9 de fevereiro de 2011

Maiores exportações portuguesas: carne humana e massa cinzenta


No início desta semana o Eng. Sócrates em Santa Maria da Feira vangloriava-se de um aumento de 15,8% nas exportações e tecia duras criticas à oposição por considerar inoportuno a discussão á volta de uma possível moção de censura ao governo, que tal como afirmou Paulo Portas, não se anuncia, apresenta-se. Servia a referida fogueira de vaidades do senhor engenheiro, que dava pelo nome de «Congresso de Exportações», para anunciar a abertura de uma nova linha de crédito às referidas e mais não sei quantos milhões para apoio ás mesmas. Segundo o mesmo engenheiro, numa perspectiva puramente mercantilista e imediatista, o que interessa realmente é mandar coisas lá para fora, porque este humilde burgo de 800 anitos, já está seco e já deu o que tinha a dar. Numa visão inversa à salazarista, que ligava um aspirador nas colónias e alimentava a metrópole, o nosso visionário primeiro-ministro, liga um aspersor em Portugal e secando-o, porque o aumento de produção não consentâneo nem realista com o previsional, alimentará o Mundo com as suas exportações.

Olvidará por ventura o cidadão José Sócrates, que este país, que já deu mundos aos Mundo, nunca foi muito profícuo em matérias primas, nem em grande produção agro-pecuária, nem em força industrial, nem em coisíssima nenhuma, senão em engenho e arte, para parafrasear Camões. Foi o dito capital intelectual que elevou o Portugal de quinhentos à qualidade de uma das maiores nações do planeta, sempre foi a habilidade, a investigação, a criação, a arte e a capacidade inventiva sem limites que tornou os portugueses notados e notáveis; em terra onde a riqueza não abunda, há que aguçar o engenho, ou, citando uma expressão vernácula, ‘quem não tem cão, caça com gato’.

A leitura das estatísticas referentes à emigração portuguesa na primeira década do séc.XXI é inequívoca num ponto; estamos realmente a exportar, mas não azeite, vinho, cortiça, calçado ou papel, mas sim gente, massa cinzenta, ideias, criadores, investigadores e a hipotecar o futuro desta terra que será juncada de velhos retrógrados, rezingas e com baixo nível de escolaridade e especialização profissional. A emigração a que me refiro, ao contrário do período 1930-1970, é maioritariamente de quadros técnicos, gente com ideias e bem sucedida na vida, que de alguma forma procura melhores oportunidades, se cansou dos mandos e desmandos dos pobres de espírito que há já algumas décadas decidem os destinos deste país ou que simplesmente está farta de dar pérolas a porcos.

A estratégia neo-fascista de tornar os portugueses o mais brutos, iletrados e incultos possíveis, parece ser a mira do regime Socrático, cujo lema parecer ser «Só sabem que nada sabem e também não estão interessados em saber mais». Ora vejamos, por um lado desinvestimentos claríssimos do estado em matéria de educação, redução drástica das verbas destinadas ao fomento da cultura e por outra lado, apoio á mobilidade dos artistas e criadores, bolsas a torto e a direito para estudo, investigação e especialização lá fora, verbas para o ano da cultura portuguesa no Brasil… isto só para citar alguns. É como quem diz: vai e não voltes! Vera Mantero, a conhecida bailarina e coreografa, afirmava num seminário sobre internacionalização no CCB que, os jovens bailarinos e coreógrafos, vão para o estrangeiro fazer formação e já não voltam. Não era preciso a Vera ter dito aquilo, é uma coisa que se constata todos os dias; amigos, inimigos e conhecidos de reconhecido valor artístico e intelectual a irem viver e trabalhar lá para fora.

O júbilo e regozijo do Engenheiro Sócrates devia ser no ter conseguido realmente aumentar as exportações portuguesas de forma imparável e impensável até há uns anos,num verdadeiro acto canibalista e barbaro, enxugando e dilacerando a maior riqueza de Portugal: o seu capital intelectual. Porque a emigração aumentou 52,6% entre 2000 e 2006 (Relatório Internacional sobre Migrações de 2007 da OCDE) e porque as novas exportações são de gente, de carne, de ideias, de habilidades; feitas de nomes como Maria João Pires, Cristiano Ronaldo, José Mourinho, Paula Rego, Eugénia de Mello e Castro e um sem fim de criadores, artistas, investigadores, cientistas, enfim, gente válida.

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