Normalmente as pessoas valorizam pouco aquilo que não é conquistado, isto é, as coisas que são conseguidas sem algum esforço são na maior parte das vezes sensaboronas e não devidamente apreciadas.Quando foi dada aos portugueses, com a Revolução de Abril, a liberdade de fazer e dizer, para uma boa parte deles não significou ínfima e intimamente grande coisa; hoje não se pode, amanhã pode-se, numa conquista pouco saboreada e inesperada, fruto de uma reivindicação laboral e de classe que inadvertidamente fez cair de podre um regime, que já de si mal se aguentava em pé.
Depois foram as políticas, o apreender da democracia, a liberdade, a consciencialização das realidades e das dificuldades económicas, o reposicionamento de Portugal no Mundo e as mudanças, profundas para uns e apenas cosméticas para muitos. Depois vieram as soluções de compromisso dos pseudo-reformistas, a economia de mercado e liberalista, a adesão á União Europeia, a Era Dourada do cimento e do betão, em que o fluxo de riqueza oriundo das colónias foi substituído pelos fundos provenientes da Europa. Foi preciso que tudo mudasse para que tudo ficasse praticamente na mesma. Mudou-se o sistema político mas não se reformaram verdadeiramente as instituições e estruturas que tinham sido criadas para servir o regime cessante. Mudaram-se os tempos, mas as vontades e mentalidades continuaram quase na mesma.
Sou pessimista e desconfiado por natureza, mas é com orgulho, satisfação e esperança que afirmo que este país está finalmente a empreender o conjunto de reformas e a revolução de mentalidades que urgia que se tornassem realidade desde a primavera de 1974. Atravessamos um momento decisivo como nação: acabou o tempo dos pareceres e vislumbra-se uma verdadeira mudança no ser, no íntimo, na alma da grande maioria dos portugueses. Antes que as sondagens digam que a maioria das lusas gentes querem ser espanholas, é necessário levar em diante este projecto de mudança de mentalidades dando um novo sentido ao orgulho de ser quem somos.
São as reformas na obsoleta Administração Pública central e local, criada para servir os ideais do Estado Novo e que nunca foi devidamente reestruturada na sua génese. São as reformas na justiça, na segurança social, no sistema de ensino, na política, no combate ao espírito elitista e corporativo do eterno favorecimento de alguns. É o enxame de novas ideias e respectivos empreendedores. È a pluralidade e frontalidade do debate público de ideias como a despenalização do aborto, os direitos dos homossexuais e o problema das drogas. È a consciencialização sobre os diferendos da sexualidade, um dos principais problemas da saúde mental dos portugueses, segundo alguns psiquiatras, através de actos clínicos, de actividades de educação sexual e planeamento familiar, de novelas e programas de televisão, da comunicação social em geral e de conversas francas e despudoradas em particular. São os movimentos de vanguarda artística emergentes, na área da dança, da multimédia, do teatro, da performance, das artes plásticas, da música.
Tudo isto e muito mais, abrem as portas desse Admirável Portugal Novo. E como depois da crise institucional e de valores que atravessámos, são coisas que estão a ser dolorosamente conquistadas, espero que venham para ficar, para se enraizar e dar viçosos frutos a médio prazo.
Publicado no Jornal Noticias do Barreiro
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