nesta altura em que tudo vai mal e urge dar-lhe melhoras. Mais do que as boas ideias que muitas vezes povoam os maus projectos, mais do que as boas intenções das quais o inferno está cheio, mais do que os comentários, boatos, bocas e outras opiniões avulsas dos chamados treinadores de bancada ou empreendedores de sofá, o que conta é a ética, profissionalismo, rigor e focalização com que se fazem as coisas. Chega de clientelismos! Chega de inércia! Chega de marasmo perante o mal feito!

Estamos a iniciar um novo ciclo politico e não só, um novo governo que a meu ver, e para as primeiras impressões, entrou com o pé direito, sem pompa mas com circunstância, anunciando de imediato medidas concretas, como a comercialização de medicamentos de venda livre em outros estabelecimentos que não as farmácias. Muitos se congratularam com a medida, inclusive a ordem dos médicos não encontrou nela nenhum inconveniente de maior. Claro que os farmacêuticos e as farmácias, reagiram corporativamente de forma negativa. Azar! A bem do interesse nacional, acabou-se o maná das margens escandalosamente elevadas do monopólio de comercialização dos medicamentos de venda livre, na sua maioria com pagamento líquido no acto da compra. Gostei! Vou aguardar por mais medidas oportunas como esta.

Aplaudo novamente o novo primeiro-ministro, ao tomar a iniciativa de silenciar o seu executivo até momento oportuno. Alguns inevitáveis contestatários, inclusive o director do 24 horas, vieram logo a público contestar a atitude, acusando-o de bloqueio ao direito á informação e de má relação com os mass media. Ora, como todos devem já ter notado, informação a mais é ruído. É preciso informar e formar, no momento certo e na quantidade adequada, tudo o resto é jactância e verborreia sem sentido. Estamos a atingir a Era da Desinformação! Um homem que mordeu um cão poderá ser noticia, agora, um Principie inglês que cai do cavalo a jogar pólo sem que nada de mal lhe aconteça, não é assunto que deva ocupar espaço quer na mente das pessoas quer na página de um jornal. E se há coisas em que não se deve gastar tinta, há outras de devem ser rapidamente esquecidas e preteridas por algo mais interessante e importante. Deixai Freitas do Amaral ser ministro, estejamos atentos ás suas acções presentes e não ao seu passado! Deixai o Pedro Santana Lopes voltar á presidência da Câmara de Lisboa, quanto menos dele falarem, mais depressa cairá no necessário esquecimento. Esquecei episódios tristes e infantis como aquele em que um retrato transita do Largo do Caldas para o Largo do Rato.

Pode ser que me engane, que este governo de maioria socialista venha a ser tão mau ou pior do que qualquer um dos outros que o sucederam. No entanto parece-me um começo auspicioso, um aroma a ética e rigor que me agrada. Um vencer da inércia, contornando os boatos e bate bocas habituais. Ás vezes o sistema dá sinais vitais de querer funcionar, provando que a alternância democrática, não só é necessária, como até desejável.

Infelizmente nem todos os executivos socialistas funcionam bem: a nível autárquico, e estou a falar da Câmara do Barreiro e particularmente do pelouro da cultura, a ética, o rigor, o saber fazer e o respeito e consideração que são devidas aos munícipes e afins que se interessem pela engrandecimento do município, parece estar arredada da edilidade. Servir a comunidade num cargo público é um privilégio, não uma forma avara de conseguir dividendos, quer presentes, quer futuros. Todas as cartas merecem resposta, todas as propostas e projecto também, mesmo que sejam três letrinhas apenas: um N, um A e um O, devidamente seguido daquela desculpas circunstanciais de inadequação programática ou de falta de enquadramento financeiro. E disto falo com experiência própria: um dia apresentei um Projecto Cultural na Câmara do Barreiro, dando-me ao trabalho de, inclusive, ter uma reunião com o vereador da cultura. Até hoje, e já lá vão muitos meses, não mereci o respeito e a consideração de uma simples resposta via CTT ou via e-mail, nem um mero telefonema de mero acessor. Nada! Absolutamente nada! Apenas silêncio e falta de ética! Com tristeza, pergunto a mim mesmo, a quantos mais operadores culturais e criadores não aconteceu já algo semelhante. Quase que dá vontade de dizer: Volta, Carla Marina, que estás perdoada!

Não falo nisto agora por despeito, longe de mim, até porque o projecto em questão já foi aprovado por uma outra edilidade. Eu gosto do Barreiro e das pessoas que aí vivem, mas penso, francamente, que mereciam mais e melhor. Chega de clientelismos! Chega de inércia! Chega de marasmo perante o mal feito! E ainda dizem que há terras que não evoluem nem progridem, na medida em que deviam… vá-se lá saber porque!
publicado no Jornal Noticias do Barreiro

1 de fevereiro de 2005

Passe Social: Anedota Electrónica

O novo sistema de passes sociais na Área Metropolitana de Lisboa, irónicamente entitulado «Lisboa Viva», é na sua essencia uma anedota quer tenológica, quer em termos de métodos e procedimentos.

Em crónica que publiquei no Jornal 24 Horas no inicio da implantação do sistema no Metropolitano de Lisboa, eu alertei atempadamente para o facto do sistema não funcionar: a detecção dos chip integrado no cartão era manifestamente ineficaz, que o cartão era demasiado frágil para o manuseamento constante a que estaria sujeito e que o sistema de portas de acesso ao metro era perigoso e lento. Na altura quase fui crixificado por e-mail por alguns leitores cujo conteudo demasiado técnico das sua missivas, os revelava demasiado por dentro de todo o processo, tendo por isso mesmo, aquele discurso tendencioso e parcialista de quem está atulhado de interesses até á medula.

O tempo veio a provar que eu estava certo, inclusive através das centenas de pessoas que tiveram de receber assistência hospitalar por terem ficado entaladas nas maléficamente extraordinárias portas de acesso ao metropolitano. Houve portas partidas, danificadas, cartões constantemente deteriorados, enfim, um caos, depois de se ter gasto fortunas num sistema ineficaz e obsoleto.Como se tudo isto não bastasse, agora decediram acabar com as tradicionais senhas de passe. No entanto, em vez de providenciarem meios electrónicos de fiscalização e controle da validade dos carregamentos do cartão, passam a emitir um recibo e uma cópia do mesmo para que ande em posse do utente para poder servir de comprovativo em caso de dúvida.

Será que faz algum sentido subtituir um papel por dois? Se a intenção, segundo julgo, é criar um título de transporte completamente electrónico, porque não dotar os fiscais de meios de verificação informática de modo a saber se determinado cartão adquiriu ou não um título de transporte válido para aquela data?A cópia do recibo que a partir de agora somos obrigados a carregar conosco é impressa por um processo térmico que, como é sabido, se detiora facilmente em contacto com o calor ou com a humidade. Que controle será possivel fazer com recibos elegíveis, devidamente sujeitos ao calor e humidade dos bolsos e carteiras dos utente? Se não fosse trágico, seria cómico... e de um non-sense total.