27 de janeiro de 2005

A Insegurança Social

Na época que atravessamos, qualquer um, em qualquer local, em qualquer idade pode ficar sem emprego. É um sinal dos tempos; não forçosamente de crise, mas eventualmente de reconversão e de mudança. A crueza dos números em quadro comparativo com o de outros países europeus, não é de modo nenhum alarmante. No entanto a realidade dos dramas pessoais e sociais, quando vista á lupa, é bem diferente.

Quando alguém que labora em continuo durante muitos anos, de súbito se depara com a situação de não ter emprego, é por certo assolado por inúmeros dramas íntimos; sente-se inútil, obsoleto, sem préstimo, um falhado, um perdedor ou então, por um processo reactivo de negação e revolta, sente-se injustiçado, incompreendido, maltratado e vítima de um sistema ou uma situação. Mas seja o que for que o individuo sinta, é sempre uma posição de uma incomensurável fragilidade.

Depois do Big Bang, ou seja, o momento em que o individuo foi despedido, dispensado ou quando cessa o respectivo contrato, e passado o estado de espanto em que o individuo se vê em casa, qual reformado, a ver passar as horas enquanto todos os outros foram trabalhar, há que acordar para a vida: tratar de fazer a visita obrigatória ao centro de emprego e á segurança social para que se possa obter em data incerta, por vezes meses depois, o famigerado subsídio de desemprego. A visita do individuo a este dois serviços resume-se no preenchimento e entrega de papelada, papelada e mais papelada, devidamente intercalado de enormes compassos de espera, gigantescos momentos de desespero e uma filosofia de atendimento em cuja a simpatia, competência, sentido de missão e solidariedade social estão, na maioria dos casos, quase completamente ausentes.

Ao contrario daquilo que se pode julgar numa análise sumária e precipitada, a vida daqueles que não têm emprego é, muitas vezes, difícil e comporta tanto ou mais stress do que a daqueles que têm os seus empregos ou afazeres que lhes enche o quotidiano. É a leitura dos jornais e da Internet á procura de ofertas de emprego, as expectativas sempre reiteradas a cada envio de curriculum, o nervosismo da ida ás entrevistas, o fatal sentimento de rejeição cada vez que não se é admitido, as contas de sumir que se fazem a amiúde ou cada vez que uma factura a pagar faz emagrecer ainda mais o já de si magro orçamento mensal, é a pressão e a compreensão incompreendida dos conjugues ou familiares mais próximos, a irritante compaixão ou comiseração dos amigos e é o tempo que passa sem que a situação mude, apesar dos esforços empreendidos. Tudo isto conduz algumas vezes a um estado catatónico, misto de revolta, sentido de perda e auto-comiseração, que podemos denominar de Insegurança Social.

Quando tudo começa a parecer irremediavelmente perdido e irreversível, eis que, a meros quatro dias do Natal e na véspera de inicio do mesmo, o desempregado recebe uma missiva convocando-o a comparecer a um curso que pouco ou nada tinha a ver com o seu perfil curricular, profissional ou académico. As formações em questão têm pouca valência, nenhuma utilidade, conteúdo desadequado para a requalificação de desempregados, ministrados por vezes em caves frias e húmidas, sem as menores condições de salubridade, higiene e segurança no trabalho, durante 4 dias por semana, á razão de 8 horas por dia, durante 450 horas ou mais. Uma violência e uma tortura com pessoas que estão psicologicamente muito fragilizadas em face da situação precária de desemprego em que se encontram. Isto é pior que uma boa parte das medidas de coacção que pode ser infligida a um arguido; limitação da liberdade, do tempo que se dispõe para procurar emprego, obrigatoriedade de frequentar uma formação á partida inútil... Como num conto de Natal de Charles Dickens, nem a época festiva demoveu os vilões empedernidos do Instituto de Emprego e Formação Profissional de serem mais assertivos com aqueles cujo único pecado foi o de ficarem inadvertidamente sem emprego. Ou aceitam ser encarcerados no gueto subterrâneo dos cursos ou ser-lhe-á de imediato cortada a sua única fonte de rendimento que de momento as vicissitudes da vida o forçaram a aceitar. O que se segue a tudo isto? A obrigatoriedade de usar uma estrela amarela na lapela, de modo a serem reconhecidos na rua como um peso morto para a sociedade, uns inúteis de uns seres desprezíveis?

E tudo isto porque? Por miserabilismo e oportunismo estratégico, puramente uma jogada politica; por um lado, os formandos destes cursos, deixam de enfileirar a coluna dos desempregados para fins estatísticos, por outro lado, parte da despesa com o fundo de desemprego passa a ser suportada por outrem que não directamente o estado.

E assim se tomam medidas avulsas sem qualquer sentido prático! Assim se gasta dinheiro inutilmente! Assim se deteriora a moral e a qualidade de vida dos implicados! Assim se tapa o sol com a peneira...
publicado no Jornal Noticias do Barreiro